Diálogos e cenas do tempo espiralar

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Uma ode ao tempo. Não à perspectiva utilitarista e à experiência da temporalidade ocidental dentro da qual todas e todos vivemos. É assim como o diálogo com a professora, poeta, ensaísta e dramaturga Leda Maria Martins, que aconteceu em 19 de junho, po...

Diálogos e cenas do tempo espiralar
Acervo Ancestralidades

Uma ode ao tempo. Não à perspectiva utilitarista e à experiência da temporalidade ocidental dentro da qual todas e todos vivemos. É assim como o diálogo com a professora, poeta, ensaísta e dramaturga Leda Maria Martins, que aconteceu em 19 de junho, pode ser vista: uma ode ao tempo espiralar.

A intelectual, que é autora de obras como “Cantigas de Amares” (1983) e “Performance do Tempo Espiralar - Poéticas do Corpo-Tela” (2021), falou, por pouco mais de duas horas, sobre aspectos como produção literária, acadêmica e artística no que diz respeito à sua biografia. O bate-papo contou também com participações das dramaturgas e atrizes Telma Fernandes e Lucelia Sergio Conceição.

Para começar, Leda Maria Martins evidenciou que não é uma criadora que costuma dirigir a leitura de suas obras. “Quando escrevemos, há uma ideia que se desenvolve e não existe nada fora da linguagem. Não adianta uma poeta escrever algo e dizer: ‘isso é isso’. Todo e qualquer delírio ou interpretação sobre a obra, no meu modo de ver, tem de estar na obra, ainda que nos leve a tantos outros lugares. Mas deve estar ali.”
 

Sobre criar e ocupar

O diálogo com Leda Maria Martins passou também sobre a ocupação de lacunas históricas. Um exemplo emblemático abrange o discurso de segmentos dominantes sobre grupos sociais e povos subalternizados, cuja construção reverbera a sua interpretação - o que foi, historicamente, tomado como invenção e verdade conceitual. “Reparem que dou muito mais valor à memória, que é sempre um hiato no vazio. Ou seja: ela preenche o vazio”, pondera a intelectual.

Essa lógica, vale dizer, é ainda mais evidente quando se fala em grupos sociopoliticamente minorizados, como a população negra, mulheres, povos indígenas ou dissidentes de gênero. Logo, quando esses grupos passam a contar as suas próprias histórias e tomar para si o protagonismo sobre as suas respectivas narrativas, passa a acontecer um hiato no vazio.

“O que é um hiato? É quando se interrompe alguma coisa. Interrompe-se o vazio e a lacuna onde você falta - e, de certo modo, você a interrompe. Trabalho muito com o corpo como um lugar de inscrição do saber e da memória. Aquilo que o discurso e a escrita escondem, o corpo, a escrita e o saber inscrito no corpo revelam e criam hiatos nos vazios onde muitas vezes faltamos”, reforça.


Concepção temporal

“A nossa experiência de temporalidade é a da temporalidade ocidental, que formata tudo na nossa vida.” Ao fazer tal afirmação, Leda Maria Martins demonstra como nos acostumamos, em nível social, ao paradigma e aos conhecimentos trazidos por povos colonizadores ou que dominaram grupos socialmente minorizados. De acordo com a professora, “a própria concepção de tempo não é só filosófica ou que funda a ideia de história. É também algo utilizado para o controle social.”

Essa perspectiva, que é assimilada como verdade universal, resulta no apagamento e de saberes filosóficos de demais povos, segundo os quais o tempo e as temporalidades podem ser organizadas de outra maneira, em oposição ao modo como a filosofia e a prática ocidental as elaboram.

“Isso nos vai ajudar a entender muita coisa, entre as quais uma ideia que nomeio como tempo espiralar, mas que vem da junção de se observar e refletir sobre culturas e pensamentos dos povos africanos - como esses pensamentos se formatam - e o que os ancora”, reforça. “Ela se ancora não em uma ideia da temporalidade linear progressiva dividida em tempos separados, mas se apoia em outras âncoras, principalmente em outra grande âncora estrutural, que é como se concebe a ideia de ancestralidade em algumas das matrizes de pensamentos trazidas para o Brasil.”

Logo, a compreensão do tempo espiralar exige que se entenda o modo como tais matrizes de pensamento trabalham. Nesse sentido, essa lógica conta com correspondentes semelhantes no pensamento de povos indígenas, ao conter a ideia segundo a qual o tempo não se resume à premissa segundo a qual ele somente caminha para frente. “O que é perder tempo? Perder tempo é uma lógica em que o controle sobre o tempo, sendo na verdade o controle sobre a pessoa, o indivíduo, o trabalhador, todos nós - e se realiza dessa maneira. Os provérbios dizem que não se pode perder tempo e que tempo é dinheiro”, reflete.

Essa mesma perspectiva promove também reflexões sobre o modo como nos relacionamos com o passado e a valorização ou apagamento da memória. “Quando se diz ‘há de se esquecer o passado’, o tempo histórico esquece o passado ou quer nos fazer esquecê-lo. No tempo espiralar, tudo vai, tudo volta.”

“O que é perder tempo? Perder tempo é uma lógica em que o controle sobre o tempo, sendo na verdade o controle sobre a pessoa, o indivíduo, o trabalhador, todos nós - e se realiza dessa maneira. Os provérbios dizem que não se pode perder tempo e que tempo é dinheiro”

Tempo em cena

Outro momento emblemático no diálogo com Leda Maria Martins disse respeito à sua relação com o teatro e o seu trabalho como dramaturga. Nesse contexto, a intelectual contou uma passagem de quando esteve nos EUA, enquanto fazia mestrado, e encontrou informações que se tornariam centrais no seu doutorado - e que dialogam com o resgate temporal e remetem ao conceito de tempo espiralar.

“Para vocês terem uma ideia, ‘A Cena em Sombras’ é a minha tese de doutorado e é sobre teatro negro em comparação - teatro negro no Brasil e nos EUA. Nunca havia ouvido falar do Teatro Experimental do Negro no Brasil”, conta.

Nesse contexto, Leda Maria Martins destaca o fato de ter conhecido em uma biblioteca nos EUA a antologia “Dramas para Negros e Prólogo para Brancos”  - “e eu era rata de biblioteca no Brasil”, enfatiza. “Quando li isso lá, eu queria saber mais sobre aquilo. Quando fiz o doutorado, pude pesquisar mais e não havia quase nada escrito sobre o Teatro Experimental do Negro.”

Se o cenário à época era de escassez de fontes sobre o Teatro Experimental do Negro, a realidade atual é diferente. No entanto, foram necessários esforços importantes para resgatar a história da iniciativa de Abdias do Nascimento. “A minha geração teve de ‘cavocar’ mesmo, ir atrás e ter curiosidade para saber e que desconfiar de que o que estava escrito e dito não era universal. Somos educados e educadas para pensar que a história e os saberes são universais. Mas nada é universal”, finalizou.
 

Saiba mais

Assista à íntegra do diálogo com Leda Maria Martins no canal do Itaú Cultural no YouTube. Acompanhe também a Plataforma Ancestralidades para saber mais detalhes sobre a futura Ocupação Leda Maria Martins, cuja abertura será no segundo semestre de 2024.

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