Faltam adjetivos na língua portuguesa - e em qualquer outro idioma - para descrever a grandiosidade da vida e da obra de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). A ruptura com padrões estabelecidos pelo status quo, em épocas e contextos diversos, é uma constante em sua vida. Isso tudo reverbera em seu trabalho.
Os muros que a autora precisou transpor e derrubar, inclusive, foram inúmeros e enormes. Primeiro, o determinismo racial e de gênero, que serviram também como base para a construção socioeconômica e cultural do Brasil, inclusive no século XX, não foram capazes de frear o seu poder de síntese e de análise por meio das letras.
Depois, ela não hesitou em denunciar, por meio da escrita, a miséria à qual ela e a população da favela do Canindé, em São Paulo, estiveram submetidas em meados do mesmo século. Mais do que mostrar uma parte do Brasil que a opinião pública se recusava em reconhecer, ela escancarou as consequências de séculos de organização social perversa e que ainda têm inegáveis marcas até hoje.
A fama conquistada a partir destes mesmos relatos, que a tornaram célebre e foram eternizados no clássico Quarto de Despejo, foi o signo do que ela não queria que a definisse: ela fez questão de mostrar que não seria reduzida à categoria de autora que falava exclusivamente sobre a vulnerabilidade social. Ela até poderia falar ou cantar, como foi o caso no disco homônimo do livro que atraiu os holofotes para si, mas deveria ser em seus termos, na contramão de pressupostos mercadológicos.
Mas uma coisa é fato: independentemente do ponto de partida para análise, é consensual que Carolina Maria de Jesus teve papel importante para visibilizar narrativas de intelectuais e da população negra, além de mostrar que tais segmentos deveriam ter protagonismo e agência sobre suas próprias trajetórias. É o que explica Elena Pajaro Peres, doutora e mestra em História pela Universidade de São Paulo (USP) e com pós-doutorado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), por meio da pesquisa Escrita Proibida. Expressão Romântica e Diáspora Africana nos Manuscritos de Carolina Maria de Jesus.
“Carolina Maria de Jesus foi vista como uma voz dessa carência, uma voz representante dos que nada possuem e que destacava os problemas a serem superados pelo Brasil. Essas análises já apontavam a ruptura provocada pela sua obra do que se acreditava possível até os anos 1960, quando o pensamento dominante imaginava que pessoas negras e pobres, em particular mulheres negras, não seriam capazes de assumir o protagonismo e a agência de suas próprias narrativas, especialmente por meio da literatura”, explica.
Narrativa insubmissa
Ainda que o notório sucesso de Quarto de Despejo tenha sido um divisor de águas em sua trajetória pessoal e profissional, Carolina Maria de Jesus não queria que sua obra ficasse resumida ao livro. Todavia, a ânsia de fugir de limites mercadologicamente estabelecidos para ela - limites exemplificados na obra Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada (1961), a fez buscar por novos horizontes literários, como no caso de Pedaços da Fome, seu mergulho na ficção.
Para além de limites narrativos, um aspecto salta aos olhos quando se fala no espaço que lhe fora concedido - como uma voz a ser, no máximo, tutelada. O trecho a seguir, disponível na Enciclopédia do Itaú Cultural, reforça tal dimensão:
“A figura da ex-favelada e sua obra são consideradas apenas quando revelam a face negativa do desenvolvimentismo. As oscilações ideológicas da mulher que, famosa, busca a atenção da imprensa e do público não trazem elementos significativos à época.”
Ainda que tais conflitos com o status quo mercadológico tenham apresentado dificuldades, a escritora manteve-se coerente à sua perspectiva intelectual e artística. Ou, como define Pajaro Peres, em seu “caminho ético e estético”. E esse pode ser considerado como um dos legados deixados por Carolina Maria de Jesus para as gerações literárias seguintes.
“As lições que ela deixou para autoras e autores foram aquelas que indicam a necessidade de sempre persistir em seu ideal e não abandonar seus anseios e objetivos. Para Carolina, era muito importante manter-se íntegra como artista e permanecer firme em seus projetos. Era uma artista comprometida com aquilo em que acreditava”, destaca.
Além do que se lê
Um ponto emblemático na obra de Carolina Maria de Jesus, em especial no que diz respeito a Quarto de Despejo, é a fuga do que se entendia pela norma culta da língua portuguesa à época. Ainda que seja uma marca do livro, pode-se afirmar que a autora não se contrapunha intencionalmente ao padrão outrora vigente.
“Ela tinha preferência por uma escrita mais rebuscada e procurou aprender com os clássicos da literatura, com os poetas românticos e escritores diversos. A junção dessas leituras com a familiaridade que possuía com as culturas orais das comunidades diaspóricas e migrantes, das quais fazia parte, a permitiu criar um estilo próprio na literatura. Esse modelo aproxima-se muito das formas de falar dessas comunidades, acostumadas à incorporação de novas palavras e a construção de novos sentidos, quando necessário”, detalha Pajaro Peres.
Ainda nesse contexto, esse estilo próprio na literatura funciona também como legado para as gerações seguintes. O motivo? Tais elementos mostram possibilidades criativas que transitam pela interconexão do aprendizado de formas plurais de escrever e falar. Porém, não há distanciamento de bases formais, ao conferir novos sentidos para palavras e suas respectivas combinações.
“Essa é uma tarefa intensa que exige das novas autoras e autores abertura para formas diferentes de escrita e de criação e, ao mesmo tempo, a atenção voltada ao seu próprio meio e formas de falar e escrever que lhe são próprias, procurando compor um estilo próprio, como fez Carolina”, ressalta a doutora e mestra em História pela USP.
Resgate e legado
Ao mesmo tempo em que estudar e trazer a obra de Carolina Maria de Jesus para os dias atuais é um sinal inequívoco de valorização de seu trabalho e, consequentemente, da produção intelectual negra, a reconstrução de sua trajetória permite outra compreensão. No caso, a perspectiva segundo a qual a produção intelectual conecta-se à esfera literária como estratégia de enfrentamento de diversas modalidades de opressão em âmbito racial, passando pela violência, injustiça e segregação, têm papel de destaque.
Por fim, essa lógica dialoga com o legado artístico de Carolina Maria de Jesus, cujo grande mérito é a capacidade de permanecer em aberto. Ou seja, sucessivas gerações completam e transmutam continuamente os significados contidos em sua obra.
“Seu legado traz como marca a determinação e persistência que a distingue como uma escritora que construiu relatos profundamente autobiográficos, ao mesmo tempo intensamente críticos e propositivos. Carolina era uma guardiã da ancestralidade, observadora atenta do mundo e trabalhadora da palavra, que correu atrás de seu ideal e se fez publicar, mesmo com todas as dificuldades que enfrentou”, finaliza Elena Pajaro Peres.