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Uma das diversas maneiras para valorizar conhecimentos e saberes relativos à ancestralidade afro-brasileira é jogar luz sobre tais conceitos, que foram historicamente invisibilizados e invalidados por meio de perspectiva eurocêntrica em âmbitos sociocultural, epistemológico e religioso.
Tornar visíveis tais saberes é, inclusive, uma das premissas da Plataforma Ancestralidades: trata-se de um espaço idealizado para mostrar um Brasil que, mais do que invisibilizado, foi silenciado por séculos e que ainda sofre com situação de violência decorrente das relações raciais no país.
Esta lógica que norteia a plataforma, que está em funcionamento há um ano, passa por reconhecer e evidenciar o papel central que a religiosidade afro-brasileira tem na construção de saberes, sejam eles nas esferas cultural, científica, política e social.
Alguns pontos que reforçam essa lógica podem ser observados por meio da disponibilização de verbetes dentro de um novo eixo temático, sobre Religiosidade e Espiritualidade, às/aos visitantes da plataforma. Os conteúdos que o compõem abordam aspectos relacionados a fundamentos, conceitos e terminologias relativos aos cultos afro-brasileiros, com destaque para as três nações de candomblé (Jeje, Ketu e Angola) e as umbandas, assim como descrições das divindades relativas a ambas matrizes religiosas.
Ainda, estes mesmos conceitos orbitam e norteiam a idealização do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros, edital desenvolvido dentro da plataforma para apoio à produção acadêmica de pesquisadoras/es negras/os sobre os múltiplos saberes afro-brasileiros - e cujos 12 projetos selecionados foram revelados em novembro.
Para guiar as/os visitantes da Plataforma Ancestralidades no processo de imersão na religiosidade e na espiritualidade afro-brasileira, entrevistamos Ricardo Pereira Aragão. Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professor do Centro Universitário Anísio Teixeira, o pesquisador é um dos idealizadores dos verbetes relativos ao eixo Religiosidade e Espiritualidade da plataforma - além disso, ele é também Tata dya Nkisi Nazazí (sacerdote do Nzó Taryazazi).
Confira a seguir o diálogo.
Iniciativas como o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 mostram como a religiosidade afro-brasileira tem espaço central nas hipóteses e objetos de estudos apresentados. Como projetos com esse perfil são importantes para fomentar a decolonialidade no trabalho de pesquisadores e docentes?
Iniciativas como o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 são importantes, principalmente, porque abrem possibilidades de novos olhares sobre a religiosidade afro-brasileira a partir de referenciais internos.
Trata-se de uma oportunidade incrível para descolonizar olhares e apresentar epistemologias que não sejam eurocentradas nos estudos sobre religião e modos de estar no mundo de outros povos, outros projetos civilizacionais presentes nas religiões de matrizes indígenas e africanas.
De qual modo espaços como a Plataforma Ancestralidades podem contribuir para a valorização de ritos, saberes e conceitos relativos às múltiplas formas de religiosidade e espiritualidade afro-brasileira?
Espaços como a Plataforma Ancestralidades podem contribuir, principalmente, a partir de narrativas de intelectuais internos às religiões de matrizes africanas.
No meu caso específico, que sou sacerdote de um terreiro de matrizes bantu, a Plataforma Ancestralidades permitirá haver acesso às filosofias e epistemologias de povos bantófones, escravizados, que foram preservadas nos Candomblés Congo-Angola, Amburaxó, Paketan, entre outros.
Ainda dentro desta seara, como falar sobre conceitos relativos à espiritualidade e à religiosidade pode funcionar como um mecanismo para trazer à tona saberes, trajetórias e episódios invisibilizados pela perspectiva histórica da branquitude?
Falar sobre conceitos relativos à espiritualidade e à religiosidade pode funcionar como um mecanismo para trazer à tona saberes, trajetórias e episódios invisibilizados, sem sombra de dúvida, a partir das linhas internas ao desenvolvimento das religiões de matrizes africanas no Brasil.
A cosmopolítica presente em nossos saberes não é afeita ao essencialismo ou a exclusivismos. Acredito ser necessário atentar para a vivacidade dos movimentos históricos presentes nas várias nações de candomblé no Brasil, bem como em sua capacidade de dialogar com as outras formas de viver o sagrado.
Parafraseando Nego Bispo: "Nem tudo que se ajunta se mistura, nem tudo que se mistura se ajunta!".
"A cosmopolítica presente em nossos saberes não é afeita ao essencialismo ou a exclusivismos. Acredito ser necessário atentar para a vivacidade dos movimentos históricos presentes nas várias nações de candomblé no Brasil, bem como em sua capacidade de dialogar com as outras formas de viver o sagrado."
De qual maneira projetos voltados à valorização de saberes e produção intelectual inerentes à religiosidade e espiritualidade afro-brasileira dialogam com a Lei 10.639/03?
Acredito que a maior zona de contato é divulgar conhecimento sobre o tema, mas principalmente fazer com que as/os nossas/os estudantes reconheçam seu modo de viver e suas relações sociais a partir de referenciais das culturas africanas, que são matrizes fundamentais dos modos de vivenciar o sagrado nas religiões de matrizes africanas.
Passamos por um momento histórico no qual há veemente polarização social, inclusive quando sobre a perspectiva religiosa. Como falar e promover estudos sobre os saberes, conceitos e divindades afro-brasileiras são medidas estratégicas para fomentar a promoção da pluralidade, inclusive quando se fala em religiosidade e espiritualidade?
As religiões de matrizes africanas são fundamentais na construção do respeito à diferença no Brasil. Dentro dos terreiros, caboclos, nkisi, orixá, vodun, santos, espíritos mais diversos convivem em harmonia sem, no entanto, se diluírem no conceito ocidental de igualdade.
No Candomblé, a hospitalidade é um modo central de abraçar o outro em sua alteridade radical. O "nós" não é plural de "eu", mas uma comunidade de diversos - uma floresta de saberes.