Francisco José do Nascimento

1839 - 1914

colonialismohistóriaDemocracia e Direitos Humanos

Francisco José do Nascimento (Aracati, Ceará, 1839 – Fortaleza, Ceará, 1914). Líder jangadeiro, prático-mor [1], abolicionista. Conhecido também como Dragão do Mar e Chico da Matilde, nasce em 15 de abril de 1839. Figura ativa e importante do Movimento Abolicionista Cearense, organização do pioneira na abolição da escravidão. Major ajudante de ordens do secretário geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará, é símbolo da resistência popular cearense contra a escravidão.

Filho do pescador Manoel do Nascimento e de dona Matilde Maria da Conceição, perde o pai aos 8 anos – as dificuldades financeiras levam a mãe a entregá-lo para outra família. Ele se torna menino de recado no veleiro Tubarão, que transporta mercadorias para o Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Aos 20 anos, época em que aprende a ler e a escrever, resolve se fixar em Fortaleza, casando com Joaquina Francisca. Passa a trabalhar na construção do porto de Fortaleza, onde assume a função de catraieiro (condutor de bote) e, posteriormente, de marinheiro até se tornar prático da Capitania dos Portos. 

Sua desenvoltura nas rodas intelectuais estabelece sua figura de líder do abolicionismo. O movimento abolicionista no Ceará, formado, principalmente, por uma elite intelectual, profissionais autônomos e empresários, organiza diversas ações em prol da abolição no estado, como a compra de alforrias, transbordo de escravos de Fortaleza para o interior e uma espécie de serviço de proteção aos escravos fugidos. Durante essas ações, abriga escravizados fugidos em sua casa.

O tráfico de escravizados é intenso no porto de Fortaleza e as jangadas são usadas para levá-los das embarcações para a costa. Chico da Matilde participa indiretamente da primeira paralisação dos jangadeiros, em janeiro de 1881, movimento que surge em diálogo com o movimento abolicionista cearense e tem por objetivo impedir que cativos sejam levados às embarcações. Já em agosto do mesmo ano, contribui diretamente para uma nova greve dos jangadeiros, impedindo a saída de cativos do porto de Fortaleza. Lidera, portanto, a última das quatro greves que os trabalhadores do porto realizam em 1881 [2]. Com a deflagração da greve, Chico é demitido. 

O apelido Dragão do Mar, dado por José do Patrocínio (1853-1905), surge pela sua atuação no bloqueio do porto, o qual leva à extinção gradual da escravidão em todos os municípios cearenses até a declaração da inexistência de escravos em seu território, em 25 de março de 1884. No mesmo ano, Chico da Matilde embarca com seus companheiros para o Rio de Janeiro, onde participa das comemorações pela abolição no Ceará – e, com ele, leva embarcada uma de suas jangadas, nomeada “Liberdade”. A recepção e as comemorações abolicionistas na corte ajudam a consolidar a alcunha de Dragão do Mar. No Rio de Janeiro conhece outros abolicionistas de renome, como José do Patrocínio e André Rebouças (1838-1898). 

As ações do Dragão do Mar são de tamanha importância que o desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910) registra o fato na capa da edição 376 (1884) da Revista Illustrada, com uma ilustração alegórica de Chico da Matilde, com a seguinte legenda: “À testa dos jangadeiros cearenses, Nascimento impede o tráfico dos escravos da província do Ceará vendidos para o sul”.

Em 3 de março de 1889, reassume o cargo de prático, por ordem do imperador Dom Pedro II, tornando-se, assim, major ajudante de ordens do secretário geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará.

Em 1902, viúvo, casa-se pela segunda vez, com Ernesta Brígida, sobrinha de João Brígido (1829-1921). Passa a frequentar as reuniões literárias e a participar de cavalhadas nos subúrbios de Fortaleza. Organiza lapinhas [3] e uma capela em devoção de Nossa Senhora dos Navegantes. Em 1904, aos 65 anos, o Dragão do Mar tem ativa participação na Revolta dos Catraieiros, movimento de pescadores e chefes de família em reação ao fato de terem sido sorteados para o serviço militar, tendo que seguir para o sul do país a bordo do navio Maranhão. O edital de convocação é publicado com apenas 72 horas de antecedência do embarque, surpreendendo todos os convocados, muitos deles com oito ou dez filhos, e alguns já avós.

Chico da Matilde recebe do governo do Ceará a homenagem que dá seu nome ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em abril de 1999. Além do centro cultural, é homenageado com a atribuição deste seu mesmo apelido a uma escola pública estadual, localizada no bairro do Mucuripe, em Fortaleza, e a uma escola de ensino médio fundada em 1955, com a missão de alfabetizar os filhos de pescadores da região. Em Aracati, é homenageado com o nome da rua que dá acesso à cidade pela BR-304 (sentido Icapuí) e ao aeroporto regional. Já em Canoa Quebrada, a praça central da praia é batizada em sua homenagem. Em 2013, a Petrobras, por meio de sua subsidiária Transpetro, lança ao mar um novo navio petroleiro construído em Pernambuco, em homenagem a Chico. Em 2017, é reconhecido como herói da pátria pela Lei nº 13.468, aprovada pelo Congresso Nacional. Dragão do Mar é incluído no chamado “Livro dos heróis e heroínas da pátria”, ao lado de outros notáveis, como Machado de Assis (1839-1908), Euclides da Cunha (1866-1909) e Luiz Gama (1830-1882).

Tema de investigação de historiadores, o túmulo de Dragão do Mar é localizado em 24 de julho de 2020, pelo historiador Licínio Nunes de Miranda, depois de mais de um século de sua morte.

A vida e as lutas de Dragão do Mar atravessam o século e ainda suscitam curiosidade nacional e internacional
 

Notas

[1] O prático orienta as manobras e chefia, juntamente com o comandante do navio, toda a equipe que controla a embarcação. Auxilia no trânsito e organização da chegada e partida de cargas e passageiros.

[2] As três primeiras paralisações são lideradas por José Luís Napoleão, um escravo liberto que compra a própria liberdade – e a de quatro irmãs – com suas economias. Um ano depois, Napoleão funda o Clube dos Libertos, organização fundamental para a luta abolicionista da época.

[3] A lapinha é um presépio que se arma na época natalícia. É tradicional no folclore brasileiro, principalmente no Nordeste


 

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