Obrigações e tabus
Obrigação é o preceito originado por um compromisso com a divindade, expresso em um ato ritual ou em um conjunto deles, em consonância com a ética própria a cada religião de matriz africana. Oferendas ou outras cerimônias com que se propiciam as divindades, por exemplo, podem ser voluntárias e espontâneas, como as de agradecimento por graças alcançadas, ou obrigatórias.
No candomblé, o iniciado deve compulsoriamente realizar obrigações (rituais e oferendas votivas) de agradecimento e fortalecimento de seu axé no primeiro, no terceiro e no sétimo aniversários de sua iniciação ou “feitura”. Essa periodização depende das personalidades das divindades e do sistema religioso do grupo de candomblé. Os dias da semana especificamente consagrados a cada orixá são momentos apropriados para agraciá-lo com oferendas. Da mesma forma, a partir da aproximação sincrética do culto com o catolicismo, as datas consagradas às divindades católicas são também oportunidades para oferendas rituais.
Já os tabus, mencionados em iorubá como èèwò, “algo proibido”, abrasileirado para euó; e em quimbundo como kijila (que originou, em português, “quizila”, aversão etc.), são proibições rituais permanentes ou temporárias que vetam o acesso do iniciado ou da iniciada a comportamentos e práticas, como ingerir determinados alimentos ou bebidas, usar roupas de certas cores etc., tudo em conformidade com relatos míticos da tradição de seu orixá, inquice ou vodum.
Nos cultos de matriz banta, as kijiilas ou quizilas são compreendidas como uma forma de cuidado com a ligação estabelecida entre a muzenza e seu Nkisi patrono ou matrona. Para além de interditos alimentares, também abrangem certos comportamentos, lugares, situações, ou mesmo palavras e expressões que invoquem energias capazes de colocar essa ligação em risco – por exemplo, algumas cores de roupas, determinados lugares como encruzilhadas e cemitérios, compreendidos pelo candomblé Angola como nkisi nsi, locais de acúmulo de certos tipos de energia.