Todo debate sério sobre meio ambiente precisa passar, sem dúvida, por aspectos centrais como racismo ambiental e injustiça climática. Essa lógica tem razão de ser: ainda que a ação predatória do ser humano tenha influenciado mudanças ambientais e ecológicos reflita de modo direto em todas as partes da Terra, as populações de territórios menos desenvolvidos economicamente, justamente de países que pouco causaram impactos ambientais por motivação econômica, são justamente as mais afetadas. Idem aquelas que vivem em áreas periféricas no Norte Global.
Nesse cenário, falar sobre racismo ambiental e climático é urgente. Em primeiro lugar, pois ambos os conceitos mostram a relação intrínseca entre disparidades em âmbito racial e ambiental. Além disso, trata-se de reflexo das dimensões estrutural e institucional do racismo na sociedade, uma vez que vieses na elaboração - ou omissão - de políticas públicas, assim na culpabilização de vítimas de desastres ambientais, que ocorrem invariavelmente em territórios vulneráveis, atingem, de modo inquestionável, pessoas racializadas. Essas pessoas, por meio de processos históricos, foram relegadas à margem da sociedade e, consequentemente, negligenciadas sistematicamente pelo poder público.
Esse é um dos pontos centrais de Can I Live?, documentário adaptado de peça homônima. O projeto, estrelado e produzido pelo ator e ativista ambiental Fehinti Balogun (I May Destroy You), mergulha no debate sobre injustiça climática e justiça em âmbitos social e racial a partir da perspectiva e condução narrativa de Balogun. A obra conta com participações de demais ativistas ambientais, entre os quais está Samia Alexandra, ativista pela justiça climática.
Fundadora da organização Seize the Vote, que visa engajar juventudes de minorias étnico-raciais na política do Reino Unido, Samia Alexandra veio ao Brasil, com Fehinti Balogun, para a exibição de Can I Live?. O filme foi exibido no Festival Internacional do Audiovisual Negro no Brasil (FIANb), no Centro Cultural São Paulo.
A entrevista com Samia Alexandra aconteceu em 27 de novembro, após mesa de debate realizada no Itaú Cultural, da qual participaram também Balogun e Maíra Silva, coordenadora da área de Combate ao Racismo Ambiental do Instituto de Referência Negra Peregum. Durante o diálogo, ela falou sobre a importância de grupos do Norte Global ouvirem e aprenderem com as perspectivas e experiências do Sul Global. Idem perceberem que as lideranças ambientais de tais territórios devem ser protagonistas no debate sobre meio ambiente e justiça climática.
Confira o diálogo a seguir.
O debate global sobre mudanças climáticas ainda segue a perspectiva do Norte Global. No entanto, as populações do Sul Global mostram ser plenamente capazes de ter protagonismo e desenvolver estratégias para mitigar tais efeitos. Em sua opinião, por que setores ainda hegemônicos têm leitura colonizadora e ainda se mostram reticentes com a mobilização de atores do Sul Global?
Para mim, é importante para ONGs do Norte Global entenderem que as pessoas que sofreram as piores consequências da crise climática são as pessoas marginalizadas, racializadas, especialmente as pessoas do Sul Global.
A crise climática não é um cenário futuro: está acontecendo agora. Acredito que a perspectiva colonizadora do Norte Global precisa ser endereçada, mas de modo que as pessoas do Norte Global devem estar mais quietas e disponibilizar microfones para as pessoas do Sul Global, especialmente porque são elas quem estão sofrendo as consequências pelas ações que não foram realizadas por elas.
Sabemos que a crise climática é resultante de países do Norte Global - seus negócios, atividades e indústrias. O Norte Global precisa se responsabilizar e prestar contas, dizendo que [o contextual climático resulta de] suas ações, e que as causou. Ele precisa “virar a chave”¹ e dar espaço e palanque para que as vozes de pessoas do Sul Global reverberem.
As pessoas do Sul Global têm as soluções, pois elas estão vivendo em meio à crise, sabem o que precisa ser feito e aonde o dinheiro precisa ir. Considero que precisamos valorizar mais as suas vozes. Para mim, esse não é um trabalho difícil de fazer. Considero que as vozes do Norte Global precisam estar mais quietas.
+ Saiba mais sobre o filme "Can I Live?"
O que você acabou de dizer dialoga com a minha próxima pergunta. Quais lições, além de serem mais quietas, as vozes do Norte Global devem aprender com as nossas vozes?
Entendo que, por algum motivo, o movimento climático do Norte Global parece considerar que é o único a falar sobre crise climática. Mas há grandes iniciativas, como a Via Campesina, na América Latina, que está olhando para questões relativas à terra e a alimentos. Há diversos grupos que lutam para proteger suas terras, florestas, coisas que foram em suas famílias por gerações. Além disso, os povos indígenas são conhecidos por proteger 80% da biodiversidade do mundo.
Acredito que ao olhar para o trabalho que já está sendo feito nas comunidades do Sul Global, o Norte Global precisa compreender que deve ouvir as pessoas responsáveis pela proteção do planeta, pois são as pessoas Norte Global quem estão destruindo o planeta.
Vamos olhar para quem está fazendo isso há décadas e compreende o planeta melhor do que nós. Historicamente, na escravidão, o Norte Global sequestrou² pessoas e as levou para diferentes partes do mundo, pois elas entendiam melhor sobre o manejo da terra. Idem porque elas, em nossas comunidades, sabiam como a natureza e o meio ambiente funcionam. Então, ao invés de tomarem posse³ desse conhecimento, [grupos do Norte Global devem] construir espaços coletivos, onde é possível intercambiar conhecimento e compartilhar habilidades. Eles devem fazer isso ao invés de se apropriar de trabalho e de saberes, para mantê-los consigo próprios e repetir o mesmo ciclo. E se eles realmente acreditam em justiça, eles precisam, então, garantir às pessoas uma oportunidade igual para falar sobre soluções de forma equilibrada.
"O Norte Global precisa se responsabilizar e prestar contas, dizendo que [o contextual climático resulta de] suas ações, e que as causou. Ele precisa “virar a chave” e dar espaço e palanque para que as vozes de pessoas do Sul Global reverberem."
É correto considerar que quem está no Sul Global e/ou vivendo em bairros periféricos de megalópoles pode ser considerado, por sofrer os efeitos de mudanças climáticas, como protagonista neste debate?
Sim. Por exemplo, se você estiver passando por ondas de calor e demandando por melhores condições de infraestrutura em lares, é seu direito de dizer o que precisa ser feito, ao invés de alguém de fora que não está experimentando isso. Quem não está passando por isso não sabe como é viver e trabalhar em uma área que passa por ondas de calor, desmatamento e mudanças extremas de clima. Esse debate deve ser liderado neste debate por pessoas que estão sofrendo as consequências da crise climática.
Você não quer que alguém em outro país decida como a sua política deve ser - no caso, como outras pessoas consideram que deva ser -, mas sei que é difícil politicamente. Por isso, encorajo as pessoas a ter essas conversas em nível local e construir campanhas nacionais em outros locais.
Por exemplo, em comunidades nas diversas regiões do Brasil⁴, você pode organizar suas próprias campanhas nas suas regiões. Mas você pode também desenvolver uma campanha coletiva, na qual você se unir a todas as regiões e especificar qual é a demanda coletiva.
Um dos pontos de Can I Live? foi mostrar outra dimensão que se opõe à perspectiva individual - como economizar o máximo de água possível, reduzir o próprio impacto no meio ambiente. Ainda que essas ações façam algum sentido, quão importante é mostrar à sociedade que, em grande medida, há uma questão mais profunda e que passa pela organização socioeconômica?
Sabe-se, estatisticamente, que as pessoas mais ricas do mundo são as que mais “contribuem” para os maiores níveis de emissão do mundo. São as pessoas mais ricas no mundo e famílias bilionárias quem estão causando a crise climática e os maiores níveis de emissão para a atmosfera do planeta.
Isso vai além das ações individuais. Todas e todos podemos reciclar mais, economizar mais água, mas isso não tem impacto [em comparação] com as suas atividades. Há quem voe seus jatos privados todos os dias, há quem possua negócios que sejam altamente poluentes e contamine sistemas de água da população. São essas pessoas quem devem fazer suas ações - não as pessoas na base da hierarquia.
Observações
¹ A expressão originalmente usada por Samia Alexandra foi “turn the table” (“virar a mesa”, em tradução literal da língua inglesa). O ajuste foi feito para facilitar a compreensão durante a leitura.
² A expressão originalmente usada por Samia Alexandra foi “taken people” (“pessoas levadas”, em tradução literal da língua inglesa). A tradução contemplou a premissa de que pessoas do continente africano foram sequestradas e escravizadas, além de que transmite com mais exatidão a ideia principal da fala da entrevistada.
³ A tradução literal de “extracted” é “extraiu”. O contexto da frase torna-a mais condizente com a tradução “tomou posse”.
⁴ A fala original de Samia Alexandra foi “(...) no Norte, Sul, Oeste e Leste do Brasil.” A tradução foi ajustada para contemplar as cinco regiões do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul).