Quando se fala na luta antirracista e em ações voltadas à promoção da equidade racial no Brasil, uma organização que logo vem à mente é o Movimento Negro Unificado (MNU).
Criado há 45 anos, durante emblemático ato público realizado em 7 de julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, o MNU representa um marco nas múltiplas dimensões do enfrentamento ao racismo no Brasil. Não por acaso, o seu trabalho inspirou e influenciou a criação de diversas organizações envolvidas na causa antirracista, abrangendo desde a participação na Assembleia Constituinte, que culminou na Constituição Federal de 1988, ao trabalho de organizações hoje atuantes na promoção da equidade racial.
A atuação do MNU é reflexo de valores inegociáveis que norteiam a sua existência desde a sua fundação. Um exemplo disso é o artigo 5° de seu estatuto, segundo o qual o movimento “visa combater o racismo, o preconceito de cor e as práticas de discriminação racial, em todas as suas manifestações, buscando construir uma sociedade da qual sejam eliminadas todas as formas de exploração”.
Para falar sobre a existência, obra e próximos capítulos do MNU, a Plataforma Ancestralidades entrevista Iêda Leal, secretária de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial e coordenadora nacional do MNU. Iêda falou sobre reflexos da luta histórica do movimento, conquistas e metas sociorraciais a serem alcançadas, assim como sobre o momento político atual.
Confira a entrevista a seguir.
Ao deparar-se com os avanços da luta antirracista nas últimas décadas, como a Lei de Cotas e a Lei 10.639/03, é inevitável pensar no papel exercido pelo MNU nos últimos 45 anos. O que pode ser dito sobre a atuação do movimento nesse sentido?
O papel do movimento negro em defesa da Lei de Cotas e da Lei 10.639/03 é: chegamos em um momento no qual o país compreendeu a importância de uma legislação, mas continuamos ainda no processo da conscientização e da luta ferrenha contra o racismo.
Nesse sentido, após 45 de existência do Movimento Negro Unificado, vimos brotar outras entidades com o mesmo sentido e com a mesma perspectiva de garantir o direito da população negra. O MNU, como outras entidades importantes no conjunto da população brasileira, tem emprestado para o Brasil momentos de total responsabilidade com o fim do racismo.
É correto dizer que o trabalho de organizações atuantes na luta antirracista é um legado e/ou foi diretamente influenciado pelo MNU? Por quais motivos?
O MNU tem um grande papel influenciador no nascimento de outros movimentos. Na verdade, o movimento foi uma reunião de grandes lideranças do país todo, logicamente no eixo RJ-SP, mas ecoou pelo país todo. Hoje estamos em todas as unidades federativas e em muitas cidades. A influência dessa organização tem ressonância por reunir as principais bandeiras e pautas da comunidade negra. Estamos em defesa da vida e da dignidade do ser humano. Estamos dizendo que 400 anos de escravidão exigem um processo de reparação - as ações afirmativas seriam um caminho.
Penso que o Movimento Negro influenciou basicamente todas as entidades que estão no Brasil de forma muito plena e com muita solidariedade. Continuamos firmes na luta contra o racismo, seguindo o exemplo de Zumbi e de Dandara, pegando o legado de Lélia Gonzalez e de Luiza Bairros, mas determinados em dar [projeção à] voz para toda a população negra do nosso país. Aliás, dar [projeção à] voz e voto, e colocar o [povo] negro no seu lugar devido: na participação no desenvolvimento do nosso país.
Ainda que a pauta da equidade racial tenha ganhado espaço na esfera governamental, por meio do Ministério da Igualdade Racial, notícias como a veiculada pelo Alma Preta sobre o orçamento da pasta indica que há, ainda, um longo caminho a ser percorrido para a questão racial estar no centro de políticas públicas. O que esse cenário revela sobre o espaço racial em âmbito governamental?
Este governo, o terceiro mandato de Lula, tem dado maior visibilidade e demonstrado capacidade de que, para além da compreensão de o racismo ser crime, o Estado brasileiro precisa de projetos e de propostas. O Ministério da Igualdade Racial é, como qualquer outro ministério, absolutamente importante na Esplanada. Por mais que haja este orçamento robusto para o ministério, não é o ideal, mas é a política desenvolvida para a existência do ministério.
Não esquecendo o legado de todo mundo que veio antes, hoje, o MIR é o resultado da luta incansável de pessoas que estiveram à frente da secretaria - que tinha status de ministério. Precisamos lembrar de todos e saber da trajetória e da importância: a questão racial é, sim, central para as políticas públicas. Além disso, precisamos revelar mais uma vez para todo o Brasil o compromisso de um gestor que, eleito publicamente, se compromete com a luta em defesa da população negra, pois compreende que somos mais da metade dessa população.
O Governo tem um gesto político pedagógico adequado para o momento atual: a oportunidade agora é fazer com que a transversalidade nos ministérios, que essa política seja replicada nos estados e nos municípios. Precisamos de pessoas públicas com coragem de defender o nosso país e a pauta racial - coragem para colocar na pauta como elemento principal o combate ao racismo.
Apesar da estrutura socialmente racista ser refletida em diversos segmentos sociais, passando por episódios de violência explícita à discriminação quando se fala em saúde e mercado de trabalho, por exemplo, o discurso da democracia racial ainda encontra eco na sociedade. Como o trabalho do MNU tem sido articulado para contrapor a narrativa da suposta democracia racial?
O nascimento do MNU teve essa direção. Não dava mais para denunciarmos o racismo. Era momento de o criminalizarmos, porque faltavam políticas públicas direcionadas à população negra - a maioria desse país. Não podemos falar em combater à fome sem observar as pessoas que passam fome nesse país. Temos de falar sobre emprego e renda, em sabermos que o nosso [segmento] da população tem muita dificuldade no trabalho formal.
Idem sobre o quanto é importante ter uma educação que inclua e não afaste as pessoas de dentro das escolas e que conte a real história, pois as pessoas precisam saber. As pessoas negras que moram na cidade são descendentes do continente-mãe, do berço da humanidade. Precisamos saber que lutamos contra a escravidão e nunca concordamos com ela.
Historicamente, temos motivos e ações para mostrarmos à sociedade a importância que a população negra teve no desenvolvimento do país. Então, já derrubamos a narrativa da democracia [racial] - as pessoas continuam racistas. Precisamos continuar com um grande poder de articulação para lutar contra o racismo e colocar projetos que deem conta de resolver e amenizar essa situação e punir as pessoas que são criminosas e que usam da crueldade e do racismo, e retirar a nossa dignidade, para querer dizer que vivem em um país de democracia racial. Não há democracia racial no país onde há racismo.
De modo geral, quais são os desafios para o MNU atuar em âmbito nacional e desenvolver estratégias e planos de ação de acordo com particularidades regionais?
Precisamos envolver toda comunidade em uma lógica de procurar estratégias para derrotar os racistas e o racismo. Precisamos compreender como o racismo se dá na nossa sociedade para podermos combatê-lo. Temos de desenvolver estratégias.
Cada pessoa é um quilombo que luta e reinventará formas de lutar para podermos garantir a dignidade. É necessário haver planos de ação de fato para os territórios, para que os nossos territórios sejam respeitados, e que possamos viver plenamente na cidade. Com dignidade e com o Estado fazendo a defesa e assegurando as vidas.
"A influência dessa organização tem ressonância por reunir as principais bandeiras e pautas da comunidade negra. Estamos em defesa da vida e da dignidade do ser humano. Estamos dizendo que 400 anos de escravidão exigem um processo de reparação."
Um debate que vem à tona abrange a preparação de lideranças negras para ocupar espaços de poder e decisão em âmbitos político, corporativo e acadêmico, por exemplo. Ainda que essa estratégia tenha importância social significativa, quais cuidados são necessários para a luta pela equidade racial não ficar restrita a essa perspectiva?
Nós, mulheres negras, fizemos em 2015 um acordo entre nós: assinamos uma carta na Marcha das Mulheres Negras, que fizemos em Brasília. Mulheres negras movem o Brasil - uma sobe e puxa a outra. Essa máxima é para encontrarmos e fazermos nascer as lideranças negras para ocupar os espaços de poder em todo âmbito nacional.
Logicamente, queremos o poder que têm as Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, Câmara Federal, Senado, Presidência da República, associações de bairros e os conselhos municipais e estaduais de educação, as nossas centrais e partidos políticos - todos os espaços de poder, os conselhos de saúde e os conselhos tutelares. Precisamos ter a estratégia de ocupação do espaço, pois somos a maioria do país.
A importância de estarmos nesses lugares de visibilidade para as nossas lideranças e fazermos as/os nossas/os menores e pequenas/os compreender a existência de espaços que precisam ser ocupados - e serão ocupados por nós na universidade e nos concursos públicos. A nossa estratégia tem de ser esta. Não podemos restringir apenas alguns nomes ou figuras importantes em determinados locais. Queremos esses locais repletos de homens e mulheres negras nesse país, da população LGBTQIAP+, de mulheres trans. Queremos dar visibilidade ao nosso povo e. para isso, precisamos ocupar todos os espaços de poder na nossa sociedade
Qual balanço pode ser feito sobre a atuação do MNU no protagonismo da luta antirracista? E quais são os pontos de atenção no enfrentamento a ondas supremacistas nos próximos tempos?
O MNU é feito de gente que tem muita coragem, de mulheres, de homens, gays, travestis, lésbicas, jovens e de mais velhos. A nossa representatividade é muito grande e plural.
Desse modo, o MNU luta, pede e trabalha o tempo todo para que todas as pessoas possam se empoderar da da nossa história e seguir o exemplo de Zumbi, ter os conteúdos elaborados pelas/os nossas/os, como Luiza [Bairros], Lélia [Gonzalez], Abdias do Nascimento e muitas outras pessoas que escreveram e são nossas/os intelectuais. Hoje alguns não estão entre nós, mas muitos estão, como Conceição Evaristo - podemos observar a importância de a academia receber jovens e pessoas mais velhas para elaborar conteúdo antirracista.
Precisamos perceber o quanto é importante estarmos sempre organizados para o enfrentamento. [Quanto a] essa onda do fascismo, da direita absurda que submete o povo a essa crueldade da perseguição e até da violência de tirar as nossas vidas, estaremos a postos em todos os locais da sociedade para dizer que o Movimento Negro Unificado prepara a população negra para a reação à violência racial e para dizer não, para dizer “chega de racismo” e nos posicionarmos e cobrarmos efetivamente da sociedade um posicionamento antirracista - e de forma com a qual possamos de fato ter uma sociedade organizada para contemplar, receber e resinificar a participação da pessoa negra na nossa sociedade.