Como chegamos ao estado vigente da crise climática pela qual passamos? De qual modo o nosso ritmo cotidiano e processos produtivos refletem processos e escolhas que, sem rodeios, colocaram o meio ambiente em risco iminente e à beira do não-retorno? E quais ensinamentos os saberes ancestrais nos transmitem para construirmos novos horizontes e modelos de sociedade?
Questionamentos com esse teor deram o tom dos Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis, que compuseram a programação do evento Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis. Com realização da Plataforma Ancestralidades, iniciativa cogerida por Itaú Cultural e Fundação Tide Setubal na promoção de saberes ancestrais afro-brasileiros, o evento colocou em pauta reflexões e trocas sobre as intersecções entre questões raciais, mudanças climáticas e novos - e inclusivos - horizontes para o futuro.
Ao mostrar que o debate sobre mudanças climáticas e a promoção da equidade racial, de gêneros e territorial são interdependentes e indissociáveis, o evento teve mediação de Ana Sanches, pesquisadora e ativista no movimento negro-ambiental, doutoranda em Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP) e consultora no departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador no Ministério da Saúde nas pautas de equidade.
Durante a introdução ao debate, Ana Sanches destacou a necessidade de conhecermos as nossas histórias e o nosso passado para ser possível imaginarmos futuros. “Há uma série de questões que atravessam a nossa trajetória de modo que não olhamos para o que é necessário. Com isso, a crise climática é consequência da degradação ambiental, de mundos, da nossa humanidade, da nossa vida e da nossa história. Sem folha não tem orixá, mas sem floresta e água não há vida e não temos nada. Considero, então, que o tema ambiental e climático se encontram para nos conectarmos e, de alguma forma, avançarmos.”
O painel
Além da mediação de Ana Sanches, a realização dos Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis teve também as presenças das seguintes lideranças:
- Bayo Akomolafe, psicólogo clínico e escritor iorubá, fundador da The Emergence Network e curador do programa internacional We Will Dance with Mountains, autor dos livros ‘These Wilds Beyond Our Fences’ e ‘We Will Tell Our Own Story’ e colaborador do Projeto Regenerar;
- Kaká Werá, escritor, educador e conferencista indígena, descendente do povo Tapuia e acolhido pela comunidade Guarani. Autor de 20 livros, como ‘A Terra dos Mil Povos’ e ‘Menino-Trovão’, e vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantojuvenil com ‘Apytama, Florestas de Histórias’;
- Maryellen Crisóstomo, jornalista, ativista de Direitos Humanos, ambientalista, coordenadora da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e integrante do Coletivo de Mulheres Quilombolas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
“Quando a ancestralidade é corrompida, isso enfraquece a todos nós”
Durante a sua participação no evento, Kaká Werá trouxe à tona a reflexão sobre como a lógica segundo a qual todos os elementos existentes no meio ambiente podem ser explorados e transformados em mercadoria, dentro de abordagem que induz a considerar que se trata de recursos infinitos. Contudo, essa perspectiva está, no fim das contas, conduzindo ao “ponto de não retorno de uma autodestruição de nós mesmos.”
“Diante disso, não somente na natureza, mas também no nosso modo de vida, o modo como vivemos hoje é doentio, insalubre e psicótico. Uma porcentagem grande de cidadãos e cidadãs não apenas do Brasil, mas no mundo, vivem sob a ansiedade, relações de submissão, guerras e doenças que não são perceptíveis, mas atuam no nosso dia a dia, como o burnout”, pondera o escritor, educador e conferencista indígena.
Nesse sentido, ao trazer à tona a ancestralidade que fundamenta a relação de povos originários com o meio ambiente, Werá destaca o fato de que quando ela é corrompida por cosmovisões baseadas na relação predatória com recursos naturais, isso enfraquece a todas e todos nós. “Isso não ocorre apenas na dimensão da saúde mental ou física, mas na dimensão da saúde da alma. Uma floresta destruída equivale a milhões de almas destruídas: não apenas almas indígenas, pois essa ancestralidade não mede seus filhos pelo tom da pele ou pela língua externa. Ela se conecta pelos corações que nos animam, que nos sustentam.”
“É o momento em que precisamos sair de onde estamos sentados e sermos seres diferentes. Estamos em um momento no qual não podemos nos dar ao luxo de manter os formatos existentes. Esse modelo está em crise e justiça climática não é a solução. Precisamos ir além das soluções, pois elas podem permanecer na lógica do problema.” (Bayo Akomolafe)
Sobre transição que contemple a dignidade do território
Durante a realização dos Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis, Maryellen Crisóstomo destacou que, para além de pautas como adaptação e mitigação quando se fala em preservar o meio ambiente e o clima, é necessário enfatizar a preservação ambiental. Isso passa, vale dizer, pela regularização fundiária de regiões habitadas e preservadas por povos originários, como os casos das populações indígenas e quilombolas.
Ao mesmo tempo, enquanto a regularização de territórios quilombolas ocorrem lentamente, assim como a demarcação de povos indígenas, o desenvolvimento econômico pela expansão agrícola em áreas rurais - e em biomas como o Cerrado e a Caatinga, assim como a Floresta Amazônica - coloca em risco corpos e territórios originários. E essa lógica contempla também a expansão de demais atividades, como a extração de minérios.
“Acontece que o nosso modo de vida não soma ao PIB, logo, nós não produzimos. Mas como [isso é possível], se estamos naquela localidade secularmente? Isso também não é produção, economia e desenvolvimento do país?”, reflete Maryellen, ao destacar que atividades econômicas consideradas lucrativas - e apoiadas também pelo Estado - causam danos ambientais. “Como é possível [haver] um ecossistema na superfície com lençol freático prejudicado? Isso porque a água também é importante para que todos os ciclos aconteçam. Então, vão nos matando aos poucos, pois já não conseguimos produzir e os ciclos da natureza são outros.”
Essa dimensão leva, segundo Maryellen Crisóstomo, a outra perspectiva: não haverá futuro possível para as populações quilombolas caso não haja ações de transição e adaptação climáticas que contemplem a dignidade de tais territórios. “Esse futuro não é sobre nós. Da forma como estão desenhadas, a adaptação e a mitigação não são para - e sobre - nós. É necessário que, quando esse futuro chegar, o território esteja lá. Precisamos que o território esteja quando eu voltar e quando a criança nascer, para ela crescer e para quando envelhecermos.
É necessário ir além das soluções
Na sua participação nos Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis, Bayo Akomolafe destaca, a partir da cosmovisão iorubá, o papel estratégico que a ancestralidade tem quando se fala em combate às mudanças climáticas.
Nesse sentido, ao contemplar diferenças fundamentais sobre o que se entende por ser e estar no mundo relacionadas às abordagens eurocêntricas e, neste caso, iorubá, o que está em jogo vai além da mitigação ou da adaptação climática. Ou seja: para Bayo Akomolafe, é necessário - e urgente - mudarmos estruturas e modus operandi. “Precisamos ser totalmente diferentes. Não [temos de] somente mudar as periferias, mas sim perder o que somos”, pondera, ao destacar que o mundo pede para o nosso comportamento, em âmbito humanitário, seja diferente.
“É o momento em que precisamos sair de onde estamos sentados e sermos seres diferentes. Estamos em um momento no qual não podemos nos dar ao luxo de manter os formatos existentes. Esse modelo está em crise e justiça climática não é a solução. Precisamos ir além das soluções, pois elas podem permanecer na lógica do problema”, finaliza o filósofo.
Saiba mais
Assista à íntegra dos diálogos que compuseram os Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis. Leia também o relato sobre o debate resultante da exibição do diálogo ‘Regenerar: Caminhos Possíveis em um Planeta Machucado’.