Omolu
Orixá relacionado às doenças contagiosas, especialmente a varíola, e às epidemias e pandemias, cujo nome iorubano significa, em português, “Filho do Senhor”.
Também cultuado como Obaluaiê (“Rei dono da Terra”), seus nomes apontam para uma origem bastante remota, anterior à da fundação do reino de Oió por Odudua, da mesma época de Ogum e localizada não em território dos atuais iorubás, mas ao norte, habitat do povo Tapá ou Nupê, segundo Pierre Verger[1]. Omolu (“Omulu”, na fala popular) é ainda mencionado como filho de Nanã ou Nanã Buruku, o que insere seu culto também no cenário do povo Fon, do antigo Daomé, berço dos povos conhecidos no Brasil como jejes. Outro nome desse orixá – usado no batuque gaúcho e que, porém, nunca deve ser pronunciado – é Xapanã, do iorubá Sòponna e relacionado ao fon Sakpatá, definido com as acepções de “varíola” e de “vodum da região de Dassa”, profundamente ligado à terra, à vida e à morte[2].
Um relato mítico liga Xapanã às pipocas presentes no culto brasileiro de Obaluaiê. Diz ele que, ainda criança, Xapanã era muito rebelde, irritadiço e desobediente; e, assim, certo dia, por simples pirraça, pisou nas flores brancas do jardim que sua mãe cultivava. Logo depois, seu corpo começou a se abrir em pústulas e ele, apavorado, começou a gritar pela mãe, implorando-lhe uma solução. Era a varíola, a peste horrenda, querendo ceifar mais uma vida. A mãe de Xapanã, sabendo do que se tratava, mostrou-lhe que aquilo era castigo por sua rebeldia, mas o curou, passando pipocas em seu corpo. É por isso que as pipocas são, até hoje, conhecidas no Brasil como as “flores de Xapanã”[3].
Nos cultos de matriz bantófones, a energia envolvida nos processos de cura recebe várias denominações: Kavungo, Nsumbo, Kingongo, Ntoto, Ndundun etc. Menos ligadas às doenças, essas energias estão voltadas para as transformações metaforizadas na pipoca ou “flor do velho”, como são carinhosamente chamadas, remetendo para a conotação da ancestralidade entre os bantos, que a associam ao solo, ao chão, à terra. Essas energias são a síntese de tudo o que está em processo. Não à toa, sua principal cerimônia nos candomblés de matrizes bantas é o tabuleiro de “flores do velho” ou Masangu dya Kavungo. A pipoca (masangu) é a metáfora da condição doença-cura. É no fogo das dificuldades que a transformação se completa.