Recorrer à escrevivência no presente para construir um futuro pautado pela equidade e valorização dos saberes e da ancestralidade afro-brasileira. Esse aspecto é central na pesquisa Travessias, etnometodologia e afroformação: por experiências de felicidade na educação infantil. Desenvolvido por Fátima Santana Santos, o projeto foi um dos selecionados na edição 2024 do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa.
O estudo, que se propõe a ser uma etnopesquisa-ação do Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos, situada em Lauro de Freitas (BA), tem como base as experiências e escrevivências de mulheres negras - docentes na CMEI em questão. E, desse modo, o projeto torna evidentes os percursos formativos e etnometodologias construídas coletiva e colaborativamente por essas mesmas profissionais.
Consequentemente, o projeto implementado pelas professoras visa estimular o desenvolvimento da identidade de crianças negras com bases e referenciais positivos, em contraponto a estereótipos negativos e excludentes que foram historicamente normalizados.
Confira a seguir o diálogo com Fátima sobre tais aspectos, assim como a abordagem da temática étnico-racial em sala de aula, o papel central que a metodologia criada por Conceição Evaristo tem para fundamentar o projeto e a conexão do tema com a pauta socioambiental.
Como você pode descrever a experiência de recorrer ao conceito de escrevivência para trabalhar com relações étnico-raciais para abordar esse tema em sala de aula? E quais são os impactos que você vê em docentes e estudantes nesse contexto?
Fátima Santana Santos: A instituição de ensino do qual faço parte, que é majoritariamente formada por mulheres negras, que de forma coletiva e irmanada vêm tecendo novas escrevivências com olhar e escuta voltadas ao que nos ensina Conceição Evaristo, estamos imbuídas na ação que pretende desfazer uma imagem do passado das mulheres negras. Neste sentido, as escrevivências tornam possível, por meio de etnopesquisa-ação em que os nossos saberes e nossas experiências. Mas, também, nossas aprendizagens e desaprendizagens nos ajudam a escrevivermos com uma prática pedagógica afro-brasileira, escrevivente e feliz e voltada para uma educação para as relações étnico-raciais com bebês, crianças pequenas e crianças bem pequenas.
Interessa para nós, em nossa etnopesquisa-ação, olhar para dentro e para fora, e compreender como essas mulheres e professoras negras constroem práticas e etnometodologias outras a partir de cosmopercepção africana [Oyewúmí (2004)], em que o processo formativo e de autoformação e afroformação ocupa outro lugar. É o contexto no qual o currículo escolar para as infâncias forjado pelas mãos de mulheres negras sai do lugar de estranheza e se coloca como possibilidade de vida em territórios e comunidades onde professoras criam e recriam modos de saber/fazer etnometodologias para os territórios das infâncias a partir de suas escrevivências afro-brasileira e afrodiaspóricas.
Entendemos que as nossas escrevivências potencializam o nosso modo de fazer, pensar e sentir outra proposta pedagógica, que se relaciona com o nosso modo de vida, tradições e crenças, bem como o ar, a terra, as plantas, a chuva fazem parte de proposta que se volta para aprendizagens significativas e uma educação das relações étnico-raciais. Portanto, a melhor compreensão sobre as nossas escrevivências possibilitou estarmos abertas a uma formação que nos posiciona em um lugar no mundo, confrontando com o espaço que foi construído a partir do imaginário de “ninar os da casa-grande”.
Reconhecemos que a educação que vivenciamos em nossas infâncias não valorizou as nossas marcas identitárias, tampouco nossos saberes e ancestralidade. No entanto, estamos construindo junto aos nossos bebês e crianças negras novas formas de escreviver-se em uma escola na qual a experiência da felicidade é o objetivo principal e entendemos a importância de nossas crianças serem curriculantes (MACEDO, 2013) e alterarem o currículo e a prática cotidiana que muitas vezes nos desumaniza e nos violenta. Temos visto, ao longo desses anos, uma mudança no corpo docente e em nossos bebês e crianças, assim como suas famílias. Trata-se de percepção mais positiva sobre si e o outro.
Tomamos como exemplo, em uma atividade que realizamos, uma das nossas crianças após olhar para o grande sambista Riachão, que esteve em nosso CMEI, dizer: “quando crescer, quero ser igual a você”. Ou de uma das nossas meninas, que disse ao olhar para a imagem da cantora Larissa Luz, que “ela parece uma boneca”. Isso se traduz em novas escrevivências amparadas por novas cosmopercepções de mundo e experiências de felicidade construídas dentro da escola.
"A melhor compreensão sobre as nossas escrevivências possibilitou estarmos abertas a uma formação que nos posiciona em um lugar no mundo, confrontando com o espaço que foi construído a partir do imaginário de 'ninar os da casa-grande'.”
Quais foram os principais desafios e oportunidades que você identificou para trabalhar com a escrevivência em sala de aula para falar sobre relações étnico-raciais e meio ambiente, assim como desenvolver novas etnometodologias?
Fátima Santana Santos: A instituição em que atuo como coordenadora pedagógica desde 2013 trabalha em uma perspectiva de educação voltada às relações étnico-raciais. Realizamos em 2018, com nossos bebês e crianças, o projeto Escrevivências Infantis: diálogos com Conceição Evaristo, em que provocamos a comunidade escolar a realizar novas escrevivências por meio da vida e obra da escritora.
Os nossos maiores desafios têm sido o processo de precarização da educação. E, no que se refere ao investimento financeiro da instituição e para as nossas pesquisas e formação, as professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos tem criado diversas etnometodologias para uma educação das infâncias com foco em ensino para relações étnico-raciais junto/com nossos bebês e crianças. Um dos maiores impasses tem sido a ausência de recursos para investimento na nossa formação e compra de material, dentre outros, inclusive pelo nosso modo de fazer educação ir muito em encontro ao que nos ensina Nilma Lino Gomes: realizarmos proposições metodológicas através de movimento educador.
Outra dificuldade relaciona-se ao investimento mais significativo na afroformação, sobretudo por tratar-se de coletivo de professoras formado majoritariamente por mulheres negras. Elas, por meio das suas escrevivências, têm alterado o currículo da educação infantil.
Sobre oportunidades: com a perspectiva de sermos “desobedientes”, contrapondo por intermédio das nossas escrevivências e com a nossa prática pedagógica cotidiana a um projeto racista, capacitista, cisheteronormativo, seguimos em luta para que nossos bebês e crianças tenham o direito de afroexistir e de se escreviverem. Acreditamos que isso somente é possível através de educação para a equidade racial e que caminhe em realizar verdadeiramente a tão desejada justiça curricular.
Ao pensarmos também na COP 30 e no debate sobre preservação socioambiental e ancestralidade, como a escrevivência pode ser, com base na sua experiência, uma aliada para abordar temas com esse teor no ambiente escolar?
Fátima Santana Santos: Na atualidade temos, enquanto coletivo, o desafio de olhar para dentro e para fora, escrevivendo-nos a partir de cosmopercepção ancestral. Isso está indicado por meio do projeto que submetemos à Plataforma Ancestralidades, em que propomos realizar, entre outras coisas, as afroformações. Elas objetivam, sobretudo, a necessidade da escola continuar mantendo diálogo permanente com nossos territórios, com as comunidades quilombolas junto/com nossos bebês e nossas crianças negras. É nesses espaços onde as práticas de escrevivências e etnometodologias são tramadas de forma coletiva-colaborativa com a escola - ou seja, com toda a comunidade escolar.
Pensar sobre a COP 30 é rediscutir sobre novos caminhos e o nosso papel enquanto escola, ao tratarmos de preservação socioambiental. Idem pensar nas nossas escrevivências enquanto mulheres negras e professoras e sobre as nossas conexões ancestrais. Isso me convoca, enquanto pesquisadora das infâncias negras, implicada com a formação de professoras, sobre quais arquiteturas e etnometodologias poderemos tecer com nosso bebês e crianças sobre esse novo mundo que se apresenta. Como bem disse Ailton Krenak, “o futuro é ancestral”. Como ecoa a sabedoria de Mãe Menininha do Gantois, “acima de Deus, nada; abaixo de Deus, as águas’’.
Refletir sobre a COP 30 é problematizar questões que envolvem mudanças climáticas e como isso impacta no direito das nossas crianças terem uma praça para brincar, pular, dançar e correr. É sobre o direito delas de terem um parque na proximidade de suas casas, de brincarem com a natureza e com a terra e amá-la. Mas é, sobretudo, ouvir sobre suas vozes e fazer o exercício de ouvir o que nossas crianças têm a nos dizer. Falar sobre preservação socioambiental é problematizar sobre o direito negado aos nossos bebês e às nossas crianças de irem para a escola em períodos chuvosos - isso impacta diretamente no direito de aprender.
Destacamos que nossos diálogos sobre escrevivências, COP 30 e preservação socioambiental estão inseridas em nossas escavações epistemológicas (Miranda, 2015), nos quais compreendemos que uma matriz afro-brasileira curriculante (Macedo, 2015), deve dialogar a partir de cosmopercepção ancestral em que memórias, saberes e aprendizagens devem ser compreendidos e aprendidos por meio da herança deixada pelos nossos ancestrais.
Por fim, reafirmamos o compromisso de continuarmos lutando pelo bem viver do nosso povo e pelo direito que nossos bebês e nossas crianças negras têm, o direito de viver em um mundo que garanta experiências de felicidade.