“Regularizar territórios quilombolas é também uma política de clima”

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“Regularizar territórios quilombolas é também uma política de clima”
Joédson Alves/Agência Brasil

"A gente protege esse território há mais de cem anos sem documento nenhum. Imagina o que a gente consegue fazer quando o Estado reconhece que essa terra é nossa por direito", diz Dona Zefinha Alves da Conceição, 68 anos, liderança da comunidade e uma das vozes que participaram, em julho, de uma roda de conversa sobre território e clima promovida por organizações quilombolas da região."

TEXTO Solon Neto da Alma Preta

Na Comunidade Quilombola de Boa Esperança do Rio Preto, no norte da Bahia, a mata que cerca as roças de mandioca e os quintais produtivos está de pé há gerações. Não por acaso: moradores dizem que a floresta só permanece intacta porque a comunidade nunca deixou de cuidar dela — mesmo sem, até hoje, ter o título definitivo da terra em mãos.

A fala de Dona Zefinha resume o argumento que ganhou força entre pesquisadores e movimentos sociais nos últimos anos: regularizar territórios quilombolas não é apenas uma pauta de reparação histórica e justiça racial — é também, na prática, uma política climática.

Levantamentos recentes reforçam essa relação. Um estudo publicado em 2025 sobre quilombos titulados em países da Amazônia mostrou que essas terras registram até 55% menos desmatamento do que áreas com características semelhantes fora de territórios reconhecidos.

Outro mapeamento, divulgado no mesmo ano, identificou 632 territórios quilombolas na Amazônia Legal — um número 280% maior do que o registrado até então nas bases de dados oficiais, o que sugere que a proteção climática exercida por essas comunidades é ainda maior do que se calculava.

632territórios quilombolas na Amazônia Legal

 

 

Apesar da relevância ambiental reconhecida por pesquisadores, o ritmo da titulação de terras quilombolas no Brasil segue lento diante da quantidade de processos represados no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Em 2026, o órgão assinou títulos definitivos para mais dez territórios quilombolas e recebeu a destinação de 58,3 mil hectares de terras públicas para avançar em processos de regularização — um passo comemorado por movimentos quilombolas, mas ainda distante do volume de comunidades que aguardam, em alguns casos, há décadas.

Para lideranças como Dona Zefinha, a demora tem custo direto sobre a proteção do território. "Enquanto o papel não sai, a gente fica vulnerável a grileiro, a invasão, a gente que quer derrubar mata pra vender madeira ou abrir pasto. Segurança da terra é segurança da floresta", resume.

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Depoimento — Cecília Conceição

 

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“Território quilombola regularizado é floresta protegida com baixo custo público. É gente que já faz a gestão ambiental no dia a dia, sem precisar de fiscalização de fora, porque a relação com a terra é de pertencimento, não de exploração”

Rogério Nascimento Ferreira - Antropólogo

Para o movimento quilombola, a discussão sobre regularização fundiária dialoga diretamente com os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil nos últimos anos. Ativistas argumentam que políticas de redução de emissões e de conservação florestal dificilmente vão avançar de forma consistente sem colocar a titulação de territórios tradicionais — quilombolas e indígenas — no centro da estratégia, e não como pauta secundária.

 "Não existe agenda de clima séria que não passe por território demarcado e regularizado. A gente já demonstrou, na prática e com ciência, que onde tem quilombo reconhecido, tem floresta em pé", diz a socióloga Marilene Costa dos Santos. 

Enquanto a burocracia segue seu curso, comunidades como Boa Esperança do Rio Preto continuam fazendo o que sempre fizeram: cuidando da terra, com ou sem documento — na expectativa de que o reconhecimento formal chegue antes que a pressão sobre os territórios aumente ainda mais.

 

 

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