Racialização
No contexto colonial, a racialização é produto da cristianização dos povos subjugados nos novos territórios invadidos em diferentes partes do planeta. Nas Américas, esse processo ocorre notadamente com os povos originários do continente e os traficados da África e seus descendentes. No contexto pós-colonial, a racialização se estende a imigrantes não europeus e não brancos e seus descendentes, a exemplo dos latino-americanos e caribenhos.
A palavra racialização é cunhada pelo intelectual e psiquiatra franco-martinicano Frantz Fanon (1925-1961) para explicar a dificuldade de intelectuais africanos ao buscarem construir as novas categorias culturais do mundo pós-colonial. Segundo o sociólogo Valter Silvério, é possível identificar três sentidos para o termo racialização: 1) biologizante, especificamente diz respeito à dimensão fenotípica que seria a explicação para atitudes, valores e comportamentos socais; 2) práticas científica e político-institucional embasadas no racismo científico em diferentes contextos da modernidade; 3) processo constitutivo da própria modernidade, em que para a nomeação de grupos dominados não seria possível prescindir de nomeações colonais como nigger, black, preto e noir.
No período pós-Segunda Guerra, transformações globais com um novo ciclo migratório, sobretudo em direção aos países de capitalismo avançado, como os da América do Norte e da Europa, levam os analistas a nomearem de racialização os processos de exclusão, preconceitos e violências simbólicas e físicas contra imigrantes não europeus, notadamente caribenhos, africanos, asiáticos, árabes, entre outros povos. A partir desse entendimento, os diversos tipos de imigração para os países centrais constituem nova forma de racismo, diferente da vigente no passado, que se fundamenta especificamente na biologização dos corpos.
Dessa nova forma de racialização, vista como mecanismo de controle e de exclusão de grupos não ocidentais e não brancos, emerge um tipo de racismo cultural, baseado nas diferenças de valores e práticas sociais entendidas como intransponíveis, porque radicalmente distintas do Ocidente por causa de origem, distância linguística ou ainda crenças cosmológicas distintas dos grupos racializados.
O sociólogo Antonio Sérgio Guimarães mostra que a racialização, como conceito, é marcada pela descaracterização dos aspectos culturais de um dado grupo social ou de um indivíduo, cujas marcas corpóreas ou fenotípicas explicam as qualidades humanas, como comportamentos socioculturais, valores morais e atitudes no mundo. Nesse sentido, o grupo racializado, em sua própria constituição, é considerado biologicamente inferior e a ele são atribuídas qualidades morais, intelectuais e psicológicas negativas.
Outra característica da racialização de grupos é considerar costumes alimentares, religiosos e outras formas de expressão da cultura como primitivos, exóticos e até mesmo irracionais. A racialização também se manifesta por meio da estigmatização de grupos que descendem de povos negros e indígenas escravizados e que são rotulados de modo pejorativo, por exemplo, como pessoas vadias, preguiçosas e indolentes no trabalho. Outra marca desse processo de racialização é a exotização de grupos que não apresentam padrões estéticos considerados como ocidentais e brancos.
A crítica elaborada por intelectuais e pesquisadores da questão racial avalia, portanto, que os grupos que sofrem racialização explícita são tidos como não ocidentais, não europeus, não brancos e não cristãos. Os grupos brancos e identificados fenotípica e culturalmente como ocidentais, por sua vez, não são racializados e se valem dessa posição para afirmá-la como universal, neutra e imparcial.
A racialização é um processo social iniciado na modernidade e presente até os dias de hoje. O termo indica como os procedimentos de biologização da cultura são atuais e operam na vida diária das pessoas. A ideia de que certos grupos são fechados e inassimiláveis por causa de sua cultura, língua ou religião é um modo de racializá-los, considerando impossível conviver com hábitos, atitudes e comportamentos de grupos não ocidentais ou não brancos.