Quando se fala em expoentes da cultura brasileira, falar de Paulo Lins é obrigatório. Não é para menos: o romancista, roteirista, poeta e professor, que recentemente completou 65 anos, é um dos principais responsáveis por um dos principais marcos recentes da cultura brasileira - no caso, o romance Cidade de Deus e, como consequência, o filme homônimo lançado em 2002.
Todavia, a carreira e o trabalho de Lins vão muito além do já clássico livro. Afinal, estamos falando de um dos expoentes contemporâneos da literatura brasileira e, por óbvio, uma lenda viva entre artistas negros. Basta dizer que outros de seus trabalhos, como Desde que o Samba é Samba e Dois Amores, mostram, sem romantismo ou exploração de vulnerabilidades estruturais e sociorraciais, um lado do Brasil ora ignorado, ora criminalizado por simplesmente existir.
Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Paulo Lins falou sobre aspectos diversos a respeito da sua trajetória na literatura e como roteirista. Alguns pontos passaram, obviamente, pela relação entre ancestralidades e resistência afro-brasileira por meio do contexto sociocultural. Para além dessa premissa, o diálogo retratou também maneiras para divulgação científica por meio do trabalho artístico - o que foi o caso do desenvolvimento do livro Cidade de Deus -, e sobre o futuro.
Confira a entrevista a seguir.
Por meio de narrativa intensa e envolvente, Cidade de Deus apresenta uma alternativa para a divulgação de projetos acadêmicos. Em sua opinião, como a produção artística pode, pontualmente no caso da literatura, ser uma aliada na divulgação artística?
Na verdade, foi necessário na maioria dos projetos dos quais participei, inclusive de ficção, realizar pesquisas se for ambientar o trabalho em uma região e sobre um [determinado] período. Se eu for escrever sobre o século XIX, terei de saber a linguagem e o sistema de relação da época - ou seja, como estava a sociedade naquele momento. Eu fazia isso com trabalhos antropológicos: entrevistava pessoas que estavam na base da sociedade, sem equidade social e racial, pessoas pobres, sem alternativa de trabalho, estudo, médico, de tudo. [Em suma] pessoas pobres do Brasil, que hoje estão nas favelas.
Eu fazia essa pesquisa para a Antropologia, mas eu era de Letras. Essa mesma pesquisa, que serviu para Alba Zaluar fazer um trabalho antropológico, para mim serviu para a literatura. Lógico, nem todo trabalho literário precisa de pesquisa, ser ambientado e da questão social - do sistema de relação, como falei - para se escrever. Todavia, há trabalhos nos quais isso não é não é necessário - ele pode se dar em qualquer época e lugar, pois não precisa da questão social, da sociedade eda ambientação.
Mas o meu precisava [desses aspectos]. A mesma pesquisa que serviu para o trabalho antropológico que Alba Zaluar fez serviu para eu fazer um romance.
Apesar de ter sido lançado em meados dos anos 1990 e ter história de décadas anteriores, pontos temáticos de Cidade de Deus permanecem atuais, em especial quando se fala na estrutura racista e excludente da sociedade e de problemas crônicos de segurança pública. Qual é a sua impressão sobre esse ponto?
Quando fiz esse trabalho, imaginei que isso fosse chegar às autoridades dos três poderes, por ser uma literatura que tem cunho político muito forte, e ajudar a entender por que e como essa criminalidade nas favelas acontece. Tantos trabalhos são feitos na Antropologia e na Sociologia para tentar terminar com essa criminalidade que só aumenta e só aumentou - e nesse ponto não deu certo.
Deu certo na literatura e no cinema, mas imaginei que fosse diminuir pelo menos, porque [a obra] tinha um olhar interno. É um trabalho literário com engajamento social muito grande, como se dizia antigamente, e pensei que fosse servir sobre como políticos iriam ver e enfrentar [o fato de] essas crianças entrarem para a criminalidade. Idem se iriam rever a questão do colégio público, da própria habitação, do trabalho cultural nas favelas - enfim, distribuição de renda, vamos falar o português claro - e equidade sociorracial. Isso não aconteceu.
Enquanto houver essa desigualdade social no Brasil, a criminalidade acontecerá de uma forma ou de outra. Enquanto houver gente passando fome e crianças sem boas escolas, sem trabalho cultural e esportivo, essa criminalidade vai continuar. Não adianta fazer nada, tampouco nenhum recurso tecnológico, que não seja para dar humanidade aos humanos na base da pirâmide social.
Podemos ver, nos últimos anos, que obras de jovens escritoras/es negras/os, como Itamar Vieira Junior, Wesley Barbosa, Jeferson Tenório e Jarid Arraes, tendo projeção cada vez maior, assim como homenagens a obras como exposição sobre "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves, no Museu de Arte do Rio (MAR). Pode-se dizer que esses fatos representam reflexos da valorização da potência de escritoras/es negras/os ou que há ainda um caminho grande a percorrer para se chegar a esse nível?
A cultura sempre foi o nosso forte. É por meio dela que buscamos a nossa ancestralidade. Os africanos, quando chegavam ao Brasil sequestrados na África, não podiam cultuar seus deuses, tampouco falar a própria língua. Essas são formas de enfraquecer um povo: ao tirar a cultura e a arte que esse povo criou junto, ele ficará enfraquecido e sem identidade. Foi isso o que os portugueses fizeram na época da escravização.
Tudo é substituível: a casa é substituível - era a caverna e virou casa -, a canoa virou navio, a carroça virou carro. Mas Ogum não vai virar São Jorge. E na própria arte também: cada um vai manter o seu lugar. Manteremos o nosso lugar dentro da arte, dentro da literatura, e daremos prosseguimento ao que os nossos antepassados fizeram.
Só existem Itamar, Jéferson Tenório e José Falero, por exemplo, porque existiram os antepassados. A forma de criar resistência foi por meio da cultura. Tanto é que quando os afrodescendentes começam a votar no Brasil, eles procuram os sambistas e os pais de santo para conseguirem votos. Quem foram atacados e presos? Eram pais e mães de santo e as/os sambistas. Por quê? Porque uniam e traziam cumplicidade, irmandade e força. A cumplicidade de acreditar no mesmo Deus, em Oxalá, em Olorum, é uma coisa muito forte. Por exemplo, fui no Caribe e lá as pessoas negras não têm nenhuma relação com a África. Mesmo assim, são consideradas cidadãs de segunda classe. Por aqui, o que fortaleceu foi a nossa cultura, que está aí até hoje.
A luta do movimento negro, que vem desde Zumbi, Ganga Zumba e Dandara, nos trouxe até aqui. Eu sou o resultado disso. Itamar, Jéferson e José Falero são resultados disso. Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Cidinha Gonçalves e Eliana Alves Cruz são resultados disso, por exemplo, assim como tantas mulheres e homens escrevendo. Esse é um trabalho do movimento negro.
Você está fazendo essa entrevista por causa do movimento negro. Não foi porque brancas/os são democráticas/os e bondosas/os - o racismo existe até hoje. Se não fosse essa luta, toda essa luta do movimento negro, para cotas e para conseguir estudar, não estaríamos aqui. Por exemplo, mesmo quando pessoas pretas eram proibidas de frequentar o ensino oficial, havia os clubes negros e as escolas negras. A luta não foi somente armada, dos quilombo e das revoltas: foi também criando sociedades, clubes de livros, essas coisas, que chegamos até aqui.
"Tudo é substituível: a casa é substituível - era a caverna e virou casa -, a canoa virou navio, a carroça virou carro. Mas Ogum não vai virar São Jorge. E na própria arte também: cada um vai manter o seu lugar. Manteremos o nosso lugar dentro da arte, dentro da literatura, e daremos prosseguimento ao que os nossos antepassados fizeram."
Uma das sensações que se tem ao ler Desde que O Samba é Samba é a de se deparar com uma ode à ancestralidade, por meio das entidades da Umbanda, e de estratégias variadas de sobrevivência da população negra após a abolição da escravatura - mas sem romantizá-la. Você considera esta interpretação plausível?
Acho. Fiz por causa disso mesmo. O samba era proibido - qualquer manifestação cultural negra era proibida - e hoje é o símbolo do Brasil. Dentro de onde funcionavam vários terreiros de Candomblé, que eram escondidos, que eram nos quilombos, funcionavam os clubes negros e a educação. O samba também foi perseguido. Por exemplo, João da Baiana foi preso por causa de um pandeiro, na Festa da Penha. Pixinguinha era proibido de tocar em certas casas noturnas. Até hoje nossos terreiros são saqueados, invadidos e quebrados.
É a nossa força. Ainda que se fale sobre o negro somente poder ser sambista ou jogador jogador de futebol, a força da nossa cultura não é para somente tornar artistas, músicos, sambistas, não. É para formar engenheiros, médicos e professores. Estamos aqui escrevendo e nos tornamos escritores por causa dessas/es pais de santo e sambistas, que nos uniram em torno da cultura.
É uma coisa de formação mesmo, de, por meio da cultura, promover o desenvolvimento intelectual. O ensino da língua portuguesa - você estava aqui e tinha de falar a língua do opressor - foi fundamental para termos poder de negociação, ter tudo. A formação do samba foi isso. Hoje, dentro das escolas de samba, dos clubes negros - a escola de samba seria um clube negro, vamos dizer assim -, era o que acontecia na nossa formação intelectual.
Pensando na produção de roteiros e literária, como roteirista, você se vê com uma figura pioneira na televisão propriamente dita? E como você vê debates na parte literária sobre o resgate da herança negra de Machado de Assis e o protagonismo da Carolina Maria de Jesus, por exemplo?
Carolina Maria de Jesus foi uma resistente e uma pessoa que lutou para conseguir ter visibilidade. Machado de Assis teve projeção rápida na época dele. Já Lima Barreto sofreu muito para conseguir escrever e teve uma vida sem o reconhecimento que precisava ter na época em que ele escrevia.
Muita gente vem antes de mim. Não podemos negar o ativismo de Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento. Acho que viemos no processo - Havia muita gente que já escrevia. Agora está mais visível. Por exemplo, as cotas também, como um projeto do movimento negro - a não podemos negar isso. Eu me lembro de que estava na faculdade nos anos 1980 e Ivanir dos Santos foi fazer uma palestra, isso nos anos 1980, sobre implantar as cotas raciais.
Venho em um processo. Zózimo Bulbul estava aí - eu o conheci, por exemplo. Mas vim depois da ditadura, já nos anos 1990. Já havia pessoas trabalhando na periferia e a literatura marginal, periférica, despontou. Hoje são vários os escritores periférico: Sérgio Vaz, Alessandro Buzo, Sacolinha, tanta gente aí.
Ferréz também.
Fui ao Capão Redondo quando ele lançou o primeiro livro, Capão Pecado - estive lá com ele. Já havia o Racionais MC’s dentro da música, quando já havia lançado disco. Culturalmente, a periferia está mais forte do que nunca.
Pode-se ver quantidade maior de produções televisivas com mais profissionais negras/os em funções estratégicas, como direção, fotografia e roteiro. É possível dizer que o setor audiovisual está, após provocações e questionamentos históricos, se sensibilizando ao debate sobre pluralidade racial e de gênero? Em caso afirmativo, até que ponto?
Em todos os setores também, não somente na televisão, no cinema, mas na medicina ou na engenharia também. Hoje, com as questões das cotas, 52% dos estudantes das universidades públicas são pessoas afrodescendentes. Isso é um avanço muito grande - era tudo o que queríamos.
Quando estávamos ali, no meu início do movimento negro, quando conheci Abdias, Flávio Gomes, Marcelo Paixão, Lélia Gonzalez e comecei a frequentar o Movimento Negro Unificado (MNU) do Rio de Janeiro e o IPCN, era tudo o que queríamos. Acho que falta muito ainda para toda a sociedade ter equidade sociorracial - a luta é longa, mas está sendo vitoriosa. Sou otimista em relação a isso e cada dia vai melhorar mais.
+ Confira a entrevista de Iêda Leal, coordenadora nacional do MNU
Você fez 65 anos recentemente. Você consegue fazer um balanço da sua carreira? Se sim, quais são os próximos passos em termos de projetos e poder criativo para os próximos tempos?
Precisamos sempre de nos reinventarmos, pois não temos a coisa [N.R.: privilégios] pessoas de bem-sucedidas, de estarmos bem e fazermos o que quisermos. Temos de nos adequar ao mercado e à época. Agora, que já lemos ou assistimos a todos os clássicos, [temos de] dialogar com os novos, ver o que está acontecendo no nosso tempo e de nos adequarmos, estarmos sempre ligados no momento em que estamos vivendo para projetarmos para o futuro.
Estou sempre começando do zero. Começando de novo, já estou vendo o que vou fazer, produzindo outras coisas e pensando novos vídeos, novos filmes, novos projetos. A vida é constante. Não se trata de uma questão de evolução: é uma questão de sintonia com o tempo em que estamos vivendo.