André Rebouças

1938 - 1989

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André Pinto Rebouças (Cachoeira, Bahia, 1838 – Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, 1898). Nasce em plena Guerra da Sabinada, o que marca o início de uma vida atravessada por importantes acontecimentos históricos. Um ano após o seu nascimento, sua mãe dá à luz seu irmão, Antônio Rebouças Filho (1839-1873). Em 1846, sua família se muda para o Rio de Janeiro, fugindo dos remanescentes da Sabinada, movimento ao qual seu pai se opunha. Sua educação coube, em grande parte, ao advogado Antônio Pereira Rebouças (1798-1880), que ensinou-lhe as primeiras letras, utilizando livros preparados por ele próprio. 

No Rio de Janeiro, André e seu irmão se formam engenheiros militares pela Escola Militar e, em 1861, partem para a Europa em uma viagem de estudos financiada pelo pai. André Rebouças atua também como engenheiro militar na Guerra do Paraguai, para onde parte em 1865 e de onde regressa no ano seguinte por motivos de saúde. De volta ao Brasil, dedica-se ao cargo de professor e às carreiras de engenheiro civil e empresário. Os irmãos Rebouças são dois dos nomes mais importantes no contexto de modernização do Brasil à época do Segundo Reinado. A morte precoce de Antônio, em 24 de maio de 1874, interrompe a sua promissora carreira.

Testemunhar os horrores da Guerra do Paraguai incentiva André Rebouças a lutar pela emancipação. Em 1868, ele declara que o abolicionismo passa a ser a sua profissão de fé e, por volta dos anos 1870, começa a trabalhar diariamente nessa frente. André Rebouças participa da fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (SBCE), do Centro Abolicionista da Escola Politécnica, criada juntamente com os alunos da Sociedade Central de Imigração e da Confederação Abolicionista.

Segundo Joaquim Nabuco (1849-1910), Rebouças foi o maior abolicionista da história do Brasil. Sabe-se, inclusive, que é de autoria dele a primeira versão que constitui, em 1888, a base do anteprojeto da Lei Áurea. Sua proposta de abolição é norteada por forte compromisso social. Ele prevê as implicações mais profundas da eliminação da mão de obra escravizada e sua substituição pela força de trabalho livre assalariada. Seus projetos de reforma são repletos de um ideário de reforma agrária, em que liberdade e propriedade de terra formam um elo indissociável e fundamental.

Para Rebouças, as chaves para o sucesso da integração do povo negro após a emancipação eram a educação e a propriedade de parcelas de terra, sendo a reforma agrária imprescindível para o futuro do país. Os seus principais argumentos sobre a questão agrícola estão sintetizados em seu conceito de democracia rural brasileira. O cerne de tal pensamento – o obstáculo representado pelo monopólio da terra à construção democrática – mostra, também, a sua atualidade, já que essa questão ainda desafia pensadores e militantes.

A trajetória de André Rebouças ilustra questões sobre as alternativas de mobilidade ascendente no Brasil do século XIX e sobre como as questões raciais estão atreladas a elas. Seu pai dedica sua vida a usar a educação como trampolim para ascensão social de sua família. André faz parte da elite intelectual do Segundo Reinado, período em que ocorre o episódio no qual ele concede uma dança à Princesa Isabel, como uma forma de expressar sua rejeição ao preconceito e demonstrar a sua aceitação pela Família Real.

Homem negro em um país escravocrata, nem mesmo sua instrução e rede de amigos o livram de sofrer o cotidiano do racismo. Em seu vastíssimo material autobiográfico, André Rebouças é, por muito tempo, bastante reticente em falar sobre a violência racista da qual é vítima. Ainda assim, ele relata alguns episódios de discriminação vividos por ele, seu irmão e seu pai. Para além do contexto brasileiro, a estada de Rebouças nos Estados Unidos, em 1873, é particularmente significante para a sua experiência com a questão racial, que se manifesta com o apartheid estadunidense. Em Nova Iorque, diversos hotéis, restaurantes e teatros recusam-se a atendê-lo. Ele revela esses episódios com um misto de desapontamento, tristeza e raiva e a frase “por causa de malditos preconceitos de cor” está presente diversas vezes em suas memórias. 

Apesar dos impasses da violência racista, Rebouças segue firme na campanha abolicionista, para a qual trabalha e estuda diariamente. A forma como acontecem a abolição e a proclamação da República o frustram profundamente, pois a abolição não é capaz de operar a reforma social abrangente que tanto defendia. 

Um dos dias mais importantes de sua biografia é 16 de novembro de 1889, o último de sua vida que ele passa no Brasil, devido à sua súbita decisão de deixar o país. A ida para o exílio ocorre em companhia do amigo, o imperador Dom Pedro II, quando de sua retirada para Portugal. Em carta a Nabuco, manda um recado: “diga ao Brasil inteiro: cuidem dos negros libertos, que acumularam, durante três séculos de trabalho a chicote, as riquezas que estão hoje esbanjando”.

Os seus últimos anos de vida e as cartas por ele escritas no exílio são marcados por profunda melancolia. Nesse período, passa por mudanças relativas à construção de sua identidade racial e deixa de ser reticente em falar sobre racismo. Em outubro de 1891, refere-se a si mesmo, pela primeira vez, como “o Negro André”, referência que se torna constante nas suas correspondências. Embalado pelo reconhecimento positivo de sua negritude e frustrado com os sonhos para o Brasil, André Rebouças decide morar em África, para onde se muda em 1892, mas se frustra novamente ao presenciar os horrores da escravidão no “continente mártir”. Embora manifeste a intenção de morrer em África, Rebouças decide partir para Funchal, na Ilha da Madeira. Na sua última carta escrita em Cape Town, na África do Sul, ele descreve sua partida como um “novo capítulo na Odisseia deste mísero Ulysses Africano”. 

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