Todo sincretismo que se estabelece entre uma cultura dominante e outra dominada tem como resultados dominação e apagamento - Entrevista com David Dias

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Propor novas interpretações e percepções sobre o sincretismo religioso. Mais do que isso, colocar em evidência a herança inerente à ancestralidade afro-brasileira no modo como a Umbanda é conhecida. Este é o objetivo de David Dias, sacerdote de Umbanda...

Todo sincretismo que se estabelece entre uma cultura dominante e outra dominada tem como resultados dominação e apagamento - Entrevista com David Dias
Acervo Ancestralidades

Propor novas interpretações e percepções sobre o sincretismo religioso. Mais do que isso, colocar em evidência a herança inerente à ancestralidade afro-brasileira no modo como a Umbanda é conhecida. Este é o objetivo de David Dias, sacerdote de Umbanda no Terreiro Aruanda, localizado em São Paulo, e mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ou melhor: de acordo com o sacerdote, ele tem “por intento e como missão devolver a ancestralidade negra para a Umbanda, seus membros e seus ancestrais.”

Além de ter fundado o Aruanda Studios, espaço dedicado à produção audiovisual de conteúdos produzidos predominantemente para pessoas de terreiro, e a plataforma de ensino sobre cultura e saberes umbandistas Aruanda EAD, David Dias dedica-se também à pesquisa sobre o sincretismo nas religiões de matrizes africanas.

Os estudos sobre o tema culminaram, inclusive, no recentemente lançado livro “Sincretismo na Umbanda - Pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro” (Editora Encruzilhadas). Mais do que propor reflexões e questionamentos sobre o sincretismo na Umbanda, a obra propõe ao leitor colocar em perspectiva o projeto de Brasil a partir dessa lógica por meio da qual, em nome do mito da democracia racial, houve silenciamento da ancestralidade brasileira em âmbitos religioso, social, cultural e político. Confira a entrevista.

 

Logo no início do livro, você fala das perspectivas de resistência e estrutural relativas ao sincretismo. Apesar das questões relacionadas à lógica do sincretismo, é correto pensar que, no primeiro momento, ele funcionou como uma estratégia de sobrevivência e ferramenta para evitar o epistemicídio da ancestralidade afro-brasileira?

David Dias: Considero interessante esse termo. Ao falar sobre esse conceito - faço questão de cunhar o termo sincretismo de resistência ou de fortalecê-lo, digo que pessoas foram escravizadas e não só os corpos foram escravizados. É muito importante dizer isso, principalmente nesse território onde a escravização tornou o indivíduo negro, enquanto objeto escravizado e produto, é antes de mais nada dizer que não só os corpos foram escravizados.

Quando se escraviza um negro africano, predominantemente o que chega nos primeiros idos da escravidão, apagam-se também a memória e a história, assim como algo caríssimo à ancestralidade negra: quem veio antes. É o processo de construção identitária que permeia a memória e a existência dos indivíduos. Ao escraviza-se um povo, escraviza-se um corpo negro e apagam-se memória, nome, cultura, tradição, hábito, costumes, ancestralidade e gastronomia. Idem uma questão tamanha que fortalece, inclusive, a pessoas negra entender-se como negra e africana. Apaga-se algo que faz a pessoa negra perder somente o nome: ela perde o sentido de vida. 

Assim sendo, sincretismo de resistência significa que há ali a necessidade para se manter vivo - mas não somente. É necessário aceitar a proposta do opressor para ser possível manter hábitos, deuses, inquices¹ e ancestrais vivos - e isso não é uma negociação. Resistiremos em silêncio, mesmo que eles não saibam, mesmo com deuses tão alheios à nossa estética e crença. Resistiremos nos mantermos vivos - mais: manter os nossos deuses vivos.

O negro-banto e macumbeiro não se preocupa apenas com o seu corpo vivo, mas também com o depositório de memória viva. Se morrer, morre todo o mundo que está atrás dele - e será esquecido. A resistência não é só sobre a vida material, mas sim sobre memória - isso explica a ideia de resistência. Lógico, falamos de sobrevivência, mas essa sobrevivência só se dá por meio da resistência que, por muitas vezes, levamos para o tocante à guerra, ao combate, ao confronto. Mas não há possibilidade de combate quando há armas do outro lado ou negociação com uma parte armada e a outra desarmada. Enganam-se os primeiros sociólogos ou antropólogos que dizem ter havido negociação para podermos cultuar nossos ancestrais. Pelo contrário: houve estupro, apagamento, escravidão, tortura e opressão.


Enquanto você falava, vieram à tona figuras pavorosas de pessoas negras escravizadas que acabavam de chegar e passavam por um processo: “olha, a partir de hoje, seu nome é José da Silva, por exemplo.

David Dias: É exatamente isso. A freira chamada Franziska Rehbein escreve uma teoria sobre candomblé e salvação. Olhe o título: “Candomblé e Salvação”. Uma historiadora, chamada Mary C. Karasch, descreve como os negros foram tratados ao chegar no Brasil. É importante tratarmos de uma lacuna segundo a qual os negros foram catequizados e batizados no Brasil. Nem todos: muitos dos Joaquim de Angola, João do Congo e Maria Cabinda foram catequizados, cristianizados e batizados em África.

Há um movimento de cristianização e colonização que precede o trajeto escravocrata de 1500 como entendemos. Há um diálogo entre [o navegador] Diogo Cão e o rei do Congo, posteriormente intitulado Afonso I, no qual tentaram travar luta para não haver colonialismo entre os próprios negros africanos. Não adiantou: catequizou-se, por meio de armas e um bom discurso, boa parte do Congo e de Angola. Muitos desses negros que chegaram no Brasil vieram catequizados. Ainda passaram por rebatismo aqui, mas para certificar de que se esqueceriam não somente de sua religião, mas de seus feitiços, tradições e histórias.


Trata-se de um sintoma relacionado ao mito da democracia racial? Se sim ou não, como o sincretismo estrutural e o mito da democracia racial se retroalimentam pensando na construção até mesmo da identidade da população brasileira?

David Dias: Falamos de coisas que se justapõem. Quando pensamos no mito da democracia racial, é sobre a possibilidade de compreendermos uma nação miscigenada, onde todos os valores se justapõem e se amalgamam de forma que é impossível entender quem é europeu, africano ou indígena. O mito da democracia racial retroalimenta, creio, toda a sociedade brasileira, sejam todas de terreiros, sejam de Umbanda, Candomblé, Jurema ou Terecô, ou sejam da igreja - católicas, cristãs, presbiterianas, pentecostais. Por quê? Esse mito fará as pessoas adquirirem o que se chama na sociologia de colorblindness - ou seja, as pessoas dirão que não veem cor, mas sim alma, espiritualidade, o indivíduo.

A ideia de colorblindness atravessa de modo estrutural e estruturante, e aí está o perigo, a nossa cultura, a impor que não possamos pensar em variações raciais, principalmente ao falarmos sobre estruturas religiosas. Não se pensa ou discute raça ao se falar em algo tão sensível como religião. Em algum momento, fala-se sobre não se discutir raça, pois Deus não vê cor e ajuda a todos, ou porque o preto velho, Ogum e Deus são universais. No caso, o Deus que toca na Umbanda, no Candomblé, no Catolicismo e na igreja Pentecostal.

Não é uma verdade: ela foi criada, mas não pelo nosso povo. A manifestação da democracia racial subjacente oculta algo muito caro: a identidade. Não somos um povo miscigenado a partir da nossa identidade. A nossa identidade é cara, pois as pessoas negras clamam e lutam pela estrutura racial e identidade negra neste país. O movimento negro busca valorização da negritude. Como dizem o professor Kabengele Munanga, Grada Kilomba e o professor Silvio Almeida, negritude é uma identidade política e um valor caríssimo para o povo preto. Mas, em algum momento, essa negritude passa por uma suposta miscigenação, na qual se perde. 


Alguns trechos do livro falam, por exemplo, sobre a perspectiva de pele negra e máscara branca, de Frantz Fanon, e do pacto narcísico da branquitude, de Cida Bento. Pode-se pensar na lógica do sincretismo, ao mesmo tempo em que todas as identidades foram amalgamadas, mas no fim das contas sabemos que uma se sobrepõe às outras?

David Dias: Quero olhar para essas palavras: “as culturas foram amalgamadas”. As pessoas veem bastante com esse discurso. Pergunto: se as culturas foram amalgamadas, por que ainda no terreiro as pessoas têm medo do inferno, a virgindade ainda é um tabu para o povo de terreiro e o aborto é pouco discutido? Por que um deus de uma única cor foi colocado sobre os orixás nos terreiros de Candomblé? Se as culturas são amalgamadas, por que até hoje tem pai de santo passando carão, tendo que levar filho de santo pra tomar benção do padre? Se as culturas foram amalgamadas, por que ainda hoje precisamos lutar pela identidade do acarajé para não virar bolinha de Jesus?

Qual amálgama é essa que facilita e favorece um povo e apaga e desfavorece outro? No mínimo, se as culturas tivessem sido amalgamadas, o Deus branco do congá deveria ter dreadlocks e pele preta. Jesus Cristo poderia ser preto? Conservamos o nome dele, mas vamos tirar o olho dele verde ou azul, vamos pintá-lo de preto e parar com a ideia do espiritualismo social, em que não se acredita em um único deus - mas sim em todos? Por que se todos em que acreditamos, nenhum é negro? Por que quando as pessoas falam que não têm religião e acreditam em Deus, e peço para descrevê-lo, elas descrevem um deus cristão? Que amálgama é essa, que favorece um tipo de cultura e desfavorece outra?

Com isso, vamos ao encontro do que favorece uma branquitude e eurocentrismo dentro das comunidades de axé, fora das comunidades de axé, e de tantos outros espaços religiosos: o pacto da branquitude. Se pegarmos Roberto da Matta, por exemplo, assumirá toda e qualquer cultura passível de sincretismo; logo, tem informações alheias de outras culturas. Entretanto, é curioso que, ao observarmos a síntese dessa amálgama, o resultado é sempre predominante de uma cultura que tem por natureza a dominação. Chego à síntese de que todo e qualquer sincretismo estabelecido entre uma cultura dominante e outra dominada tem como resultados dominação, cooptação e apagamento. O intento do cristão, que muitas vezes está trajado de umbandista, e não tem o mínimo pudor de rezar o Pai Nosso no terreiro, é, antes de mais nada, tornar palatável o Deus constituído à sua imagem e semelhança. Isso é pacto narcísico.

Um exemplo: não pedir favor para estranhos e ter dificuldade de olhar para eles, principalmente se socialmente vistos como menores e não têm para dar - e, geralmente, estão pedindo. A pessoa tem dificuldade de acreditar que este “pretinho” sentado nesse toco pode me dar algo. Agora, quando olho para o qual se parece comigo - homem, heteronormativo, cis, branco e de olho claro -, acredito que ele pode fazer um milagre na minha vida. Criarei um pacto com ele. No caso de um branco, ela criará o pacto com o qual ele coloca como superior a si e não com quem ele vê como inferior. Criam-se, nesse momento, os pactos: a intenção da pessoa branca dentro do terreiro de Umbanda, principalmente se não estiver dotada de letramento racial, é criar um Deus à sua imagem e semelhança.

"Se eu imaginar que tirar o santo branco do congá me fará acessar outra perspectiva de vida, isso talvez me leve para um equívoco tremendo, que me faça cair na ideia da democracia racial. Falo sobre um sincretismo estrutural e, por isso, vem a importância do conceito. Gosto de pensar que o terreiro deve se desvincular da ideia de espaço religioso: ele precisa se entender enquanto organização da sociedade civil."

Vieram à tona agora falsas equivalências, pensando na figura de Exu, assim como a questão das pombagiras e de Iemanjá. É correto pensar que é uma das dimensões, para além do sincretismo, de aculturação também?

David Dias: É aculturação completamente. Um exemplo: vamos colocar, aqui, o seu Deus na figura do diabo. Aí surge este sincretismo, oriundo principalmente do neopentecostalismo. Isso não faz o menor sentido no terreiro de Umbanda, pois não há equivalências. É importante dizer que a figura do diabo não existe na Umbanda, logo, não é possível comparar e compreender essa equivalência e o sincretismo se perde. A referência do diabo é cristã. Por isso, costumamos dizer que quem criou o diabo deve dar conta. Há equivalências que se perdem. A mais desencontrada, oca e inócua existente é entre Oxóssi e São Sebastião. Essa é uma violência de proporção descabida e é mais do que ironizar a cognição negra.

Como posso cultuar o caçador? O meu culto é a uma divindade da caça e a potência dela está na flecha - isso é importante. Quando eu a traduzo, tenho uma égide de informações e elucubração teórica profunda presente nos diversos itãs² que fortalecem a individualidade divina para as pessoas. Conforme a pessoa se entende como filha de Oxóssi, ela precisa compreender que a vida dela precisa ser pontual e retilínea. A palavra de Oxóssi não se perde: se a flecha se perde da caça, ela é vazia e não tem propósito. Toda flecha atirada torta perde seu propósito. Digo mais: o atirador tem uma flecha só, ou seja, não deve perder tempo gastando força e energia com aquilo o que não se põe verdade. Quando o atirador de uma flecha só a solta, ela deve sair na hora certa. 

Olha a estrutura sobre uma divindade como Oxóssi, que é caçador e propõe alimento para toda uma comunidade. Não se trata apenas comida: o alimento é cognitivo e intelectual, e compreende o universo por meio da palavra e da flecha atirada. As pessoas dirão que houve uma substituição e continuaremos a cultuar Oxóssi ao, em vez de cultuar o caçador para, agora, fazê-lo com a caça. Ora, se não é São Sebastião a caça de Oxóssi, todo flechado e atirado? É esse quem o indivíduo branco pretende cultuar e prevalece nos congás de Umbanda. E eu, que cultuava a flecha e o caçador, agora cultuarei a caça e o flechado? O sincretismo cultural reside aí: perco a referência. Perco a referência subjacente à estética e o entendimento da importância da flecha. Como direi para a minha criança preta e para os meus filhos, que são filhos daquele homem branco com o corpo flechado? Eles perguntarão se somos filhos de quem foi flechado e se foi o caboclo quem atirou a flecha.


É como se, no fim das contas, fosse uma metonímia da subalternização, correto?

David Dias: Exato. Este é o maior sintoma da síndrome de Estocolmo: é cultuar quem te oprimiu e colocar no congá aquele quem um dia te matou ou sequestrou. Se quisermos alargar o conceito, Cristo, São Jorge e Virgem Maria no meu congá são nada mais do que a reprodução do dog whistle - o apito de cachorro. O Cristo no congá de Umbanda é o Borba Gato na avenida. Quando a mulher preta, que limpa a casa do senhor e da sinhá nos Jardins, passa diariamente na frente do Borba Gato, ela se lembra dos tamanhos dele e dela. Aí, na única oportunidade que tem de virar uma rainha e tirar o pano da empregada e colocar a coroa da Maria Padilha, ao chegar no congá, o Borba Gato está lá de novo, mas na figura de Cristo. Aí, ela é condenada a ser queimada na Inquisição. Quem morre queimado é a Pombagira - nem Cristo, nem Borba Gato.


Eu me lembrei de outra dimensão no que diz respeito a dois modelos de sociedade: um inclusivo e outro excludente. Abandonar a lógica do sincretismo ou questioná-la, para além do âmbito religioso, é uma medida para apontar caminhos e horizontes para uma sociedade pautada em princípios e valores democráticos?

David Dias: Considero curioso, pois não estou certo de a proposta ser única e exclusivamente o abandono do sincretismo. Se eu imaginar que tirar o santo branco do congá me fará acessar outra perspectiva de vida, isso talvez me leve para um equívoco tremendo, que me faça cair na ideia da democracia racial. Falo sobre um sincretismo estrutural e, por isso, vem a importância do conceito. Gosto de pensar que o terreiro deve se desvincular da ideia de espaço religioso: ele precisa se entender enquanto organização da sociedade civil.

É isso o que propõe pensá-los enquanto territórios quilombolas, de preservação e manutenção da cultura negra e não apenas território de reza e espiritualidade. É curioso olharmos para o sincretismo e entendê-lo enquanto mecanismo de manutenção de protagonismo branco, principalmente o realizado entre uma cultura dominante e outra dominada. Uma digressão: o sincretismo entre umbanda e candomblé é extremamente positivo para ambas e vice-versa - não há problemas nisso. A umbanda, uma cultura afro-brasileira, e a jurema, uma cultura indígena, é importantíssima. Quando entra o cristianismo, o grande problema se estabelece.

Olhar para o sincretismo enquanto movimento de substituição ou contraposição imagética é problemático. Precisamos transpor a ideia de que Iansã não é Santa Bárbara ou de Oxóssi não ser São Sebastião. Idem entender quais são os impactos do Oxóssi branco, pois cairemos na pele branca de máscara negra. O terreiro branco descerá São Sebastião e subirá Oxóssi. Mas voltamos ao começo e vemos o branco colocar o santo dentro do orixá. E, aí, eles continuam a ocultar Oxóssi, mas quem está dentro do Oxóssi é São Sebastião - usarão da nossa tecnologia de novo em favor deles. É esse o perigo.

 

Em cima disso, inclusive como contranarrativa, veio à tona a figura do aquilombamento. Trata-se de uma lógica de fortalecimento e nova perspectiva religiosa e social também?

David Dias: É a devolução, a reparação. Ao inaugurar o espaço novo - estamos aqui há um ano -, digo às pessoas que quero tornar pública minha missão e compromisso com a Umbanda. Tenho por intento e como missão devolver a ancestralidade negra para a Umbanda, seus membros e seus ancestrais. Quando disse ao meu preto velho que passaríamos por mudanças no terreiro, Ele me falou sobre como era bom eu voltar às minhas raízes, pois assim poderia voltar às d’Ele. Encontrei minha raiz e, consequentemente, meu preto velho encontrou. Certamente, meu filho de santo encontrá e não teremos mais dificuldade em dizer que Umbanda é uma cultura negra, de preservação de saberes e memórias e corpos negros. É o rebote.

É fundamental o nosso povo entender isso e se emancipar dentro desse território. Idem que fazer parte de um território negro é, inevitável e historicamente, pertencer a um território de luta. Só não luta quem está morto ou está ciente da vitória por meio dos seus ancestrais - não é o nosso povo. Quem não luta tem herança garantida, possibilidade de tirar passaporte vermelho e sobrenome. Quem não luta conheceu o bisavô, sabe de onde veio e, na maioria das vezes, tem nome de pai e mãe na certidão de nascimento. Quem não luta está confortável com a sociedade. Quem está consciente da sociedade é pessoa de luta, que fala e é de coragem. Não temos tempo de ter medo aqui.

Acredito que isso vai muito ao encontro de uma menção feita por Fanon em “Pele Negra, Máscaras Brancas”, ao citar Jean-Paul Sartre. Sartre diz: “o que vocês esperavam quando tiraram a mordaça que fechava as bocas negras? Que entoassem hinos de louvação? As cabeças dos nossos pais, que curvaram até o chão pela força, quando elas se erguessem, revelassem adoração aos olhos?” É disso o que falamos: o que vocês esperam? Não é possível fazer nada na Umbanda sem uma dose exagerada de revolta. Não se faz revolução sem revolta. A ideia de revolta é interessante, pois é curiosa.


O que pode ser dito sobre a ideia de revolta neste contexto?

David Dias: Mesmo as pessoas dizendo que o preto não sabe falar direito, é importante que o português falado hoje no Brasil, o pretuguês cunhado por Lélia Gonzalez, é inventado pelos bantos. A palavra revolta não fala apenas sobre um descontrole generalizado por meio da ira, mas sobre a organização do ódio por meio da intelectualidade. Quando olho para os meus dentro do terreiro e falo sobre ser momento de revolta, verso sobre o que coloco no livro. Revoltar-se significa voltar mais uma vez. É um movimento natural ancestral que o povo da Umbanda faz ao encontro dos seus ancestrais.

A ideia da confluência e do começo-meio-começo, que tem estado tão popular depois da morte de Nêgo Bispo, é muito banto, é do povo da terra e é do povo centro-africano e do povo da Umbanda, que vai à frente para encontrar quem já passou por ali. Sempre quando vou, volto. Por isso da gira: toda vez giramos para ficarmos no mesmo lugar. Rodamos para encontrar aquele que ali já pisou. Mas, toda vez em que caímos no mesmo lugar, nos encontramos com uma pessoa diferente. Esse é o movimento de revolta, de reencontro e de voltar às bases. E na base encontramos a nossa raiz.

 

Glossário

¹ Inquice: nome atribuído a divindades que formam o panteão dos candomblés da nação Angola.

² Itã: termo iorubá usado para designar histórias e lendas transmitidas por meio da oralidade.


Saiba mais

Confira os termos e personalidades citados na entrevista presentes na Plataforma Ancestralidades:

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