Batuque
Modalidade religiosa afro-gaúcha, derivada de fontes jeje-nagôs. É também chamada de “Pará”, corrupção de “Bará”, entidade correspondente ao Exu do candomblé.
Seus primeiros passos ocorrem na década de 1830, entre Rio Grande e Pelotas, chegando à capital da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, na segunda metade do século, e seu formato vem do conjunto de grupos étnicos escravizados na região, em uma forma simbólica de resistência ao cativeiro[1]. Daí a divisão das vertentes em “nações”, tais como: Cabinda, do território angolano; Ijexá e Oió, reinos iorubá na atual Nigéria, esta (Oyo) tida como a linhagem mais antiga; Jeje, alusão ao antigo Daomé, cujo criador teria sido o africano Custódio Joaquim de Almeida, o “Príncipe de Ajudá” ou “Príncipe Custódio de Xapanã”, personagem que chegou à província em 1864, fixando-se seguidamente em Rio Grande, Bagé e, em 1899, na capital [2]. Entre sacerdotes e sacerdotisas destacam-se ainda Andreza Ferreira da Silva, da nação Oyó; Manuelzinho de Xapanã, da nação Cabinda, depois migrada para o Jeje; Joãozinho do Bará, tido como o pioneiro na expansão do batuque até a região do Prata, entre outros[2].
O batuque tradicional cultua doze orixás – Bará, Ogum, Iansã ou Oiá, Xangô, Odé, Otim, Ossanha, Xapanã, Obá, Oxum, Iemanjá e Oxalá –, invocados e louvados através de cânticos interpretados conforme o modelo clássico jeje-nagô, mas com algumas peculiaridades, como os tambores do tipo “ilu”, cilíndricos e encourados nas duas superfícies.
Com o tempo, o batuque assimilou elementos laicos da cultura local, como as bombachas, usadas por alguns babalaus, chefes de culto; a polenta italiana servida como alimento de Oxum; o churrasco, de Ogum etc.
[1] CORRÊA, Norton F. O batuque do Rio Grande do Sul: uma visão panorâmica. In: TRIUMPHO, Vera (org.)Rio Grande do Sul: aspectos da negritude: Martins Livreiro-Editor. Porto Alegre, 1991, p. 145-166.
[2] SCHERER, Jovani; WEIMER, Rodrigo de Azevedo. No refluxo dos retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegre. Porto Alegre: Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS, 2021.
[3] ORO, Ari Pedro. As religiões afro-gaúchas. In: Gilberto Ferreira da Silva et al (org.). RS Negro. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008, p. 124-133.