A mesa Modos de enunciação: sujeitos escrevivendo os seus lugares no mundo, que integrou a programação do Festival Kwanzaa-Escrevivência, teve também relação com o conceito de ujima no que diz respeito ao Kwanzaa.
A atividade contou com mediação de Esmeralda Negrão, doutora em Linguística pela University of Wisconsin (EUA), pós-doutorado na University of California, Los Angeles (UCLA, nos EUA) e professora do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). A mesa teve também participações de:
- Eduardo Prachedes Queiroz, doutorando em Semiótica e Linguística Geral pela FFLCH-USP e integrante do do Comitê Executivo do Grupo de Estudos Introdutórios em Semiótica Discursiva (LabOrino).
- Milena Manhães, doutoranda em Turismo da USP e especialização em análise ambiental e gestão de território e integrante do Grupo de Pesquisas TBC-Rede: Laboratório de Turismo de Base Comunitária, Sustentabilidade e Rede, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ);
- Maria Rita Taunay Lorenzo Fernandez, mestre em Artes Cênicas pela UniRio e Central Saint Martins College of Art and Design.
Escreviver imagens e existências apagadas
Durante sua fala, Milena Manhães chamou a atenção para o fato de Cabo Frio, município na Região dos Lagos no Rio de Janeiro, ser famosa pela atividade turística, mas ser também marcada pelo fato de a população quilombola lá residente ser invisibilizada. Idem sobre como isso influenciou a sua relação com o turismo, inclusive por ela ser turismóloga.
“Dei um passo atrás para entender o que aconteceu e eu não sabia que elas [comunidades quilombolas] existiam. Por exemplo, se você pesquisar ‘turismo + Búzios’ no Google Imagens, você verá Brigitte Bardot, várias pousadas, hotéis e praias, mas não comunidades quilombolas”, descreve.
Esse fato a levou a refletir sobre maneiras para visibilizar e evidenciar a população quilombola no território e inseri-la como protagonista no contexto turístico. “Quando se fala em escrevivência como ferramenta de representação, mais do descrever e viver, é pensar também em outras formas de escrita, inclusive com a luz - no caso, a fotografia. Estou falando de uma contravisualidade.”
Em virtude de sua pesquisa durante o mestrado, Manhães foi para a comunidade da Rasa, em Cabo Frio, para entender a perspectiva populacional sobre a atividade turística. “Não para falar que eles deveriam fazer turismo de base comunitária”, destacou, mas para saber “o que eles pensam sobre turismo em um território que sofre com as consequências e impactos do turismo, que está no mapa brasileiro como turismo de categoria A, mas que tem muitos outros problemas que acentuam essa desigualdade.”
A partir disso, a doutoranda em Turismo da USP desenvolveu um trabalho fotográfico com a população local no qual as e os participantes fizeram registros imagéticos do território - e que, a partir dos seus próprios olhares, chamaram a atenção para a beleza e valorização do espaço. “Proponho uma técnica de fotografia participativa, que pode, como a escrevivência, ser feita por outros corpos, em especial por grupos que se entendam como coletivo a ponto de a fotografia transpassar quem somos.”
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“Considero que a escrevivência se reflete em toda a diáspora. O que as músicas delas [Dona Ivone Lara e Nina Simone] têm em comum com a escrevivência: episteme, ontologia, resistência, história de si e de seu povo e ancestralidade.”
Escrevivendo a música
Durante a sua intervenção, Maria Rita Taunay Lorenzo Fernandez trouxe a relação entre música e escrevivência a partir das vidas e obras de duas sumidades do universo musical: Dona Ivone Lara (1921-2018) e Nina Simone (1933-2003).
Para tanto, ela considerou pressupostos inerentes ao conceito criado por Conceição Evaristo, como marcadores de raça e gênero, oralidade, resistência e resiliência. “Não estou exagerando quando digo que a música está associada à existência negra, uma vez que a comunidade negra tem autoridade musical desde sempre”, pondera”.
Nesse sentido, a mestre em Artes Cênicas destacou as formações eruditas de ambas. Dona Ivone Lara fez parte do projeto cultural de canto orfeônico desenvolvido pelo maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), ao passo que Nina Simone foi pianista clássica. “Ambas enfrentaram várias resistências de gravadoras, viveram racismo e machismo, e se expressaram na escrevivência de vários modos”, pondera Maria Rita Taunay.
Dentro dessa lógica, ela destacou que ambas foram frutos da união entre as perspectivas popular e erudita em âmbito musical. “Considero que a escrevivência se reflete em toda a diáspora. O que as músicas delas têm em comum com a escrevivência: episteme, ontologia, resistência, história de si e de seu povo e ancestralidade. As músicas delas falam disso.”
Diálogos escreviventes
Eduardo Prachedes Queiroz, em sua fala, propôs à audiência diálogos entre o conceito de escrevivência, dentro da fundamentação de Conceição Evaristo, com perspectivas apresentadas por Grada Kilomba, bel hooks e Frantz Fanon sobre dimensões variadas no protagonismo da população negra.
Dentro desse espectro, Prachedes abordou, por meio de conceitos sobre texto-enunciado e texto-objeto, no papel cumprido por personagens negras e negros para que determinada produção seja de fato considerada uma escrevivência. “A superação da outridade está relacionada à ocupação do papel do sujeito na superação da enunciação. Percebe-se que a identificação entre quem conta algo e é objeto do relato importa bastante para tal superação, como uma pessoa do grupo falando do próprio grupo.”
O doutorando em Semiótica e Linguística Geral pela FFLCH-USP ressaltou que o fato de uma pessoa negra estar no papel de sujeito enunciador não garante que uma obra possa ser considerada produto da escrevivência. “Por vezes, o sujeito está de tal forma convencido pelo sujeito branco sobre uma suposta inferioridade negra que acaba por reproduzir chavões da branquitude sem perceber que trabalha para um projeto que não o inclui.”