Três irmãos planejam aproveitar as férias escolares para assistir a filmes, ficar nas redes sociais, divertir-se com jogos eletrônicos e explorar o universo tecnológico. Por outro lado, o pai delas tem outros planos: no caso, apresentá-los a uma série de tradições familiares - às quais não dão muita atenção. Todavia, um evento extremo faz o trio entender as intenções do patriarca e, finalmente, seguir o que ele tentara alertá-los o tempo todo.
Parece argumento de um filme de super-heróis - e super-heroínas - juvenis, mas há um elemento fundamental propositalmente não citado no primeiro parágrafo: os poderes incríveis com os quais os três irmãos teriam contato estavam diretamente relacionados à ancestralidade. Pois bem, essa é a premissa da HQ Os Afrofuturistas - O Ataque dos Kips, desenvolvida por meio de parceria entre o roteirista e doutor em comunicação Marcelo Lima (foto) e o ilustrador Renato Barreto.
Contemplada pelo programa Rumos Itaú Cultural 2019-2020, a obra mergulha no universo - ou melhor: clubinho de férias - dos irmãos Tereza, Dandara e Cosme e mostra como eles não estão lá muito felizes em deixá-lo de lado para atender ao pedido do pai, Lucas, que planeja ensinar para os filhos os saberes ancestrais da família.
Mas, como em toda boa história envolvendo aventura e um quê de suspense, um evento extremo - no caso, quando criaturas misteriosas invadem a casa da família - chacoalha a perspectiva dos adolescentes. Como consequência desse episódio, eles percebem que a melhor maneira para contornar essa história e manter a família em segurança é aliar os conhecimentos adquiridos por meio da leitura de gibis e de campeonatos de videogame com (adivinhe?) os saberes ancestrais transmitidos pelos pais.
Claro, toda essa trama com os dois pés no afrofuturismo não foi criada por acaso. “A brincadeira na HQ é: a ancestralidade é o superpoder e o [elemento] que abre caminho para as crianças se transformarem nos super-heróis que elas tanto admiram”, explica Marcelo Lima. De acordo com o roteirista, esse recurso foi colocado em cena para mostrar que o futuro pode, sim, se relacionar com o passado.
“Elas não conseguem ver isso porque estão, de certa forma, buscando elementos externos, o apelo futurista, tecnológico e consumista que a cultura nerd apresenta - isso tem elementos positivos e negativos. Esse conflito faz as crianças se voltarem para a ancestralidade como uma força que elas combinam com a nerdice delas para serem ainda mais fortes”, destaca.
Representatividade e aventura
Um ponto que vem à tona quando se fala no universo geek é a sub-representação de protagonistas negras e negros em produções culturais desse segmento, em que pesem lançamentos nos últimos anos com tais personagens em papéis de destaque. Se hoje o debate sobre o tema é intenso e mostra caminhos contra-hegemônicos, como em projetos como o Perifacon, ele tinha muito menos visibilidade nos primeiros anos do século XXI.
Nesse sentido, a presença de personagens afro-brasileiros, assim como o contato que crianças negras têm com o universo geek, teve papel central para o desenvolvimento de Os Afrofuturistas - O Ataque dos Kips - e mostrar para esse grupo que elas podem se sentir representadas em produtos culturais com esse perfil.
“A maneira que encontramos para isto foi calcada em duas proposições. A primeira é na criação da turma de personagens negros que já está imersa na cultura geek e é fã de vários super-heróis negros. Isso é algo ao qual as crianças têm mais acesso hoje do que no começo dos anos 2000”, explica Marcelo. “Ou seja, estamos ao mesmo tempo representando essa criança da geração alpha [nascida após 2010] e apresentando novos personagens que podem expandir seu imaginário.”
Ainda nessa lógica, mas com os dois pés na decolonialidade, o viés ancestral é um dos elementos centrais da HQ. Ainda assim, surge uma dúvida: é possível a premissa baseada na ancestralidade e em temas regionais coexistir com o imaginário estadunidense e ainda hegemônico no universo geek? Marcelo considera que sim.
“Podemos nos aproveitar da cultura pop, estabelecida em moldes norte-americanos, para inserir formas narrativas e imaginários fora do mainstream. Claro, a cultura pop tende a absorver o que está fora do eixo e torná-la mainstream, mas acredito ser possível fazer isso sem abdicar da criticidade e da preocupação racional e regional embutidas nela”, comenta
“A maneira que encontramos foi calcada em duas proposições. A primeira é na criação da turma de personagens negros que já está imersa na cultura geek e é fã de vários super-heróis negros. Isso é algo ao qual as crianças têm mais acesso hoje do que no começo dos anos 2000.”
Do storyboard para o público
Alguns dos destaques na obra são o diálogo sincronizado entre ilustrações e narrativas, assim como o processo de pesquisa sobre diversos elementos em história de povos africanos e a relação intrínseca com a trajetória afro-brasileira, inclusive com direito a easter eggs - ou seja, referências a ícones culturais que, no caso da HQ, aparecem de modo bem-humorado e orgânico na história.
Parte significativa da fluidez da obra é resultado da parceria entre roteirista e ilustrador, que já dura há quase uma década. Todo esse tempo de trabalho em conjunto auxilia no entrosamento entre as perspectivas narrativa e estética, inclusive ao considerar-se que a ilustração é uma etapa fundamental no processo de criação.
“Faço o roteiro já dividido por página e diagramo uma proposta de enquadramento e divisão de quadros para Renato. Ele reorganiza tudo e faz do jeito dele, por meio do qual melhora muito tudo o que enviei”, detalha Marcelo Lima. “Aí, começamos as idas e vindas para afinar minha visão com a dela, aparar elementos e criar a nossa visão. De modo geral, respondo mais pelos personagens e universo ficcional, enquanto ele mexe mais na estrutura e sugere muita coisa legal em termos de diálogos.”
O resultado de todo esse processo é uma obra que consegue, simultaneamente, educar sobre ancestralidade afro-brasileira, mergulhar no universo geek e dialogar com crianças e jovens negras e negros. E, é claro, mostrar que elaborar futuros possíveis em obras com esse perfil ajuda a olhar para o presente.
“Para especular projeções de futuro, positivos ou negativos, precisamos ter uma baita compreensão do que concordamos ou discordamos sobre a situação atual das crianças negras em nossa sociedade. Elaborar o futuro nos ajuda a ter mais autoestima, pois criamos um projeto em que desejamos estar presentes. Isso reverbera no presente, em já começar a mudar, brigar, aproveitar e criticar, mas também gozar do presente”, completa Marcelo Lima.
Para ler e consumir
A HQ Os Afrofuturistas - O Ataque dos Kips está disponível para compra no site da Editora Veneta e na Amazon.
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