Oralidade como fio condutor e estruturante da cosmovisão de um povo. Esse aspecto tem papel central no trabalho do pesquisador Samuel de Souza. Por meio da pesquisa ‘Histórias de Ojepotá: traduções de memória viva Mbya Guarani em desenhos’, selecionada na edição 2024 do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa, Samuel retrata a cosmologia do povo Mbya Guarani.
Com base em sua dissertação de mestrado, ‘Traduções de memória viva Mbya Guarani em Desenhos’, o pesquisador apresentou os ensinamentos transmitidos, em caráter geracional, pelos xeramõi e xejaryi (respectivamente (homens e mulheres mais velhas, que representam os pilares da sabedoria e memória viva dos Mbya Guarani).
Por meio de ilustrações feitas pelo próprio pesquisador, ele pôde representar em seu estudo as histórias transmitidas pelos xeramõi e xejaryi com quem ele conversou para desenvolvê-lo. O objeto de estudo - e das histórias e dos desenhos - foi o ojepotá, que consiste na transformação de pessoas em outros seres antropomorfizados ou não.
“Esse é um dos temas de nossos conhecimentos que foram, por muitos anos, guardados somente para nós mesmos”, explica Samuel. Ao destacar que essas histórias ficaram restritas por muito tempo à população guarani, por tratar-se da espiritualidade dessa etnia, ele reforça o aspecto geracional quando se fala em oralidade e cosmologia. “Isso não podia ser falado por qualquer um. Somente os mais velhos podiam entrar no assunto com o dever de repassar os conhecimentos no modo de vida guarani.”
A importância do ojepotá dialoga com a formação de imaginário e visão de mundo dos Mbya Guarani. Para o pesquisador, as narrativas e histórias do ojepotá auxiliam a construção do entendimento dentro da vida de cada pessoa. E, desse modo, reforçam a cosmovisão que dialoga com o olhar diferenciado de indivíduos para o meio ambiente e os seus princípios.
“As narrativas ajudam a enfatizar a realidade de cada local ou território”, enfatiza Samuel. “Um exemplo disso é a puberdade: quando uma criança vira adulta, há regras que meninas e meninos têm de seguir. Quando passam por esse ciclo em que recebem os cuidados que devem ter com o corpo e o meio ambiente onde vivem, as histórias servem de incentivo e respeito pelo próximo e pelo planeta.”
Sobre oralidade e resgate
O respeito à oralidade apresentou, inclusive, uma particularidade para a produção da dissertação - e do trabalho ‘Histórias de Ojepotá: traduções de memória viva Mbya Guarani em desenhos’. Para se ter uma ideia, os xeramõi não gostam de ser gravados ou filmados - e a maioria não autoriza a realização dessas etapas. Nesse sentido, segundo a própria pesquisa de Samuel, eles costumam contar histórias olhando para o fogo ou para o petyngua, cachimbo sagrado para os povos guaranis, enquanto os seguram.
Desse modo, a solução encontrada pelo pesquisador foi montar as narrativas e histórias após as entrevistas com base no que ouviu. “Os retornos para os xeramõi são, hoje, as escritas e desenhos. Muitos [deles] estão morrendo e levando consigo muitos conhecimentos sagrados que não são repassados ou até esquecidos”, relata Samuel.
No entanto, vale destacar que mudanças nesse cenário começam a vir à tona. “Hoje, a maioria dos xeramõi já se deixa ser gravada ou fotografada por esse motivo. Ou seja, que não houvesse perda desses enriquecidos conhecimentos que vêm de muitas - e muitas - gerações passadas.”
“Por isso, ao colocar essas poucas histórias no papel, [quero] deixar nas novas gerações o interesse em procurar saber da cultura e dos conhecimentos ancestrais. Eles têm encanto diferente quando se ouve oralmente dentro das casas de reza ou em uma roda de conversa com seus avós, pessoas mais velhas e os líderes espirituais de cada comunidade indígena. Até os não-indígenas têm seus conhecimentos e histórias, que são preciosos para cada povo.”
Na ponta do lápis
Outro aspecto emblemático do trabalho ‘Histórias de Ojepotá: traduções de memória viva Mbya Guarani em desenhos’ e da dissertação que o baseou diz respeito à reprodução em desenho das histórias de ojepotá.
Um dos motivos para a adoção desse tipo de abordagem abrange a tentativa de chamar a atenção das novas gerações sobre as mensagens e a cosmologia dos Mbya Guarani. E, dessa maneira, resgatá-las e mantê-las vivas.
Para tanto, Samuel recorreu à própria imaginação para colocar no papel as representações dessas mesmas histórias. “Os desenhos foram criados na imaginação de como considero que seria. Mesmo por que, quando se ouvem essas narrativas na casa de reza ou na roda de conversas com os xeramõi, nós nos sentimos dentro das histórias e nos imaginamos nelas.”
Por fim, o pesquisador planeja dar continuidade à sua pesquisa no doutorado e, então, levar essas mesmas histórias - em formato de desenhos - para escolas e comunidades indígenas. Isso porque ele considera que o encanto das histórias do ojepotá se perde por meio da escrita. E é o resgate desse encanto e do interesse pela cosmologia Mbya Guarani que norteia o trabalho de Samuel de Souza.
“Por isso, ao colocar essas poucas histórias no papel, [quero] deixar nas novas gerações o interesse em procurar saber da cultura e dos conhecimentos ancestrais. Eles têm encanto diferente quando se ouve oralmente dentro das casas de reza ou em uma roda de conversa com seus avós, pessoas mais velhas e os líderes espirituais de cada comunidade indígena. Até os não-indígenas têm seus conhecimentos e histórias, que são preciosos para cada povo.”