Jurema
Modalidade de culto religioso afro-ameríndio, originado da pajelança indígena com incorporação de elementos bantos, espíritas e do catolicismo popular, difundida principalmente no Nordeste e no Norte do Brasil. Já no século XVIII falava-se em “adjunto de jurema” em referência às reuniões dos índios em que a bebida sagrada da jurema era servida.
O culto, conduzido por um mestre, tem função principalmente terapêutica e está centrado na árvore que lhe dá o nome, ou seja, a jurema (Pithecolobium tortum, da família das leguminosas-mimosáceas). Planta sagrada, de sua casca faz-se o vinho da jurema, com propriedades psicoativas; de sua raiz faz-se o cachimbo, elemento fundamental do culto. De sua flor fazem-se o fumo e o defumador; e, com sua semente, inicia-se o filho e seguidor do culto.
O batismo ou “juremação”, cerimônia mais importante, exige uma cuidadosa preparação. Sobre uma toalha branca, estendida em algum lugar no meio da mata, ao redor de um pé de jurema, o iniciando, depois de um jejum de sete dias, recebe a semente no corpo. E isso deve ser feito sem nenhum corte ou incisão: apenas com o poder da mente ou com a força espiritual do mestre, a semente deverá penetrar em algum ponto do corpo do novo adepto. Se penetrar do lado esquerdo, o santo do novo fiel será uma entidade de esquerda, pesada; se do lado direito, será um mestre de direita, benfazejo.
Um mestre-juremeiro pode ser velho, moço ou até mesmo uma criança. Abaixo de 12 anos, será um “flor da jurema”; com mais de 12, será um “flor de mesa”; já idoso, gozará da condição de “cabeça de mesa”. Após sua morte, os mestre-juremeiro será cultuado como uma entidade.
O toré é a cerimônia da jurema dedicada especialmente aos índios e caboclos; e jurema pesada é aquela em que são invocados todos os mestres de uma vez, tanto os da direita quanto os da esquerda [1]. Referências à jurema e a outras entidades espirituais a ela associadas aparecem nas cantigas do candomblé de caboclo, no tambor de mina, no xangô, no batuque, no catimbó e outros. Ver CATIMBÓ
[1] ARAGÃO, Maria do Socorro Silva de, et alii. Linguagem religiosa afro-indigena na Grande João Pessoa. João Pessoa: Fundação Casa de José Américo, 1987, p. 53-55.