
Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Caribenhas
Criada em 1992, em São Domingo, a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas resulta de um conjunto de articulações negras a partir dos encontros feministas da América Latina nas décadas de 1980 e 1990. Neste encontro é instituído o dia 25 de julho como o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha.
Cerca de 300 representantes de entidades, organizações e coletivos de mulheres negras, oriundas de 32 países da região, reuniram-se para formar o 1º Encontro de Mulheres Negras, Latinas e Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, entre os dias 19 e 25 de julho de 1992. O evento é articulado a partir dos Encontros Feministas da América Latina e Caribe (EFLAC), nos quais mulheres negras, críticas à baixa qualidade e visibilidade do debate sobre a questão racial no feminismo latino-americano, passam a pautar o problema do colonialismo e a denunciar o eurocentrismo no pensamento feminista da região. Sem visualizar a luta emancipatória feminista fora do enfrentamento do racismo, as mulheres negras percebem que, para pautar de forma consistente as desigualdades raciais articuladas ao gênero nesses espaços, é preciso uma ação coletiva em âmbito transnacional. Desse entendimento coletivo, surge a necessidade da construção de um evento autônomo, que de fato aconteceu nos anos iniciais da década de 1990, tornando-se um marco na história do feminismo latino-americano e na história das mulheres negras das Américas.
No 1º Encontro de Mulheres Negras, Latinas e Caribenhas é criado não apenas o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), como também surge a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, uma das principais redes de movimentos de mulheres negras da região. A articulação de mulheres negras em âmbito transnacional contribui para o estreitamento de laços de solidariedade para além das fronteiras linguísticas e nacionais. Por meio de reuniões, encontros, eventos e debates, agendas relevantes são criadas e difundidas nos países latino-americanos, fortalecendo simultaneamente o antirracismo e o feminismo na região. Ademais, lideranças negras importantes são empoderadas e ganham destaque internacional. Soma-se a isso a importância dessa rede para a difusão do pensamento feminista negro latino-americano, seja por meio das suas lideranças, militantes ou intelectuais.
As convenções e tratados internacionais contra o racismo, bem como o plano de ação resultante da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, África do Sul, são norteadores das ações da rede, que também atua no fortalecimento das mulheres negras nos seus estados nacionais. Mais recentemente, surge na rede a necessidade de empoderamento da juventude negra, com objetivo de fortalecer gerações futuras na luta contra o racismo e o sexismo, assim como transmitir as experiências e o legado de lutas por direitos dos negros e negras latino-americanos conquistados na virada do século XX para o século XXI.
A rede conta com destacadas lideranças, como a costarriquenha Epsy Campbell (1963), a nicaraguense Dorotea Wilson (1948) e as uruguaias Beatriz Ramirez (1956) e Vicenta Camusso. As organizações de mulheres negras dos estados brasileiros estão vinculadas à Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), que por sua vez se conecta à rede latino-americana e caribenha. Assim como a rede, o dia 25 de julho segue como data de referência, sendo apropriado pelos movimentos sociais para dar visibilidade às desigualdades estruturais – como a pobreza, as disparidades salariais, a precarização no mercado de trabalho – e às violências de raça e gênero, a exemplo do feminicídio na América Latina.
A institucionalização do 25 de julho, assim como da rede, cria as condições para se colocar no debate público as lutas das mulheres negras do passado e do presente, bem como para favorecer os contatos, as trocas, a circulação e a construção de agenda e intervenções comuns transnacionais.
