“A geografia de Salvador, marcada por desigualdades, revela como a identidade de uma população não apenas se reflete na paisagem urbana, mas também a subverte, desafiando as lógicas excludentes do urbanismo hegemônico.”
Essa fala do pesquisador Lucas Castro, arquiteto, urbanista e autor do estudo o Habitar as águas: uma abordagem por outras epistemologias de existência, demonstra, a partir do bairro Uruguai, situado na Cidade Baixa de Salvador (BA), como a população de territórios vulnerabilizados encontram alternativas para contornar problemas estruturais, urbanísticos e arquitetônicos existentes nesses mesmos espaços.
O objetivo da pesquisa, uma das selecionadas no Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2024, foi, desse modo, mostrar a trajetória transdiciplinar no enfrentamento de perspectivas hegemônicas na produção habitacional para reconhecer o direito à moradia como um bem cultural situado, plural e diverso.
Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Lucas Bispo fala dessa dimensão e sobre como o urbanismo se intersecciona com demais desigualdades estruturais, que se conectam diretamente com racismo e meio ambiente. Confira a seguir o diálogo.
Um aspecto que se destaca na pesquisa diz respeito à dinâmica com o poder público - seja pelo crescimento do bairro à sua revelia, ou pela sua presença na contramão das necessidades de quem morava lá - pelo déficit de serviços necessários e pela truculência em demais áreas. Como essa dinâmica se reflete no modo como a população e o Estado se relacionam?
Nas tramas das "avenidas identitárias", para citar Carla Akotirene, onde as interseções de múltiplas camadas da identidade conformam e, ao mesmo tempo, também são construídas por esses entes que são os seres, estão presentes também, e muito influentes, as nuances que emergem da relação que estes seres estabelecem com o espaço, inexoravelmente com o ambiente que o circunda. A fruição do ser acontece no espaço, e dele não pode se dissociar, mesmo que seja um espaço figurativo ou imaginativo.
Assim, Martin Heidegger, através de um debruçar investigativo de cunho filosófico sobre a ontologia do Ser, deste ente que somos, seres, reflete sobre as características do Ser, do que compõe o Ser, do que vem, sobre quais seriam suas elementaridades e essências basilares que o identifica como Ser, assim o caracteriza e também o distingue. Em certo grau de divergência com a matriz filosófica cartesiana, que fundamenta a qualidade ontológica do ser unicamente em sua capacidade de pensar, cunhando assim o axioma "penso, logo existo", Heidegger vai explorar a ontologia do ser e sua capacidade de existir através da imbricação intersubjetiva e interseccional entre os atos de habitar, construir e pensar. Assim, ao ser que habita, constrói e pensa, a corrente heideggeriana atribui o termo Dasein, que expressa diretamente a qualidade espaço-temporal do ser, em um entendimento de que qualquer algo que exista, só existe inscrito num período de tempo e localizado no espaço.
Impulsionado pela crise habitacional no pós-II Guerra Mundial, a um breve resgate historiográfico investigativo, Heidegger encontrou na gramática germânica sinonímia na própria etimologia destas palavras - construir, habitar e pensar -, o que o conduziu a uma reflexão sobre quais seriam os reais cernes das questões que tangem o que comumente se intitula de "crise habitacional". Tais palavras compartilhavam o mesmo radical e, em sua polissemia, acumulavam significâncias. Este acúmulo não é aleatório. Pelo contrário: decorre da compreensão idiomática de que o habitar, o construir e o pensar são concomitantes, coemergentes, correlatos, codependentes e sinérgicos. Os recursos conceituais de distinção desses atos entre si, assim como entre muitos outros, ampliam a nossa percepção cognitiva do mundo e promovem construção epistêmica através de reflexão e acúmulo de conhecimento.
Entretanto, assim como essas, muitas outras coisas não podem ser dissociáveis em sua manifestação prática. Neste sentido, a existência perpassa por existir onde e quando, sendo a experiência das existências condicionadas ao seu espaço-tempo de confinamento. Assim, na experiência de existir no espaço-tempo, emergem a construção das concepções de lugar, território e identidade, entre outros, conceitos distintos, embora integrados entre si do ponto de vista analítico da práxis social, filosófica e geográfica. Dessa forma, a relação que determinada população estabelece com seu entorno revela os padrões de sua matriz cultural, uma vez que o ser se projeta no espaço e dele também se reflete, em um jogo de troca de influências intersubjetivas.
Os vestígios dessas formas de ocupação demarcam, individual ou coletivamente, a emergência: de um lugar, consolidado por relações de pertencimento e afeto; de territorialidade, consolidada principalmente pela incidência das relações de poder projetadas no espaço em suas micro e macro escalas; das identidades, uma vez que a morfologia identitária de seus indivíduos, com suas parcelas de contribuição e absorção na formulação das identidades individuais e de grupos, em suas consonâncias e dissonâncias, reverbera a moldar a configuração que identificam os lugares-territórios-paisagens como específicos e característicos, e assim vice-versa - territórios-paisagens-lugares também moldam e caracterizam as identidades.
Longe de determinismos, é irrefutável que as variantes do espaço participam da modelagem e da identificação de seus autóctones, seus nativos, cativos e/ou cativados. Assim, há uma certa cocriação, pois a organização social e urbanística são determinadas e, em certa medida, orquestradas por orientações identitárias, matrizes culturais, territorialidades vigentes e pelos lugares construídos por um determinado extrato ou agrupamento social. Assim, e por meio de muitas outras formas, as identidades relacionam-se com os territórios, influenciando de forma constante e intempestivamente o modo como a população constrói e estabelece, de forma paralela e contínua, o seu senso de ambientalidade, ao mesmo passo que desenvolve seu senso de grupo,e coletividade. Mais profundamente, as nossas construções culturais e identitárias condicionam, inclusive, a forma como aprendemos, apreendemos e lemos o que nos é externo ou interno, interferindo em nossas matrizes cognitivas de percepção, reflexão e construção do conhecimento - e mais ainda, da própria consciência.
Nesse sentido, a identidade se constrói a partir do território ao mesmo tempo que o território, as paisagens e os lugares se constroem em intrínseca relação com os sensos de pertencimento, o que nos retorna às identidades. O constante devir identitário ao qual os seres estão submetidos influi diretamente na forma como os grupos que se formam, imaginam, constroem e relacionam com o entorno à sua volta. Assim, por meio dessa característica ontológica da alteridade, habitantes inventam e reinventam o mundo a seu redor, criando uma nuance do senso coletivo que se projeta no espaço, margeando limiares, estabelecendo fronteiras, delineando limites, mas também revelando inscrições do que é possível chamar de identidade territorial.
Em Salvador, cidade também moldada por intensos fluxos de deslocamento, resistência e reinvenção, essa relação se expressa em suas territorialidades pulsantes. Os bairros da cidade se estruturam em meio a tensões e improvisações, onde a identidade dos habitantes se materializa na configuração do espaço. Uma vasta multiplicidade de grupos e subgrupos compartilham o espaço da cidade, no caso da cidade de Salvador é necessário destacar também os fluxos migratórios advindos do interior do estado no século XX, onde, impulsionados pela nova ordem social - o trabalho -, expressivos contingentes populacionais habitantes das zonas rurais enfrentaram o êxodo para a ocupar as periferias emergentes da capital baiana, produzindo espaços simultaneamente urbanos e rurais, demarcados pela espacialização sobretudo da mais-valia. O bairro do Uruguai, por exemplo, é testemunho da interseção entre urbanidade e identidade, onde a organização social emerge da ocupação dos vazios deixados pelo planejamento oficial e se traduz na autoconstrução, na sobreposição entre casa e comércio, na apropriação das ruas como espaços de convívio. A geografia de Salvador, marcada por desigualdades, revela como a identidade de uma população não apenas se reflete na paisagem urbana, mas também a subverte, desafiando as lógicas excludentes do urbanismo hegemônico.
Dessa forma, o próprio espaço urbano da cidade opera como um palimpsesto [N.R.: papiro cujo texto foi raspado para dar lugar a outro], onde camadas históricas de exclusão se sobrepõem às táticas de permanência e pertencimento dos sujeitos que nele habitam. Como ressaltado em estudos sobre a geografia de Salvador, as territorialidades periféricas são marcadas por práticas de resistência que ressignificam a cidade, demonstrando que a organização urbanística e social não é um fenômeno neutro, mas sim um campo de disputas, onde identidades são afirmadas ou marginalizadas. As identidades constituídas no território, portanto, não apenas influenciam, mas também desafiam e reconfiguram o modo como a população se relaciona com seu entorno, instaurando formas próprias de ordenamento espacial e de ocupação simbólica da cidade.
Um aspecto que se destaca na pesquisa é sobre a dinâmica com o poder público - seja pelo crescimento do bairro à sua revelia, ou pela sua presença na contramão das necessidades de quem morava lá - pelo déficit de serviços e a truculência em demais áreas. Como essa dinâmica se reflete no modo como população e Estado se relacionam?
A relação entre população e poder público se dá a partir de um jogo assimétrico, em que o reconhecimento estatal frequentemente ocorre de forma tardia, descontínua e, muitas vezes, sob ótica intervencionista e não participativa. Os bairros cresceram a partir da necessidade de populações que, em muitos momentos, teve de construir suas próprias infraestruturas, ocupar espaços vazios e criar redes de solidariedade para suprir a ausência do Estado, enquanto ainda eram - e ainda são - reprimidos pelo mesmo Estado, por muitas vezes prestando serviços a ele. Esse processo de autoconstrução e autogestão, comum a muitas periferias urbanas, gera modelos específicos de governança local, onde a dinâmica entre o poder público e a população se estrutura a partir de um constante tensionamento, onde se institui estados de vulnerabilidade capazes de produzir, inclusive, poderes paralelos.
A cidade formal, planejada e institucionalmente reconhecida, raramente acolheu a complexidade das dinâmicas periféricas. Historicamente, os assentamentos urbanos populares foram encarados pelo Estado como problemas a serem resolvidos, e não como manifestações legítimas de direito à cidade. Esse distanciamento entre planejamento urbano e realidade vivida resultou na naturalização de uma lógica em que o poder público oscila entre negligência e repressão. Os momentos em que há atuação estatal são, muitas vezes, marcados por ações de violência, seja pela remoção, seja pelos conflitos fundiários, ou seja por projetos que não dialogam com as necessidades locais.
Por outro lado, a ausência de políticas públicas eficazes criou - e continua a criar - um cenário no qual os próprios moradores assumiram papéis de gestores urbanos. A construção de ruas, escadarias, redes de esgoto improvisadas, espaços culturais, equipamentos comunitários, entre outros, ocorre, em grande parte, sem apoio estatal. E, quando chega, adota a dinâmica de terra arrasada, marcando violentamente a história dessas populações com o desdém, a truculência e o apagamento. As associações de moradores, coletivos culturais e redes de ativismo local tornaram-se protagonistas na formulação de alternativas para suprir demandas não atendidas, e neste contexto, consolidou-se uma forma de resistência expressa na reocupação dos espaços, ressignificação das margens urbanas e criação de sistemas paralelos de governança baseados em vínculos comunitários.
Além disso, as relações com o poder público nem sempre são uniformemente conflituosas. Em determinados períodos, a presença estatal surge de maneira pontual, principalmente por meio de políticas clientelistas ou programas de infraestrutura que visam dar uma resposta temporária a reivindicações históricas. Essas iniciativas, porém, frequentemente carecem de continuidade e planejamento estratégico, perpetuando um ciclo de dependência e precariedade. Dessa forma, em vez de garantir direitos fundamentais, o Estado muitas vezes atua como agente regulador, impondo diretrizes sem um processo real de escuta e participação da população local. Idem como cabo eleitoral, uma vez que a manutenção dessas vulnerabilidades cria contingentes políticos vulneráveis como massas de manobra utilizada por diversos grupos sociais das mais diversas ordens. A lógica da cidade neoliberal coloca as populações racializadas ou de baixa renda em posição de vulnerabilidade estrutural, onde o acesso à moradia digna, transporte, saneamento, serviços públicos e/ou básicos, que são promotores da mínima qualidade de vida, depende de variáveis políticas e econômicas alheias ao controle das comunidades. É um padrão de intervenção que reflete um modelo mais amplo de urbanização excludente e subalternizante, em que bairros periféricos são integrados à cidade formal de maneira seletiva, condicionada e servil.
Assim, quando o Estado decide intervir, frequentemente o faz de forma disruptiva, exemplificando o que pode ser chamado de alto modernismo, modelo político de construção das cidades que usa da imposição de modelos abstratos de planejamento em intensa desconsideração e desvalidação dos saberes locais, promovendo, muito comumente, o crime - ainda não previsto em penalidade da lei - permanente e continuado intitulado de epistemicídio. Isso acompanhado, claro, de seus entes correlatos, como culturicídio, urbanicídio, ambienticídio e, por muitas vezes, genocídio. A realidade é que, por debaixo dos panos, o plano eugenista continua em curso, assumindo novas roupagens, mas mantendo sempre o seu propósito original de promover constantemente, e de forma estarrecedoramente naturalizada nas periferias das cidades e do mundo, um processo de limpeza étnica.
Enquanto o poder público continuar a tratar os territórios periféricos, comunidades, favelas e outras formas de assentamentos vulnerabilizados como um "problema" a ser corrigido e nunca como um interlocutor legítimo dotado de saber, autonomia e soberania, essa dinâmica violenta nunca arrefecerá. Pelo contrário, perpetuam-se vulnerabilidades e ciclos perversos, inclusive por instaurar uma expressiva - e histórica - desconfiança da população em relação ao Estado, retroalimentada a cada intervenção executada. Essa relação só terá vislumbres de mudança quando o Estado abandonar sua postura tutelar e reconhecer os moradores como sujeitos de direito e de saber.
Diante disso, é importante demarcar o papel fundamental das redes comunitárias que se formam nesses territórios na construção de um modelo alternativo de cidade e organização social, baseados em outras matrizes filosóficas. Ao promoverem mutirões para melhorias urbanas e organizarem eventos culturais que dinamizam ao mesmo passo que resgatam a memória local, esses agentes/coletivos do território articulam formas de resistência centrais na luta pelo direito à dignidade. Na mesma via, as comunidades não querem só o “concreto”, no sentido da falência da imposição da materialidade arquitetônica, mas, principalmente, no sentido de que não apenas as obras materiais bastam - suas imaterialidades e abstrações vinculadas precisam ser respeitadas e consideradas na equação.
As organizações comunitárias mostram que a governança urbana não deve ser um monopólio do Estado, mas um processo construído coletivamente. Assim, a relação entre população e poder público, ao menos no bairro do Uruguai, se insere em dinâmica mais ampla de disputa por espaço, reconhecimento e cidadania. Enquanto o Estado atua de maneira intermitente, ora impondo ordens, reprimindo ou oferecendo concessões limitadas. A população encontra na coletividade e na auto-organização os caminhos para perseguir sua permanência e dignidade no território.
"O racismo ambiental não é uma mera consequência das desigualdades sociais, mas um mecanismo estruturante da geografia do poder nas cidades brasileiras. Ele manifesta-se na maneira como populações racializadas são historicamente alocadas em territórios de risco, privadas de infraestrutura adequada e submetidas a condições precárias de habitação."
Outro ponto que vem à tona reflete-se em problemas crônicos com saneamento básico e a ausência de soluções urbanísticas para mitigar os problemas no bairro. Como o racismo ambiental retroalimentou as vulnerabilidades existentes no território?
O racismo ambiental não é uma mera consequência das desigualdades sociais, mas um mecanismo estruturante da geografia do poder nas cidades brasileiras. Ele manifesta-se na maneira como populações racializadas são historicamente alocadas em territórios de risco, privadas de infraestrutura adequada e submetidas a condições precárias de habitação. No bairro do Uruguai, essa realidade explicita-se na ausência crônica de saneamento básico, na vulnerabilidade a enchentes e na falta de soluções urbanísticas eficazes para mitigar os impactos ambientais adversos. Tal situação não é acidental; ela reflete um modelo de desenvolvimento urbano excludente, que perpetua a marginalização de grupos historicamente oprimidos.
A noção de racismo ambiental descreve a relação entre desigualdade racial e degradação ambiental. No contexto brasileiro, essa relação é inseparável da formação histórica das cidades. O urbanismo em Salvador reproduziu uma lógica colonial de segregação, onde populações negras e indígenas foram empurradas para áreas consideradas periféricas, de menor interesse econômico e, consequentemente, mais sujeitas a riscos ambientais. Antes, comumente sob a condição de fugitivos e guerrilheiros pela liberdade em quilombos, ou de cativos em trabalho escravo, não é de se estranhar a falta de interesse quando essa população passa, posteriormente, a ocupar as vilas operárias, ou mesmo o entorno delas. O bairro do Uruguai, situado na Península de Itapagipe, exemplifica esse padrão: assentado sobre áreas de mangue e encostas instáveis, ele reflete a exclusão territorial imposta às populações negras e indígenas desde o período escravista e materializa-se novamente por meio da precariedade no momento em que as comunidades decidem habitar as margens.
A falta de saneamento básico e drenagem adequada no Uruguai não é apenas um problema de infraestrutura: é um dispositivo de poder que mantém a população em um estado permanente de vulnerabilidade. A ausência de políticas públicas efetivas para resolver tais deficiências demonstra intencionalidade estrutural, onde determinados grupos sociais são sistematicamente negligenciados. Enquanto bairros nobres de Salvador contam com sistemas de esgotamento sanitário, drenagem e coleta de resíduos eficazes, comunidades como o Uruguai convivem com a insalubridade e o descaso. Essa disparidade evidencia a seletividade do investimento público e a perpetuação de desigualdades raciais por meio do espaço urbano.
Um dos efeitos mais visíveis desse modelo no Brasil é a recorrência de enchentes, agravadas pela precariedade dos sistemas de drenagem e pela impermeabilização do solo devido à urbanização desordenada. Mas ocorrem também em decorrência de crônica e mórbida gestão do lixo, não se atendo apenas a danificar as moradias em si e bens materiais, mas também representam ameaça direta à saúde pública, ao propiciar a proliferação, potenciação ou enunciação das mais diversas doenças e patologias. Para a população da Península Itapagipana, mais precisamente o recorte dos bairros presentes na região da baía dos Tanheiros, onde se inclui o bairro do Uruguai, a luta pelo saneamento é também uma luta contra a invisibilização de suas demandas pelo poder público. O discurso oficial frequentemente atribui a culpa aos próprios moradores, alegando ocupação irregular e falta de consciência ambiental, ignorando que a vulnerabilidade foi imposta por décadas de políticas urbanas excludentes.
Além disso, o racismo ambiental no Uruguai manifesta-se na ausência de políticas habitacionais que promovam a segurança territorial da população. A especulação imobiliária e processos de gentrificação ameaçam constantemente a permanência dos moradores em suas próprias comunidades. Em vez de soluções urbanísticas que garantam infraestrutura adequada e melhoria das condições de vida, muitas vezes opta-se pela remoção populacional sob o pretexto de revitalização urbana. Esse ciclo de expulsão e precarização reforça a lógica de segregação espacial e negação do direito à cidade para populações racializadas.
Diante desse quadro, a resistência comunitária emerge como um elemento fundamental na luta contra o racismo ambiental. Organizações locais e coletivos de moradores desempenham um papel essencial na reivindicação de melhorias urbanísticas e na construção de alternativas sustentáveis para a permanência. A mobilização popular tem demonstrado que, mesmo diante da negligência do Estado, há iniciativas que buscam transformar o espaço urbano a partir de perspectiva comunitária e emancipatória. Projetos de saneamento ecológico, hortas comunitárias e ações de educação ambiental são exemplos de estratégias que confrontam diretamente as estruturas de exclusão e propõem novos paradigmas de desenvolvimento urbano, inclusive tangenciando outros temas, como a insegurança alimentar.
A superação do racismo ambiental exige abordagem interseccional e antirracista na formulação de políticas públicas. O direito à cidade deve ser entendido como um direito racial, implicando não apenas o acesso à infraestrutura e serviços, mas também o reconhecimento das comunidades periféricas como protagonistas na definição de seus próprios territórios. A reparação histórica passa pela implementação de políticas de habitação digna, saneamento universal e mitigação dos impactos climáticos, garantindo o planejamento urbano de forma inclusiva e equitativa. No caso do Uruguai, enfrentar o racismo ambiental significa reverter um projeto histórico de exclusão, assegurando que moradores tenham não apenas o direito de permanecer, mas de viver com dignidade e segurança, com todos os juros compensados.
O desenvolvimento do bairro apresentou soluções arquitetônicas nas casas como a coexistência e a sobreposição do comércio nos mesmos terrenos das casas. Pode-se dizer que esse aspecto é um dos principais signos da identidade do bairro? Por quê?
A sobreposição entre moradia e comércio no bairro do Uruguai não é apenas uma solução pragmática: é um elemento central na conformação da identidade territorial. Trata-se de prática enraizada na cultura local, que extrapola a dimensão econômica e se inscreve no espaço urbano como uma estratégia de sobrevivência e afirmação social. Essa dinâmica híbrida reflete um modelo de urbanismo popular que desafia a setorização funcionalista imposta pelo planejamento urbano hegemônico e ressignifica os limites entre espaço público e privado, moradia e trabalho, formalidade e informalidade.
Desde sua conformação, o bairro do Uruguai vem consolidando um padrão arquitetônico no qual residências incorporam estabelecimentos comerciais em sua estrutura. Esse fenômeno pode ser lido como resposta às necessidades socioeconômicas de sua população e a uma tradição histórica que remonta aos mercados coloniais e às feiras livres, fundamentais para o abastecimento das cidades e para a organização dos fluxos comerciais na Bahia. O Uruguai, assim como diversas periferias de Salvador, e da grande maioria das capitais brasileiras, consolidou-se por meio de fluxos migratórios dos interiores dos estados, no caso específico de Uruguai, do Recôncavo Baiano. O entrelaçamento entre casa e comércio, portanto, não é uma peculiaridade isolada, mas característica que se relaciona com padrões históricos mais amplos.
No Brasil, a relação entre trabalho e moradia sempre esteve presente nas camadas populares, sobretudo entre a população negra e descendente de indígenas, para quem a informalidade e a autoconstrução foram as principais formas de inserção urbana. No Uruguai, essa lógica aparece nas diversas tipologias habitacionais adaptadas para receber pequenos negócios: garagens transformadas em mercearias, salas convertidas em barbearias, varandas que se tornam pontos de venda, salões de beleza a céu aberto, espaço de passagem como vitrine. Essa flexibilidade espacial aponta para entendimento distinto de urbanidade, em que a rigidez das normas urbanísticas cede lugar à funcionalidade cotidiana e à autonomia dos moradores na configuração de seus espaços. Na contramão das correntes do urbanismo moderno, Venturi e Scott Brown, em ‘Aprendendo Com Las Vegas’, trazem análise da experiência da construção e expansão da cidade de Las Vegas (EUA), tendo como eixo aglutinador central as rodovias. Em mesmo sentido, as urbanidades locais foram construídas através da percepção de seus habitantes de que há uma grande potência de geração de renda a ser explorada residindo nos grandes fluxos cotidianos.
Vinculadas a um senso baseado também no aspecto que essa população já detém de articular redes de apoio, as urbanidades acham terreno fértil para florescer relações de trocas comerciais, em suporte às faltas e lacunas corriqueiramente negligenciadas pelo planejamento público. De forma imediata e criativa, constrói-se um modelo de home office, muito decorrente também de insatisfação com o cenário de exploração em que eram - e continuam a ser - expostos os trabalhadores da base do mercado formal. A casa híbrida surge com um suspiro também de emancipação. Essa fusão entre habitação e comércio também se relaciona com a historicidade das feiras e mercados na formação urbana do Brasil. A tradição das feiras remonta aos circuitos de abastecimento dos saveiros, embarcações que transportavam mercadorias do Recôncavo Baiano para Salvador. No bairro do Uruguai, essa prática deixou marcas tanto na estrutura do comércio local quanto na maneira como a sociabilidade se organiza em torno da troca e da economia de vizinhança. Em cidades como Feira de Santana e Lapa, no Paraná, essa cultura de comercialização em pequenos núcleos urbanos consolidou dinâmicas de urbanização peculiares, pautadas pela centralidade das feiras na organização do território, sendo o fio condutor que deu origem às respectivas cidades.
Sob a perspectiva da crítica urbanística, a sobreposição entre moradia e comércio pode ser compreendida como uma resistência à imposição de modelos urbanos excludentes. A separação entre espaço produtivo e reprodutivo é uma herança do urbanismo moderno, fortemente influenciado pelo racionalismo europeu. No entanto, essa dicotomia não se sustenta em territórios onde a própria sobrevivência exige a integração desses domínios. Assim, longe de representar uma disfunção, a coexistência dessas atividades no mesmo lote deve ser entendida como expressão legítima da cultura urbana popular.
A arquitetura do Uruguai, portanto, não pode ser analisada apenas sob o viés da precariedade ou da informalidade. A adaptação dos espaços para múltiplas funções responde a lógicas que transcendem as limitações econômicas e revelam racionalidade própria, baseada na otimização dos recursos disponíveis e na criação de redes de apoio mútuo. Essa concepção alinha-se a reflexões como as de João Filgueiras Lima, que, ao estudar a arquitetura em Salvador, aponta para a sofisticação dos sistemas espaciais emergentes das necessidades populares, muitas vezes subestimados pelo olhar tecnocrático. Outro aspecto fundamental a ser considerado é o impacto dessa configuração na sociabilidade urbana. Ao permitir que as fachadas das casas se transformem em pontos de encontro e comércio, a arquitetura do bairro contribui para a dinamização dos espaços públicos e fortalece as relações de vizinhança. A rua deixa de ser apenas um espaço de circulação para se tornar um espaço de convivência, trocas e construção de identidades coletivas. Essa lógica remete a práticas espaciais ancestrais, como terreiros e mercados de rua, que sempre desempenharam um papel central na vida social das comunidades afro-indígenas no Brasil.
Entretanto, essa forma de organização espacial não está isenta de desafios. A ausência de regulamentação específica para esses usos mistos pode resultar em conflitos com a legislação urbana e na falta de acesso a direitos básicos, como segurança jurídica e infraestrutura adequada. Além disso, o crescimento da especulação imobiliária em áreas periféricas ameaça a manutenção desse modelo, à medida que os processos de gentrificação tendem a impor tipologias habitacionais padronizadas que desconsideram a cultura local. Diante disso, é essencial que políticas públicas sejam formuladas a partir de compreensão sensível das dinâmicas territoriais do bairro. O reconhecimento da sobreposição entre moradia e comércio como um elemento identitário do Uruguai implica na necessidade de estratégias que protejam e fortaleçam essa prática, garantindo que ela possa coexistir com melhorias infraestruturais e regulatórias sem perder sua essência. A formalização de espaços híbridos, a criação de linhas de microcrédito para empreendedores locais e a flexibilização de normas de uso do solo são algumas das medidas que poderiam contribuir para esse objetivo.
Em última instância, as arquiteturas e organizações espaciais do bairro do Uruguai, assim como de outras comunidades e periferias, não podem ser reduzidas a um problema ou a um desvio da norma. Pelo contrário, devem ser compreendidas como um sistema inteligente de organização do espaço, profundamente enraizado na cultura e na história da população local. A coexistência entre habitação e comércio não apenas atende a uma necessidade econômica, mas reafirma a autonomia dos moradores na produção do seu espaço urbano, resistindo a tentativas de homogeneização e controle. Nesse sentido, reconhecer e valorizar essa prática é também reconhecer o direito das populações periféricas à cidade, à memória e à construção de futuros possíveis a partir de suas próprias experiências, saberes e lógicas.