Deslocar o centro da produção de conhecimento. Essa foi uma das estratégias que o pesquisador Paulo Jeremias Aires usou para desenvolver o projeto “Você está em território Akroá Gamella: história oral da resistência de um povo indígena ‘extinto’ do Maranhão”. O estudo foi uma das pesquisas selecionadas no Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2024, à época na categoria Pesquisas e Estudos em Andamento.
Paulo, que é da etnia Akorá Gamella e se tornou a primeira pessoa indígena a formar-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), teve investigou em seu estudo a história de seu povo a conformação das famílias na Aldeia Taquaritiua - a saber, essa etnia vive no território interseccionado nos municípios de Matinha, Penalva e Viana, na baixada maranhense.
Assim sendo, a partir de entrevistas e relatos de história oral das pessoas anciãs dos Akroá Gamella, a pesquisa consistiu em obter informações para contribuir com o resgate da memória ancestral e para a melhoria dos direitos desse povo, que chegou a ser considerado como extinto, mas se adaptou para sobreviver e preservar a sua identidade.
“Em vez de tratar o povo Akroá Gamella apenas como objeto de estudo, a pesquisa parte das narrativas, memórias e interpretações produzidas pelo próprio povo. Nesse sentido, a oralidade, os rituais, as assembleias e os relatos dos mais velhos são tratados como fontes de conhecimento histórico”, pondera o pesquisador.
Essa perspectiva tem também como papel fomentar, então, o protagonismo da etnia da qual Paulo faz parte. “A ideia foi ir além da discussão acadêmica sobre as camadas históricas de invisibilização e criar um registro audiovisual que pudesse fortalecer a memória coletiva. Idem servir como instrumento político e com força para ajudar no processo de demarcação da Terra Indígena.”
Conhecer a história para construir horizontes de futuro
“As narrativas revelaram que a oralidade é um modo de organizar o presente e também de projetar o futuro.”
A afirmação acima, feita por Paulo Jeremias Aires, é didática para compreender o papel central que a oralidade tem para a estruturação e a organização social da etnia Akroá Gamella.
Nesse sentido, as narrativas das pessoas mais velhas, assim como cantos, rituais e assembleias funcionam como espaços para transmissão de conhecimentos. Essa maneira permite, então, o compartilhamento intergeracional de histórias sobre território, famílias, deslocamentos e formas de resistência desse mesmo povo.
Essa abordagem possibilita, então, dimensionar o modo como a etnia Akroá Gamella se relaciona com o território onde vive. “O território é entendido como espaço de vida, memória, espiritualidade e continuidade coletiva da vida. Elementos como rios, matas e plantas, como a juçara ou a guarimã, fazem parte de redes de relações que sustentam a vida comunitária”, explica.
Tal abordagem tem papel estruturante para a cosmovisão dos Akroá Gamella - e para etnias indígenas de modo geral - sobre a relação com o meio ambiente. Nesse sentido, o que está em jogo é a necessidade de se superar a visão territorial baseada no produtivismo.
“O território é entendido como espaço de vida, memória, espiritualidade e continuidade coletiva da vida. Elementos como rios, matas e plantas, como a juçara ou a guarimã, fazem parte de redes de relações que sustentam a vida comunitária.” (Paulo Jeremias Aires)
Outros modos de ser, estar e existir
Ao considerar-se a cosmovisão da etnia Akroá Gamella, outros modos de coexistir com o meio ambiente podem contemplar, a partir de práticas tradicionais de manejo da terra, coleta e uso de recursos naturais, o desenvolvimento de formas de interação que tenham a reciprocidade, o respeito aos ciclos naturais e o uso coletivo do território como bases fundamentais.
“Tais experiências evidenciam que os povos indígenas são portadores de conhecimentos fundamentais para pensar formas mais equilibradas de relação entre sociedade e natureza”, descreve Paulo Jeremias Aire.
Essa perspectiva demanda, enfim, o apoio à realização de pesquisas feitas por - e para - pessoas pesquisadoras indígenas e cujas abordagens contemplem cosmovisões para além de modelos pautados pelo eurocentrismo. E, ao considerar-se a realidade do Brasil, é fundamental fortalecer trajetórias acadêmicas que se comprometam com a diversidade de saberes e modos de ser e estar no mundo.
“Durante muito tempo, a universidade valorizou quase exclusivamente perspectivas teóricas e metodológicas de origem europeia, deixando em segundo plano os saberes produzidos por povos e comunidades originárias”, completa Paulo Jeremias Aires, ao falar sobre o apoio que recebeu para o seu estudo. “No caso da minha pesquisa, esse apoio contribui para que narrativas e memórias produzidas pelo povo Akroá Gamella sejam reconhecidas também como formas legítimas de conhecimento.”