“Não existe política pública sem ciência e não existe política pública e ciência sem o povo e saberes tradicionais e populares.”
Esta afirmação, feita pela pesquisadora e ativista no movimento negro-ambiental Ana Sanches, é didática quando se fala no combate à desinformação e protagonismo popular. E a fala em questão dialoga com o trabalho exercido pela especialista: ela é também doutoranda em Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP) e consultora no departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador no Ministério da Saúde nas pautas de equidade.
Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Ana Sanches enfatizou aspectos relativos à comunicação científica e ao combate à desinformação, os quais passam pela valorização de saberes tradicionais e populares. Nesse sentido, a produção científica precisa considerar e evidenciar as descobertas que as populações de territórios originários e periféricos fazem quanto aos seus respectivos saberes e vivências.
Desse modo, para além do combate aos efeitos das mudanças climáticas - que atingem com mais veemência as populações de territórios periféricos -, privilegiar tais saberes é estratégico também quando se fala no desenvolvimento de políticas públicas efetivas.
Confira a seguir o diálogo.
Ainda que dados e evidências sejam fundamentais para mostrar os problemas causados pelas mudanças climáticas, pode-se ver com frequência tentativas de negacionistas para desmerecê-los. Quais são as possíveis estratégias para sensibilizar grupos céticos sobre a pertinência de tais evidências e mobilizá-los para transformações coletivas?
Ana Sanches: É importante termos em mente, quando se pensa em divulgação de ciência e de qualquer saber, que não convenceremos aqueles grupos convictos quanto a algo não ser bom ou não existir. Esses grupos, historicamente, tentam comprovar a sua hipótese, inclusive criando as mais diversas narrativas mais absurdas possíveis. O nosso foco, enquanto pessoas pesquisadoras, precisa ser em entender as brechas de pessoas que estão em dúvida ou sendo enganadas de alguma forma.
Existe, sim, um interesse político que lucra com o negacionismo e a própria destruição do meio ambiente e, consequentemente, com o agravamento dos eventos climáticos extremos e toda a piora da crise climática. Toda crise é produzida e é lucrativa. A crise do clima, que é também de saúde pública e acaba sendo de direitos humanos, que afeta especificamente grupos minoritários - como populações indígenas, quilombolas, periféricas -, é lucrativa e, muitas vezes, é intencional. O nosso foco precisa ser em dialogar com pessoas que são, de alguma forma, enganadas ou não têm acesso a alguns dados científicos, mas também com muita humildade, em uma perspectiva de compreensão e diálogo.
Quanto aos grupos negacionistas, infelizmente, tendo a achar que nunca os convenceremos de que a ciência é importante de ser credibilizada. Precisamos combatê-los em vez de tentar convencê-los. É necessário mostrar para a população, seja acadêmica ou não, o povo como um todo e gestores políticos, que esses grupos fazem mal à saúde. Não temos de tentar convencer o negacionista: é necessário combatê-lo com informações, mas também com muito diálogo, muitos dados e muita paciência.
Outro ponto sobre dados e evidências: como eles podem ser estratégicos para criarmos ações para disputar narrativas e propormos novos modelos socioeconômicos que contemplem o papel central da preservação do meio ambiente?
Ana Sanches: Percebo, enquanto pesquisadora e pessoa que vem do movimento social, que temos muito a aprender com a população, seja ela periférica, quilombola - que também está como periférica - e indígena. O processo de educação impositiva nunca funciona e, inclusive, Nêgo Bispo já falava que qualquer tipo de colonização tenta ser forçada e educativa. Considero que o caminho é uma construção coletiva, de escuta compartilhada de saberes e pesquisadores já identificaram isso,
Há uma ideia de que as pessoas não sabem o que são mudanças climáticas. Mas elas não só sabem, como sentem muito mais do que muitos pesquisadores que estão, às vezes, no ar condicionado, produzindo as suas pesquisas. Isso não é ruim: é importante haver condições adequadas para se produzir qualquer trabalho - e pesquisa é um trabalho. Mas o caminho para o diálogo com as populações que têm dúvidas ou questionamentos é a escuta - ela vem antes do possível ensinamento. O que me parece servir, então, é uma escuta que seja compartilhada e seja dialógica - ou seja, que vá na práxis da execução. Quando a população se sente pertencente aos processos decisórios, e que suas vivências e saberes são validados, aumentam a expansão coletiva e a fé dessas pessoas.
É importante entendermos também o que as pessoas dizem. Se eu, enquanto pesquisadora, quero falar sobre mudanças climáticas no território, qual forma de linguagem essas pessoas usam? Talvez não usem “mudanças climáticas”, mas podem usar algum termo para mostrar ter percebido que algo mudou. Por exemplo, pode ser para situações em que já não é mais possível plantar mandioca em uma determinada época do ano, o alface já não está florindo de uma forma adequada, os animais se comportam de outra forma e as marés estão também completamente invertidas. Entender o que o povo já está dizendo é um caminho. O grande processo para nos entendermos e conseguirmos combater quem causa as mudanças climáticas é um processo dialógico de escuta e depois de construção coletiva.
"O caminho para o diálogo com as populações que têm dúvidas ou questionamentos é a escuta - ela vem antes do possível ensinamento."
Isso passa pelo processo de desenvolvimento de propostas e ações em conjunto entre a produção acadêmica e os saberes territoriais?
Ana Sanches: Com o conhecimento disponível hoje e todas as discussões que a internet também nos proporcionou, boa parte de pesquisadores, principalmente das áreas de humanidades, compreendeu que os saberes tradicionais são extremamente importantes. Uma das coisas que ainda precisam ser repensadas é a respeito de quais são as formas de interação respeitosa.
Há vários exemplos importantes de como isso acontece. Alguns são a Política Nacional de Saúde da População Negra, construída por meio de escuta, a Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola e a Política do Campo, da Floresta, das Água, Povos e Comunidades Tradicionais. Esses são exemplos que envolvem saúde, mas também acessos e processos de resiliência. As comunidades, quando estão organizadas, conseguem participar desses processos - e falo de construção de políticas públicas que são completamente dependentes de dados e de ciência.
Não existe política pública sem ciência e não existe política pública e ciência sem o povo e saberes tradicionais e populares - tecnologias sociais. Esses saberes são essenciais para ser validados. O ciclo da política pública só será de fato eficaz se seguirmos todos esses processos.
Parece um pouco repetitivo falarmos da necessidade de participação social, mas essa é a espinha dorsal e, talvez, a grande fundação das raízes desse grande projeto de sociedade. Uma sociedade que consegue se articular na sua gestão política, produção de dados científicos e saberes sociais, populares e ancestrais conseguirá se fortalecer melhor para que as pessoas tenham o cuidado necessário para lidar com os eventos climáticos extremos. Isso vale também para ser possível se articular para barrar, pausar, mitigar e adaptar processos que precisam ser adaptados.
Promover o engajamento da população, envolvê-la, ouvir as suas demandas e construir em conjunto são também maneiras para fortalecer o tecido democrático e a participação democrática?
Ana Sanches: Sim. Essa é uma das etapas da democracia. Existem lemas no movimento social, sendo alguns deles a Coalizão Negra por Direitos e a Rede Quilombação, que são sobre a democracia nunca ter chegado à periferia e que enquanto houver racismo, não haverá democracia. Claro, há um processo de nomeação democrática, para reivindicarmos uma democracia. Mas os movimentos sociais nos dizem que essa democracia, que ainda tentamos segurar, ainda é frágil.
Uma parte do processo democrático de qualquer país passa por escuta e consideração do que se fala dentro da base popular. Chamaremos aqui esses movimentos de populares e de saberes tradicionais e ancestrais. Sem dúvida, qualquer projeto de democracia que não escute e não valide os movimentos sociais e saberes tradicionais é extremamente frágil e falacioso.