Adjetivos não são suficientes para descrever a magnitude e o tamanho de Sueli Carneiro. Dizer que se trata de um exemplo, inspiração, farol e referência para mulheres e população negra - assim como para qualquer pessoa preocupada em construir uma sociedade pautada pela justiça e pela equidade - ainda está muito aquém da sua importância.
A filósofa, ativista feminina antirracista e cofundadora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, que completa 75 anos em 24 de junho, é um exemplo inquestionável e unânime quando se fala em enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero - mas, é claro, isso vai para além desses dois paradigmas de desigualdades.
Bianca Santana, autora da biografia Continuo Preta: A Vida de Sueli Carneiro, fez a seguinte descrição para auxiliar a compreender uma parte da magnitude da biografada e aniversariante, que é também conselheira da Plataforma Ancestralidades: “Sueli Carneiro enegreceu o feminismo no Brasil. E também fez das mulheres as protagonistas do movimento negro. Não sozinha, evidentemente. As estratégias coletivas de luta marcaram - e ainda marcam - sua reconhecida atuação política.”
As estratégias em questão, claro, passavam por demonstrar, por meio de dados, que a desigualdade racial e de gênero demandava políticas públicas específicas - e, consequentemente, que a democracia racial era tão somente um mito e falar de desigualdade de classes sociais em abstrato apenas reforçava o status quo. Além disso, mostrou que a luta feminista precisava andar em conjunto com a pauta antirracista para ser mais efetiva - inclusive quando se fala no feminismo negro na América do Norte. Acha exagero? Basta destacar que quem fala da importância de Sueli Carneiro é a também referência da luta feminista e antirracista Angela Davis.
E, quando se fala na importância de utopias para a construção de uma realidade mais plural e inclusiva, a própria aniversariante fala a respeito desse ponto em um dos artigos que compõem o livro Escritos de Uma Vida e reproduzido no posfácio de Dispositivos de Racialidade: A Construção do outro como não ser como fundamento do ser, baseado em sua tese de doutorado:
A utopia que perseguimos hoje consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro, sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Realizar a igualdade de direitos e tornar-se um ser humano pleno e prenhe de possibilidades e oportunidades para além da condição de raça e gênero é o sentido final dessa luta.
Sobre liberdade e democracia
“Eu pertenço à geração 1968, que foi uma geração muito libertária, de contracultura e contra valores instituídos.” Esta afirmação, que faz parte do teaser da Ocupação Sueli Carneiro, projeto que o Itaú Cultural desenvolveu em 2021, mostra um dos traços mais marcantes da filósofa: o inconformismo contra o status quo e a construção de caminhos inclusivos.
Um exemplo, que está disponível em um dos vídeos que compõem a mesma Ocupação, foi o processo em que a filósofa ingressou no candomblé. “O candomblé surge na minha vida na seguinte circunstância: estou na Faculdade de Filosofia [FFLCH-USP], estudando todos aqueles homens brancos, que fizeram a grande civilização ocidental, em uma faculdade em que eu era a única pessoa negra na minha turma e na faculdade naquele momento.”
A inquietação e o receio de perder a sua própria identidade a motivaram a buscar por referências negras para se sustentar. “Tive a sensação de que ou eu encontrava referências negras para eu me sustentar, ou eu estava fadada a mergulhar em um caminho sem volta de embranquecimento e de assimilação. Realmente, comecei a entrar em crise de identidade. Foi aí que o candomblé entrou na minha vida”, descreveu à época.
Essa mesma premissa a colocou em um caminho de constantes e perenes - e igualmente justas - lutas em contextos diversos, passando pela Constituinte, a denúncia do epistemicídio e do extermínio da juventude negra, e pela mobilização durante a Conferência de Durban, realizado em 2001, na África do Sul.
O trecho a seguir, escrito por Bianca Santana e extraído da biografia Continuo Preta: A Vida de Sueli Carneiro, é didático sobre a sua importância e mobilização intermináveis em favor da equidade racial:
“Botou a luta antirracista como prioridade na defesa dos direitos humanos, e por isso foi premiada nacional e internacionalmente. Contribuiu com a criação de mecanismos internacionais para que os estados adotassem medidas para eliminar violências raciais e de gênero, além de desigualdades no acesso à educação, saúde, trabalho, moradia, cultura, tecnologia, comunicação. Denunciou o neoliberalismo. Participou do projeto e da implementação de políticas públicas de enfrentamento ao racismo e ao sexismo: delegacias especializadas, apoio jurídico gratuito a vítimas, projetos pilotos de ação afirmativa, cotas raciais nas universidades públicas.”
Por fim, a sede por liberdade e igualdade que esteve presente na sua própria vida e nas de mulheres contemporâneas a ela, em meio à ditadura civil-militar (1964-1985) e à segunda onda do feminismo, norteou o modo de ser e estar no mundo - assim como a mobilização desse grupo. Para finalizar este texto, recorremos a outro trecho extraído do posfácio de Dispositivos de Racialidade: A Construção do outro como não ser como fundamento do ser e presente também na coletânea Escritos de uma Vida, cuja mensagem principal é autoexplicativa:
“Além de entender que liberdade e igualdade são valores intrínsecos e inegociáveis, para a pessoa humana, descobrimos também que para conquistá-las e mantê-las é preciso muita disposição de luta e uma vigilância permanente para defendê-las, porque liberdade e igualdade são bens que estão sempre sendo colocados em perigo por ideologias autoritárias, fascismos, neofascismos, por diferentes variações do machismo, pelo racismo e as discriminações étnicas e raciais, pelos fundamentalismos religiosos, pelos neoliberalismos, pelas globalizações.”