“O olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória. Assim, enquanto os ancestrais de nós se lembrarem, ainda seremos.”
Esta afirmação, que faz parte do livro “Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do corpo-tela”, é um teaser da magnitude da obra de Leda Maria Martins. A professora, dramaturga, escritora, poeta, congadeira e reinadeira, como gosta de destacar -, que completa 70 anos em 25 de junho, é uma das inquestionáveis referências e faróis para a valorização da intelectualidade afro-brasileira.
Leda Maria Martins tem colocado o seu corpo-tela no mundo para demonstrar - e teorizar - que os saberes afrodescendentes são atemporais e têm papel inquestionável na construção da sociedade brasileira.
Falar de corpo-tela não é um mero acaso, tampouco recurso teórico: trata-se de um conceito idealizado pela autora. Esse conceito considera, inclusive, que o corpo é uma tela na qual histórias, memórias e ancestralidades são performadas e manifestadas por meio de danças, cantos, rituais e vestimentas.
Desse modo, ao conectarem indivíduos aos ancestrais e realizarem mediação entre os mundos material e espiritual, tais aspectos permitem que o corpo negro seja visto como um espaço de disputa, no qual é possível transformar marcas da violência colonial em símbolos de resistência e afirmação da identidade afro-brasileira. E esses demais tópicos fundamentais para a sua trajetória puderam ser vistos durante a Ocupação Leda Maria Martins, mostra que esteve acessível ao público entre dezembro de 2024 e março de 2025 no Itaú Cultural.
Reinado religioso e intelectual
O Reinado e o Congado estão, de modo incontestável, presentes na vida e obra de Leda Maria Martins. Nascida no Rio de Janeiro, foi em Belo Horizonte (MG), cidade para a qual se mudara com sua família ainda no início de sua trilha, onde se formou em âmbitos intelectual, pessoal e religioso - em larga medida, graças ao contato com o Reinado e o Congado. Vale dizer que a escritora é integrante da Guarda de Congo da Irmandade do Jatobá.
Aqui vale uma explicação sobre ambas as manifestações. Ao passo que o Reinado consiste em festas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e aos santos negros, o Congado reverencia, durante festividades, a ancestralidade por meio da tradição de coroação dos reis africanos, representando fundamentos sagrados que territorializam modos africanos de devoção. E, desse modo, o Congado carrega consigo cosmovisões e organizações sociais para além da hegemonia colonial europeia.
Ambas as manifestações religiosas e culturais tornaram-se partes intrínsecas de sua cosmovisão graças a uma promessa que sua mãe, que já fazia parte de uma família congadeira, fizera em virtude de um problema de saúde que a intelectual, tivera no início de sua trajetória: “A promessa era de que eu fosse princesa de Nossa Senhora do Rosário durante sete anos”, relatou, em depoimento para a série Trajetórias, do Itaú Cultural. Todavia, o tempo do principado foi além desse período - “fui princesa conga durante não apenas sete, mas dez anos.”
Além disso, sua mãe fora coroada Rainha de Nossa Senhora das Mercês em 1992. E após a morte da matriarca, em 2005, Leda Maria Martins foi convidada para assumir essa missão - “que tenho trazido humildemente”, destacou, em depoimento para a série “Trajetórias”.
A rainha de Nossa Senhora das Mercês é a rainha de fundamento, dos preceitos e dos segredos; então, é uma coroa com muito poder, com muita responsabilidade.”
Em paralelo, a sua vivência no Reinado e no Congado a motivou a pesquisar e escrever, a partir do pertencimento a esse contexto e de arquivos e testemunhos orais de congadeiras e congadeiros, a obra “Afrografias da Memória”. Contribuição inquestionável para o estudo sobre culturas afro-brasileiras, o livro apresenta ao público perspectiva inovadora sobre memória, oralidade e resistência cultural de práticas afro-brasileiras.
Construção de caminhos e saberes espiralares
Um aspecto fundamental para a construção pessoal e intelectual de Leda Maria Martins passa pela curiosidade e a consequente busca pelo saber. O primeiro passo da trilha feita pela intelectual passou pela alfabetização - “aprendi a ler sozinha com 4 anos de idade”, comentou, em relato para a série “Trajetórias”.
O período de aprendizagem, no qual descobriu também ter talento para matemática e realização de cálculos, foi concomitante com a aproximação do curso de Letras, em que se formou pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Os passos seguintes foram, então, o mestrado em Artes na Indiana University (EUA), entre 1978 a 1981, e o doutorado em Estudos Literários na UFMG, no qual investigou, comparativamente, a trajetória teatral do Teatro Experimental do Negro (TEN) e a formação do Teatro Negro (Black Drama) nos EUA. Além disso, tornou-se, em paralelo, docente da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e, posteriormente, na Faculdade de Letras da UFMG entre 1993 e 2018 - onde ocupou também cargos de direção e chefia departamental.
Um ponto fundamental para Leda Maria Martins ter construído a sua história foi, enfim, o autodidatismo, que reverbera em sua formação e estudos, inclusive na busca por referenciais e pesquisas sobre teatro africano e afro-brasileiro - “é ali onde crio a clave teórica das encruzilhadas e tomo as encruzilhadas como epistemologia”, ressalta.
Por fim, Leda Maria Martins descreve, em relato para a Ocupação Itaú Cultural em homenagem à sua vida e obra, a clave teórica das encruzilhadas que a constitui e constrói o seu caminho:
“Onde estou, onde sou, sou tudo o que me constitui. Os saberes se cruzam e criam outras formas de se manifestar.”