Ancestralidade. Este é o termo que deu o tom do primeiro eixo do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros, primeiro edital da Plataforma Ancestralidades voltado ao apoio à produção acadêmica de pesquisadoras/es negras/os sobre os múltiplos saberes afro-brasileiros.
Por meio da nomenclatura Tecnologias ancestrais afro-brasileiras aplicadas à contemporaneidade, o eixo em questão teve a ancestralidade como destaque incontestável como consequência do recorte do programa e do tema que norteou as inscrições dos trabalhos vinculados a ele - houve, no total, 171 inscrições entre as 301 aplicações totais ao edital.
Além da ancestralidade, outros termos de destaque dizem respeito a Decolonial, apresentado em especial dentro da intersecção entre história e arte, por meio de projetos cujos objetivos foram análises sobre manifestações que valorizam as referências africanas no fazer artístico brasileiro.
Ainda, outros elementos de destaque foram a Lei 10.639, que completará 20 anos em 2023, esteve presente apenas neste eixo, em grande medida pela centralidade da temática História e Cultura Afro-Brasileira na implementação da lei nos espaços escolares; e o Candomblé, por meio da relação entre a religiosidade e a centralidade da reverência em vida às lideranças de terreiros.
Confira a seguir mais detalhes sobre os seis projetos relativos a este eixo, que totalizam metade da escolha final dentro do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros.
Karla dos Santos Guterres Alves, autora de Clubes Sociais Negros como Tecnologias Quilombolas: o caso da Associação Satélite Prontidão (BA) - pesquisa em andamento
O projeto, que consiste em pesquisa qualitativa e interdisciplinar, pretende desenvolver no interior da Associação Satélite Prontidão (ASP) uma proposta conceitual crítico-tecnológica aplicada à memória negra como parte dos trabalhos do Memorial da ASP.
O desenvolvimento da pesquisa foi subdividida em cinco fases: fase exploratória; coleta de dados; seleção, organização, inferência e análise de dados; apresentação dos resultados para a comunidade e elaboração de um plano de ação para produção tecnológica de memória e educação patrimonial; e aplicação do plano de ação para produção tecnológica de memória e educação patrimonial na ASP.
Um dos resultados parciais da pesquisa, que está em andamento, consiste no desenvolvimento da primeira fase das Oficinas de História e Memória Negra - 120 anos ASP, que comunga as cinco fases da pesquisa-ação.
Ilzver de Matos Oliveira, autor de Cooperativismo, povos de terreiro e desenvolvimento sustentável em Sergipe (SE) - pesquisa concluída
A pesquisa, que é norteada por meio do conceito de etnodesenvolvimento, tem como objetivo estudar as experiências e as potencialidades dos povos de terreiro para desenvolverem cooperativismo etnodesenvolvimentista em Sergipe.
Os resultados identificados por meio do estudo apontam que o etnodesenvolvimento, seja por meio de associações, redes ou cooperativas, políticas públicas ou estratégias autônomas, não é apenas uma possibilidade, mas acontece de diferentes formas e níveis nas comunidades de terreiro do Brasil, demonstrando ser possível unir a ideia de valorização em âmbitos identitário, cultural e, principalmente, da memória - ou seja, da tradição, alinhada à noção de desenvolvimento que, além de impulsionar todas estas características, pode contribuir com a experiência econômica e empoderamento dos povos e comunidades tradicionais.
Giovana Xavier da Conceição Côrtes, autora de História Intelectual de Mulheres Negras: um novo território existencial (RJ) - pesquisa em andamento
O projeto tem como objetivo visibilizar formas de ser, pensar e sentir de mulheres negras por meio de linguagem científica e práticas pedagógicas inseridas no que a autora conceitua como História intelectual de mulheres negras, teoria que parte do reconhecimento do corpo, das experiências, histórias pessoais e memórias familiares de mulheres negras - cis e transgêneras -, como tecnologias ancestrais afro-brasileiras essenciais à conquista de igualdade, justiça e paz no Brasil contemporâneo.
Inspirada por bell hooks, ao assinalar a importância de acadêmicas levar “narrativas de sua existência para sala de aula”, a pesquisadora une aspectos de trabalho de formação de uma comunidade científica feminista negra, na qual atua como professora da UFRJ desde 2011, à sua história de mulher negra.
Em diálogo com o seu trabalho de historiadora, marcado pela valorização da intelectualidade de mulheres negras, a imersão na dança como bailarina em sua história possibilita refletir sobre conexões corpo-mente-espírito na produção de subjetividades e conhecimentos.
Jackeline Maria da Silva, autora de Afro Paladar: a culinária quilombola de Mato Grosso como patrimônio imaterial (MT) - pesquisa concluída
O trabalho tem como objetivo refletir sobre as contribuições da cultura afro-brasileira relacionadas à culinária, as referências invisibilizadas pela sociedade que constituem o patrimônio imaterial brasileiro. A ação cultural está presente na culinária quilombola transformada nos pratos típicos que compõem a culinária de Mato Grosso.
As bases da pesquisa consistem na metodologia interdisciplinar entre cultura, educação e patrimônio, somadas aos métodos de pesquisa-ação e técnicas da antropologia social. A pesquisa visa mostrar a relevância da alimentação e da culinária quilombola como dimensões importantes para a identidade e para a diversidade cultural, compreendidas como patrimônio cultural imaterial dos afrodescendentes.
Fernanda de França Gatto, autora de A tradição entre nós: musicalidade e resistência afrobrasileira (SP) - pesquisa em andamento
Existe um processo de resistência da cultura africana, trazida para o Brasil em decorrência da escravização, que em contraste com a estrutura capitalista, patriarcal e supremacista branca, hegemônica no país desde a colonização, proporcionou a sobrevivência e a transformação de símbolos e tradições conhecidas como cultura afro-brasileira.
A cultura afo-brasileira, por sua vez, perpetua-se por meio da herdada tecnologia de resistência, que aproxima os sujeitos de sua ancestralidade e os conecta via núcleos, a exemplo das Comunidades Tradicionais de Terreiro. Dessa forma, foi construída uma rede contra hegemônica de sobrevivência e resistência, um exoesqueleto ancestral, que se estrutura por intermédio da tecnologia da oralidade e de suas mídias, como as cantigas cantadas nos Terreiros.
Pretende-se contribuir para o combate ao racismo religioso e corroborar para a aplicação da Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, destacando os objetivos nº 10, relativo à redução das desigualdades, e nº 16, que abrange paz, justiça e instituições eficazes.
Eunice Pita de Oliveira, autora de Alumiar - Caminhos possíveis no acendimento a partir das ancestralidades História e saberes da Casa de Farinha e Comunidade do Terreirão - Muniz Ferreira, BA (BA) - pesquisa concluída
O foco do trabalho consiste em abraçar o reconhecimento, afeto e ancestralidade enquanto ferramentas possíveis no tecer relações entre a arquitetura e comunidades negras, afro-indígenas e indígenas, tendo a oralidade enquanto tecnologia cerne desse processo.
Ao tomar como base narrativas que atravessam a comunidade e seu território, a tradução dos relatos, as pistas político-geográficas e o paralelo das vivências pessoais, é traçado um referencial comum, o qual contrapõe os apagamentos e abre margem para identificações e resgates histórico-vivenciais-ancestrais até então pouco presentes na academia e mercado convencional de arquitetura.
O primeiro objetivo da pesquisa tem caráter interdisciplinar, com as possibilidades de interação, reconhecimento e troca com as comunidades apresentadas, possibilitando que seus agentes, elementos e cosmopercepções atuem enquanto sujeitos no processo de construção e resgate de conhecimentos.
Já o segundo objetivo manifesta-se por meio do acendimento e da reconstrução da história local, no registro de saberes e tecnologias ancestrais, com base na oralidade, colocada em evidência a partir do trabalho de seus interlocutores, ancestrais e artífices do povoado do Terreirão - Muniz Ferreira (BA).