Pode-se dizer, sem exageros, que Milton Santos (1926-2001) é um dos maiores intelectuais da história brasileira - e, como consequência, um dos mais importantes do século XX. Além de ter sido um renomado geógrafo, a ponto de revolucionar a perspectiva para análise, pesquisa e atuação na área, Santos foi também escritor, cientista, jornalista e professor universitário.
A vida, obra e legado do geógrafo são os motes da Ocupação Milton Santos, no Itaú Cultural, cuja abertura ocorreu em 19 de julho - a exposição estará em cartaz até 8 de outubro.
Nesse sentido, a mostra tem como objetivo mostrar a trajetória de Milton Santos desde o nascimento, em Brotas de Macaúbas (BA), em 1926, para falar de sua trilha profissional que culminou na renovação da abordagem sobre geografia no país.
Vale dizer que a sua perspectiva revolucionária e disruptiva o transformou em alvo da Ditadura Civil-Militar (1964-1985), fazendo-o viver em exílio por 13 anos, até 1977. Durante esse período, viveu em itinerância forçada em países como França, Canadá, EUA, Peru, Venezuela e Tanzânia.
Outro ponto a ser considerado é o fato de suas ideias, após 22 anos de sua morte, continuarem a circular para além das universidades, impactando e influenciando todo o país e alimentando novos intelectuais, artistas e ativistas, em especial nas periferias. Ele se engajou em debates sobre política e educação pelos jornais; discutiu práticas de movimentos sociais e a questão racial.
Um exemplo da essência contemporânea e da importância do legado de Milton Santos é um trecho do artigo As cidadanias mutiladas (1996/1997):
“Ser cidadão, perdoem-me os que cultuam o direito, é ser como o Estado, é ser um indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o Estado, mas afrontar o Estado. O cidadão seria tão forte quanto o Estado. O indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos.”
Sobre a ocupação
A Ocupação Milton Santos apresenta para visitantes uma infinidade de informações sobre a sua visão a respeito da geografia e de seu processo criativo. Esse trecho da mostra retrata o seu processo criativo por meio de documentos originais expostos em vitrines, como manuscritos, textos datilografados por ele mesmo e livros de sua autoria.
Ainda, a ocupação conta com projeções do Coletivo Coletores sobre conceitos elaborados por ele, como espaço geográfico, economias urbanas, globalização e o lugar do cidadão. Visitantes poderão conferir também um painel biográfico composto por fotos, depoimentos em vídeo dele e de outras pessoas com participação importante nessa trajetória, objetos pessoais e matérias de jornais - idem o ponto de vista de Milton Santos sobre a questão racial, com depoimentos em vídeo e publicações.
Na seção final, sobre o seu legado, será possível conferir a relação entre a obra do intelectual com a cidade e a periferia, por meio de sua apropriação pelas gerações contemporâneas e a sua importância para a construção de um futuro mais igualitário.
A exposição conta também com vídeos como os de Marie-Hèléne Tiercelin Santos, com quem ele foi casado por mais de 30 anos, sobre o exílio do casal; de Maria Adélia Souza, geógrafa planejadora e professora que foi sua aluna, com quem trabalhou no retorno após o exílio, sobre as dificuldades enfrentadas por ele nessa fase; e do geógrafo e educador Billy Malachias, também seu ex-aluno, sobre as questões raciais que envolveram a vida e o legado do mestre.
Por fim, Nina Santos, neta de Milton Santos, fala da importância da representatividade de seu avô como intelectual negro; e Itamar Vieria Junior, escritor e autor de Torto Arado e Salvar o Fogo, entre outras obras, fala também sobre o legado do homenageado e da perspectiva racial.
Saiba mais
Com abertura em 19 julho, a Ocupação Milton Santos funcionará até 8 de outubro. Visitações podem ser feitas de terças-feiras a sábados, das 11h às 20h; e aos sábados domingos e feriados, das 11h às 19h. A entrada é gratuita.
O Itaú Cultural está situado na avenida Paulista, 149, Bela Vista (próximo à estação Brigadeiro da Linha 2 - Verde do Metrô).
Confira mais detalhes e conteúdos adicionais no site sobre a Ocupação Milton Santos.