Babalaô

Religiosidade e Espiritualidade

Sacerdote iniciado na prática divinatória que tem por base o oráculo Ifá. Para fazer a consulta oracular, os babalaôs costumam usar dois instrumentos adivinhatórios: o opelê, uma espécie de rosário feito de fios trançados e oito metades de favas; e os ikins (caroços de dendê).   

A origem do nome é o iorubá bàbáláwo, formado pela expressão bàbá+awo, traduzido como “pai do segredo”. Na região vizinha dos iorubás, no antigo reino do Daomé, os adivinhos de ifá eram conhecidos como bokono. No Brasil, entre os séculos 18 e 19, o babalaô, posição exclusivamente masculina, era uma espécie de conselheiro, inclusive por ser detentor de profundos saberes rituais. Talvez por isso, não criavam suas próprias comunidades; sua formação, ademais, exige anos de estudo. 

Um dos primeiros sacerdotes conhecidos no país foi Domingos Sodré, trazido como escravizado de Onim, atual Lagos, Nigéria, por volta de 1820, para a Bahia, onde faleceu em 1882 [1]. No seu tempo, a história de Ifá no Brasil revelou dois filhos de africanos que foram aprender em Lagos: Rodolfo Martins de Andrade, o Bamboxê Obitikô (c.1820-c.1900), e Martiniano do Bonfim, Ajimudá (1858-1943).  Entretanto, por diversas razões, como a necessidade de outros babalaôs na consagração de um novo, a categoria foi-se extinguindo.  

Na década de 1970, estudantes nigerianos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) participaram de tentativas visando o ensino do Ifá. Entretanto, a efetiva retomada da tradição só ocorreu no início dos anos 1980, com a chegada ao Rio de Janeiro do babalaô cubano Rafael Zamora, Ogunda Kete, e, logo depois, a de Wilfredo Nelson, Erdibre. Na mesma década, a retomada ocorreu também em São Paulo, com o nigeriano Adesiná Síriku Sálami, mas em uma vertente diferente da cubana. Por volta de 2020, Evandro Luís de Carvalho, Otura Airá, líder do Ifá ni L’Órun, em Guaratiba, no oeste carioca, alçou sua casa à condição de maior centro de formação de babalaôs no Brasil[2]. 

O merindilogum, jogo adivinhatório praticado com dezesseis búzios, não é usado por babalaôs, mas por ialorixás e babalorixás. No batuque gaúcho, o termo babalau designa o chefe religioso. Ver IFÁ.

[1] Cf.  REIS, João José, citado em LOPES, Nei. Ifá Lucumi, o resgate da tradição. Rio de Janeiro: Pallas Ed., 2020, p.105-106.

[2] Cf. MEDAWAR, Carlos Eduardo. Candomblé e os cultos afro-brasileiros. Rio, Editora Fio de Ouro, 2021, pp. 404-5

Outros termos e conceitos

ver todos
  • Axé

    Vocábulo de origem iorubá usado com significados diversos, mas relacionados. Em sua acepção filosófica, designa a força que permite a realização da Vida, que assegura a existência dinâmica, que possibilita os acontecimentos e as transformações. Na onto...

    culturaReligiosidade e Espiritualidade
    Ler mais
  • Axexê

    Conjunto de rituais funerários secretos, restritos a iniciados da tradição dos orixás, celebrados por ocasião do falecimento de pessoas importantes da comunidade religiosa. Quando em honra, por exemplo, de uma ialorixá ou de um babalorixá, costumam est...

    culturaReligiosidade e Espiritualidade
    Ler mais
  • Babalorixá

    Designação atribuída no Brasil ao sacerdote chefe de um candomblé, sobretudo de origem nagô. A palavra vem do iorubá babalóòrisá e corresponde aos títulos doté, vodunon ou humbono nas casas jejes e tata-de-inquice nos cultos bantos. O termo tem prováve...

    Religiosidade e Espiritualidade
    Ler mais