Antônio Bispo dos Santos nasceu para a ancestralidade. Não é possível dizer que Nêgo Bispo, como o pensador quilombola era também conhecido, morreu. Ele nos deixou, em âmbito físico, em 3 de dezembro, aos 63 anos - às vésperas de completar 64 anos. Todavia, sua obra, sua luta e seus ideais continuam entre nós. E cabe a todas e todos nós torná-los eternos, tal qual ele será.
Relator de pensamentos e saberes, como ele gostava de ser referido, Nêgo Bispo nos deixou como legados de sua breve, porém enriquecedora e inspiradora, passagem neste mundo a luta incansável pelo direito e pelo cuidado à terra. Idem a relação com o território e com o mundo a partir dos ensinamentos e da cosmovisão quilombolas.
Dentro dessa lógica, entre os diversos ensinamentos deixados - e eternizados - por Nêgo Bispo, nos ficam como legado, entre os inúmeros saberes, a alternativa civilizatória baseada na biointegração. Ou seja:
“a relação entre humanos e natureza é de comunhão prazerosa. A lógica da biointeração tem como princípios extrair, utilizar e reeditar, que se realizam em uma relação comunitária, coletiva, em que a capacidade de cultivar, coletar e compartilhar são inerentes.”
Prêmio Milú Villela - Itaú Cultural 35 anos
Em 2022, Nêgo Bispo foi uma das dez personalidades de destaque nos campos artísticos e culturais laureadas no Prêmio Milú Villela – Itaú Cultural 35 Anos. À época, em depoimento ao Itaú Cultural, ele fizera a seguinte declaração: “Fogo! Queimaram Palmares, nasceu Canudos. Fogo! Queimaram Canudos, nasceu Caldeirões. Fogo! Queimaram Caldeirões, nasceu Pau de Colher. Fogo! Queimaram Pau de Colher… e nasceram, e nasceram tantas outras comunidades que os vão cansar se continuarem queimando. Porque, mesmo que queimem a escrita, não queimarão a oralidade. Mesmo que queimem os símbolos, não queimarão os significados. E, mesmo que queimem nossos corpos, não queimarão a ancestralidade."
Ainda, ao falar sobre a premiação, ele continuara com os seguintes agradecimentos: "Vivas as vidas porque todas as vidas são necessárias. Dito isso, eu quero agradecer a minha geração por ter compreendido que educar, adestrar, catequizar, colonizar é tudo muito parecido. Exatamente por isso, a minha geração, na qual me incluo, me ensinando e não me educando. Quero agradecer a comissão por acolher a nossa trajetória; esse prêmio não é para o nosso nome, é para a nossa trajetória. Quero parabenizar o Itaú Cultural por ter compreendido que uma das melhores maneiras de se cuidar dos saberes é contribuindo com quem cuida das memórias.”
Sobre a ancestralidade
Confira o verbete sobre a trajetória de Nêgo Bispo na Plataforma Ancestralidades e saiba mais aspectos sobre sua trajetória.