Cor

desigualdadesidentidaderelações raciaisclassificaçõesA classificar

A origem da classificação de seres humanos por cor remonta ao Naturalismo do século XVIII, de maneira semelhante à classificação de espécies botânicas: a espécie Homo sapiens é subdivida em quatro raças, originárias de quatro continentes. A cada uma cabe uma tonalidade de cor e aparência: americana (vermelha), asiática (amarela), africana (negra), europeia (branca). A essa descrição da aparência se associa uma hierarquização de povos e populações em que a raça branca ocupa posição de superioridade em relação às outras. Ao longo do tempo, a percepção, a (auto)atribuição e os significados históricos e sociais da cor/aparência ocorrem de maneira relacional e tendem a variar segundo critérios subjetivos, sociais e políticos contextuais.

A associação entre raça e cor ganha progressivamente maior relevância e complexidade à medida que o expansionismo europeu avança e passa a operar com separações por categorias de cor para a gestão de populações e para a administração colonial. A característica que mais se destaca nessa taxonomia é a cor da pele, porém  outros atributos  também participam desse sistema classificatório, como forma e textura de cabelo, contornos faciais, altura, formato do crânio e outros traços corporais. Esse ordenamento de cores baseia-se na ideia de raça que vincula de modo essencialista aparência física a determinadas qualidades, personalidades, atitudes e valores morais. Esse ideário camufla a arbitrariedade desse tipo de atribuição que, ao produzir estereótipos e preconceitos de cor, sustenta a manutenção de um sistema que coloca a raça branca em posição superior em relação às outras.

No Brasil, os acionamentos da classificação por cor são bastante comuns no uso cotidiano. Na produção acadêmica, uma série de trabalhos e pesquisas apontam para a multiplicidade de categorias de atribuição de cor que operam na vida social brasileira, como morena/o, morena/o clara/o, morena/o escura/o, mulata/o, escurinha/o, clara/o, clarinha/o, marrom, entre classificações que têm a ver com percepções relacionais e podem variar a cada contexto e interlocutor. Acionar a metáfora da cor, em vez de explicitar as categorias raciais, ecoa o imaginário construído historicamente em torno da mestiçagem. Algumas interpretações sugerem que esse formato expressa uma atribuição de status de ordem mais cultural do que biológica e uma fluidez característica das linhas de cor no país; outras, remetem ao mecanismo de camuflagem do racismo nas relações cotidianas e à dificuldade de as pessoas reconhecerem seu pertencimento racial.

A abordagem dos censo populacional brasileiro historicamente incorpora um misto de critérios de aparência e de ascendência. No primeiro recenseamento da população brasileira, realizado em 1872, as categorias de classificação são branco, preto, pardo e caboclo (pessoas de ascendência indígena). O levantamento seguinte, de 1890, utiliza as categorias branco, preto, caboclo e mestiço (substituindo a categoria de pardo para classificar descendentes de relações entre brancos e pretos). Depois de um intervalo longo em que dados sobre cor ou raça não são coletados [1], o censo de 1940 adota as categorias branco, preto, pardo e amarelo (incluída por causa do aumento da imigração asiática). A próxima alteração é feita em 1991, com a inclusão da categoria indígena e, em 2010, agrega-se a esta a pergunta sobre a etnia de pertencimento indígena.

Ao longo dos anos, mudanças nos quesitos de classificação e na maneira como a pergunta é feita e registrada são orientadas por questões políticas, demográficas e/ou metodológicas. Vemos, entretanto, que critérios de aparência/cor e ascendência racial e étnica tendem a ser combinados no sistema de levantamento censitário brasileiro. Ainda que existam críticas e que problemas sejam apontados, há cinco categorias mais ou menos fixas: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Esse registro estável de categorias pré-estabelecidas traz a vantagem de garantir séries históricas de dados que tornam possível tanto leituras e releituras analíticas, quanto avaliação e planejamento de políticas públicas e outras iniciativas de gestão governamental. 

No Brasil, é comum que a percepção da tonalidade da pele esteja a associada a um contínuo entre o branco e o negro. Em sociedades marcadamente racistas, em que a aparência branca é tida como o padrão ideal, quanto mais escura a cor da pele, mais exposta a sofrer preconceitos e discriminação a pessoa está. Nesse sentido, mesmo entre pessoas pardas, pretas, indígenas e amarelas, a distribuição de vantagens e desvantagens sociais pode ocorrer de maneira desigual dentro de uma escala de valoração da pele mais clara à mais escura. 

As dinâmicas de classificação de cor e raça tendem a se sobrepor na vida social cotidiana, na qual se constata uma série de práticas sutis de produção de diferenças e desigualdades, originadas de estereótipos e preconceitos remanescentes do pensamento racista colonial.

 

Notas

[1] A justificativa para não coletar dados sobre a variável raça alega que as respostas não seriam confiáveis (Paixão; Carvano, 2008).


 

Outros termos e conceitos

ver todos
  • Cotas

    As cotas – também conhecidas como sistema de reserva de vagas – são uma modalidade de ação afirmativa, na qual uma parcela das vagas de um processo seletivo ou eleição é destinada exclusivamente a pessoas pertencentes a determinados grupos sociais e/ou...

    desigualdadesrelações raciaisA classificar
    Ler mais
  • Afroempreendedorismo

    Os termos afroempreendedorismo ou empreendedorismo negro são usados para designar a prática empreendedora desenvolvida por pessoas negras. Além da atividade econômica, costuma envolver debates e práticas ligadas à cidadania, inclusão racial e identidad...

    racismoidentidadeA classificar
    Ler mais
  • Racismo institucional

    O racismo institucional pode ser definido como um conjunto de práticas e atitudes discriminatórias sistemáticas presentes em organizações públicas ou privadas, cujos principais impactos envolvem a não garantia de serviços apropriados a segmentos popula...

    racismoteoriarelações raciaisA classificar
    Ler mais