Imprensa negra
Imprensa negra é o nome dado ao conjunto de jornais impressos, revistas, tabloides e periódicos políticos, comunitários, culturais escritos e publicados por pessoas negras e suas associações desde o século XIX e durante todo o século XX. No século XXI, além dos jornais impressos, surgem os periódicos online e portais na internet que produzem notícias e análises sobre processos que afetam a vida da população negra, bem como experiências e histórias dos negros do Brasil e de outras partes do mundo.
Desde o século XIX, há jornais produzidos por pessoas negras no Brasil. Em seu livro Imprensa Negra no Século XIX, a historiadora Ana Flávia Magalhães (1979) mostra a existência de diversos periódicos escritos e publicados por pessoas negras em diferentes partes do país, como O Homem de Côr (Rio de Janeiro, 1933); A Pátria – Orgam dos Homens de Côr (São Paulo, 1889); O Homem: Realidade Constitucional ou Dissolução Social (Recife, 1876) e O Exemplo (Porto Alegre, 1892).
Na primeira metade do século XX, vários jornais, como O Menelick e Clarim da Alvorada, denunciam o preconceito de cor, trazem à tona as demandas da população negra, apresentam notícias sobre os espaços de sociabilidade e lazer (clubes, festas, esportes, eventos culturais e artísticos da comunidade), além de discussões sobre personalidades negras. Esses jornais são expressões importantes do pensamento, das representações e das aspirações dos afro-brasileiros.
Depois da Segunda Guerra, os jornais da imprensa negra são muito importantes para discutir temas sociais, políticos e culturais que afetam essa população no contexto de democratização do Brasil. Dentre os periódicos da época, destaca-se O Quilombo (1948), jornal organizado por ativistas e intelectuais ligados ao Teatro Experimental do Negro (TEN). Suas páginas contêm artigos de vários artistas e autores brasileiros, como a ativista Maria Nascimento (1924-1995), que refletem sobre o problema do preconceito de cor, a democracia racial, as artes negras, além de discutirem temas sociais que afetam crianças, famílias e mulheres negras.
Durante a ditadura civil-militar (1964-1985), jornais negros se somam ao conjunto da imprensa alternativa que vive na semiclandestinidade, mas com peso significativo na oposição ao regime político. As redações são espaços importantes para refletir sobre a história do movimento negro no século XX, sobre suas organizações, lideranças e formas de ação. São também temas importantes nesses impressos os movimentos culturais, como saraus, lançamentos de livros e grupos teatrais, comuns na sociabilidade e na organização dos jovens negros dos grandes centros urbanos. Temas como a violência policial ou mesmo a discriminação cotidiana são frequentes nas páginas desses periódicos engajados na reconquista da democracia no Brasil, como a coluna "Afro-Latino-América" do Jornal Versus.
Nesse contexto, em várias partes do país emergem jornais para tratar dos temas ligados à Constituinte, às esquerdas e às organizações políticas, culturais e religiosas negras, como o Jornal do Akomabu, em São Luís (MA), e o Negritude, em Recife (PE).
As mulheres negras, além de escreverem para vários jornais da imprensa alternativa da época, como Jornal Versus, Lampião de Esquina e Mulherio, também produzem seu próprio periódico. Em 1985, surge o Jornal Informativo Nzinga, no Rio de Janeiro, com pautas relevantes para as mulheres de periferia, favelas, morros e também estudantes e mulheres engajadas em associações e movimentos sociais.
No final do século XX, o jornal de maior destaque é o Ìrohìn (1996). De circulação nacional, o periódico reúne visões de intelectuais de diferentes partes do país. Com o intelectual Edson Lopes Cardoso (1949) como figura central, os textos debatem temas como ações afirmativas, juventude negra, violência racial, mulheres negras e políticas públicas para a população afrodescendente.
No século XXI, com a popularização da internet e dos celulares, a imprensa negra impressa se desloca para o mundo digital, ganhando novo fôlego e diversidade. O Portal Geledés é um dos primeiros meios de comunicação em formato digital de grande alcance entre a comunidade negra brasileira. Outros portais, como o Portal Afro, também passam a ganhar espaço. Além deles, jornais como Alma Preta e Negrê são destaques da nova inserção da imprensa negra na modernidade tecnológica.
A tecnologia também possibilita a produção da memória negra por meio dos jornais produzidos por afro-brasileiros. Com os processo de digitalização de periódicos e de montagem de acervos em bibliotecas e sites digitais, pesquisadores, estudantes e cidadãos do mundo inteiro podem acessar os materiais armazenados em importantes acervos, como Imprensa Negra, da Universidade de São Paulo (USP), o Acervo da Biblioteca Nacional, o Arquivo do Estado de São Paulo, o Centro Cultural Vergueiro e o Itaú Cultural. Em 2021, o Projeto Memória, do Afro-Cebrap, junto ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), produz um acervo da memória do movimento negro a partir de documentos pessoais de ativistas, materiais de organizações periódicos negros do século XX.
Estudada por vários intelectuais nacionais e estrangeiros, a imprensa negra no Brasil é um celeiro de informações e símbolos sobre as experiências negras produzidas durante quase duzentos anos. A maior parte dos assuntos desses jornais sequer é noticiada nos grandes meios de comunicação. Produzidos pelas camadas populares e médias da população negra, os jornais têm vida curta, mas nem por isso deixam de registrar as ações em favor da liberdade e da igualdade no país.