A sensação que se tem ao visitar o acervo do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo é de estar em um pêndulo constante entre o passado e o futuro. Ao parafrasear Nêgo Bispo (1959-2023), é como se fosse um exemplo vívido do conceito de começo, meio e começo.
Essa sensação deve-se, em grande medida, à premissa que norteia o acervo, que foi criado a partir do acervo do artista e gestor cultural Emanoel Araujo (1940-2022), idealizador do museu e diretor e curador histórico do museu. Para se ter uma ideia, estima-se que, entre entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias, documentos e peças etnológicas produzidas por autores brasileiros e estrangeiros entre o século XVIII e a contemporaneidade, o acervo tenha mais de 8 mil obras distribuídas em espaço de mais de 8 mil m².
Nesse sentido, ao refletir o compromisso contínuo com a valorização da ancestralidade e a proposta de novos horizontes para a produção artística afro-brasileira, africana e afrodiaspórica, Hélio Menezes, atual diretor artístico do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, fala sobre os aspectos que norteiam o acervo do espaço.
“Nosso acervo e exposição de longa duração atuam como um protetor das memórias, tradições e criações estéticas que moldaram a cultura e sociedade brasileiras. Junto às exposições temporárias e ao programa cultural do Museu, abre-se espaço também para debates e produções mais contemporâneas, tomando a autoria negra no campo das artes e da história como bússola”, explica.
Sobre inspiração, passado e novas perspectivas
Ao considerar-se a pluralidade temática, étnica e cronológica que permeia o acervo permanente e as exposições sazonais, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo coloca à disposição do público visitante do espaço, então, experiências e expressões da diáspora africana em diversas perspectivas. Assim sendo, as exposições de longa duração abordam as seguintes temáticas:
- África: Diversidade e Permanência: trata-se, de acordo com o site do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, de “núcleo dedicado à riqueza cultural, histórica e artística dos povos africanos”. Logo, as obras que o compõem contam com funcionalidades e concepções variadas, as quais demonstram a diversidade do continente;
- Trabalho e Escravidão: esse segmento visa “ressaltar os saberes e tecnologias trazidas pelos africanos escravizados no campo do trabalho”;
- As Religiões Afro-Brasileiras: de acordo com informações no site do museu, esta seção tem como objetivo consagrar as religiões e os cultos brasileiros que possuem matriz africana.;
- O Sagrado e o Profano: o núcleo em questão conta com obras que representam as festividades celebradas no Brasil, ligadas ao sagrado e celebradas no espaço festivo da rua;
- História e Memória: esse trecho é dedicado, então, “à história e memória de importantes personalidades negras que se destacaram em diversas áreas do conhecimento”, indo desde o período colonial até os dias atuais;
- Artes Plásticas: a Mão Afro Brasileira: essa seção conta com obras de diferentes períodos da arte no Brasil. Alguns exemplos são o Barroco e o Rococó, o século XIX e a arte acadêmica, assim como as artes Popular, Moderna e Contemporânea..
Essa dimensão, inerente às mostras permanentes e de longa duração, passa também pela relação intrínseca com dimensões da identidade afro-brasileira, assim como em âmbito afro-atlântico.
“A arte torna-se, nesse contexto, um meio de manifestação ímpar das múltiplas perspectivas e origens étnico-raciais que compõem e recompõem as identidades negras no continente e em diáspora”, reforça Menezes.
“Queremos também ampliar o conhecimento sobre a enorme riqueza das contribuições e aportes negros para a formação do Brasil e das sociedades negras em diáspora. Em vez de nos prendermos a imagens simplificadas, destacamos a potência criativa dessas expressões.” (Hélio Menezes)
Passos adiante
Outra dimensão que vem à tona durante visitas ao Museu Afro Brasil Emanoel Araujo passa pelo seguinte lembrete implícito presente nas obras, em especial pelos trabalhos que passam pelo período marcado pela escravização de pessoas negras: no caso, o choque que tais projetos causam é inegável por, em grande medida, tratar-se de signos de um período histórico nefasto. Por esse motivo, devemos, enfim, criar e fortalecer consensos humanitários e sociais para que nunca mais períodos históricos como esse tenham risco de se repetir.
Logo, um desafio que vem à tona diz respeito a um dos objetivos fundamentais do espaço desde a sua fundação: romper com estereótipos negativos sobre a cultura e população afro-brasileira. Nesse sentido, o atual diretor artístico do museu considera que o foco está em desarticular imagens reducionistas e racistas ao destacar a complexidade, assim como a profundidade da produção artística e intelectual negra, por meio de múltiplas linguagens, meios e tempos históricos.
“Queremos também ampliar o conhecimento sobre a enorme riqueza das contribuições e aportes negros para a formação do Brasil e das sociedades negras em diáspora. Em vez de nos prendermos a imagens simplificadas, destacamos a potência criativa dessas expressões”, ressalta.
Consequentemente, exibir os objetos de tortura do período escravagista ainda disponíveis no acervo consiste em desafio contínuo no espaço. “Esses objetos carregam um peso histórico significativo, assim como uma carga emocional que pode reabrir feridas”, destaca Hélio Menezes.
Essa dinâmica dá sinais, então, de quais horizontes construir para os próximos tempos do museu - e, é claro, para a produção artística afro-brasileira e afrodiaspórica. “O caminho que enxergamos passa por estratégias curatoriais que reconheçam a brutalidade do passado, sem essa violência ser reiterada de forma visual ou simbólica de maneira ostensiva. Nosso foco é transitar do signo da dor para o signo do valor, criando uma nova relação entre o público e o acervo, capaz de inspirar orgulho e celebração da vida, sem que desafios monopolizem a narrativa.”
Ao considerar-se as mudanças na abordagem e na relação com obras com esse perfil, pode-se entender o processo de consolidação pelo qual o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo passou durante as duas primeiras décadas de existência - e, nas palavras do atual diretor artístico, esse período permitiu que ao espaço “consolidar um legado cultural, artístico, de memória e celebração, colocando-o como uma referência mundial em salvaguarda, exibição e pesquisa sobre o patrimônio artístico e intelectual negro.”
Finalmente, Hélio Menezes é enfático ao afirmar que o compromisso consiste em “continuar criando um espaço onde a cultura negra possa ser preservada, vista, estudada, vivida e reinterpretada para as futuras gerações de artistas e pensadores afro-brasileiros. E para toda a sociedade brasileira."
Saiba mais
O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo está situado no Pavilhão Manoel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera (avenida Pedro Álvares Cabra, s/n°, próximo ao portão 10).
O espaço funciona de terça-feira a domingo, das 10h às 17h (permanência até 18h).
Ingresso: R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia entrada). Entrada gratuita às quartas-feiras.
Confira também a programação temporária e a mostra virtual.