“Quanto menor for o contato de uma pessoa negra com uma imagem semelhante à dela, menos ela aprenderá sobre si mesma.”
Esta frase da cineasta Joyce Prado Almeida passou a ter sentido mais profundo anos após o contexto em que ela declarou, em fevereiro de 2023, quando ela concedeu entrevista à Plataforma Ancestralidades.
À época, o contexto dessa declaração da cineasta, que foi ao Orun aos 38 anos, era sobre a sub-representação de pessoas negras à frente e atrás das câmeras. Tanto que outra afirmação feita por ela instantes depois reforça esse diagnóstico: “Essa experiência não é simples, mas um desafio para podermos nos ver em tela e realizar experiências sobre nós.”
Agora, ao revisitar o diálogo feito à época com ela, essa frase ganha novos contornos e proporções. Mais do que um diagnóstico sobre o panorama atual do cinema brasileiro e da sub-representação de pessoas negras nessa indústria, trata-se de um chamado para mais cineastas seguirem o seu legado.
Essa dinâmica, vale dizer, diz respeito a haver mais atrizes e atores negras e negros em cena, assim como em postos estratégicos e criativos - seja na direção geral ou de fotografia, construção de roteiros, entre outros postos.
Não por acaso, essa dimensão reflete-se no trabalho exercido pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), da qual Joyce foi uma das fundadoras. Resiste no combate à narrativa única por meio da encenação e do poder de contar e dirigir histórias feitas por e sobre pessoas negras em todas as suas multiplicidades e complexidades.
Inspiração ontem, hoje e amanhã
Joyce Prado Almeida soube como contar histórias por e sobre pessoas negras - também para, mas não apenas direcionadas a elas. Por meio da Oxalá Produções, da qual foi também fundadora, a cineasta não economizou esforços para colocar pessoas pretas e pardas em evidência.
Isso vale para a dimensão estética, por meio do uso de iluminação e enquadramento devidos para evidenciar a pele e cabelos negros - o que foi e ainda representa desafios técnicos, mesmo menores atualmente. Idem para o modo como pessoas negras contam as suas próprias histórias, o que se torna ainda mais emblemático ao se considerar o protagonismo narrativo e intelectual.
Essa abordagem está em consonância com outra afirmação que ela fizera durante a mesma entrevista:
“A partir do momento em que temos espaço e tomada de decisão, pessoas negras passaram a olhar diferente de como foram ensinadas pela branquitude.”
Exemplos nesse sentido não faltam. O documentário ‘Chico Rei Entre Nós’ (2020) e os videoclipes da artista Luedji Luna - ‘Banho de Folhas’, ‘3 Marias’ e ‘Bom Mesmo é Estar Debaixo D’Água’, entre outros exemplos, mostram o brilhantismo de Joyce, que agora é eterno e imortal.
Em paralelo, Joyce foi também diretora da série ‘Ancestralidades’, coprodução da Plataforma Ancestralidades - por meio de Fundação Tide Setubal e Itaú Cultural - com o canal Arte 1.
Seja na parte criativa ou por meio do ativismo no segmento audiovisual, o legado e a marca que Joyce Prado Almeida deixa são eternos. Mais do que isso: são fontes de inspiração e de chamado para as gerações atual e futura à ação. E essa percepção dialoga, enfim, com outra afirmação dela durante a mesma entrevista:
“Decolonizar o olhar é um processo de revisitar condicionamentos quando se olha para uma imagem, objeto ou história narrativa. É a ideia de como há acesso para criar narrativa a partir da nossa perspectiva e a possibilidade de conduzir as pessoas a revisitar essas imagens e elaborar sentidos e significados.”