“É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e cada um, o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.”
Esta fala da historiadora, professora e ativista Beatriz Nascimento, extraída do documentário Ôrí (1989), é um bom ponto de partida para compreender a sua importância não apenas para o movimento negro, mas a sociedade brasileira.
Nascida em Aracaju (SE), em 1942, Maria Beatriz Nascimento migrou para o RJ com a família em 1949 e fez a sua trajetória escolar na rede pública de ensino. Ainda na infância, Beatriz Nascimento deparou-se com as inconsistências do mito da democracia racial e foi veementemente impactada pelo racismo no ambiente escolar, como ela descreve no texto Meu Negro Interno, que compõe a obra O Negro Visto por Ele Mesmo (Ubu Editora), organizada pelo doutor em Antropologia Social Alex Ratts, pesquisador na área dos estudos étnico-raciais e de gênero:
“Na escola ainda acreditava que um dia não seria mais zombada, que aquele medo ia passar, que os olhares hostis, as piadinhas, as demonstrações de desprezo ou indiferença e descrença, como se eu não existisse ali como as outras pessoas, fossem somente por causa de minha condição de menina pobre no subúrbio. Já nessa época me perguntava por que aquela preocupação de igualar-se aos brancos. Por que de vez em quando um professor vinha e falava da aceitação do negro pelo branco, e se dava ares de profeta? O que havia de errado e destoante por ser de outra cor?”
Após esse período, Beatriz Nascimento ingressou, em 1967, no curso de História, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a concluiu em 1971 e cursou, entre 1979 e 1981, especialização em História do Brasil, pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Após esse período, a intelectual foi nomeada professora de História da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, em 1984, e iniciou o mestrado em Comunicação em 1994, sob a orientação do professor Muniz Sodré, na UFRJ. Contudo, sua trajetória foi interrompida há 30 anos, em 28 de janeiro de 1995, quando foi vítima de feminicídio após auxiliar uma amiga que estava à época em uma relação abusiva. O autor, ex-companheiro da amiga, foi preso dias depois.
Centralidade da imagem
A interrupção da vida e obra de Beatriz Nascimento induz a questionamentos sobre os passos seguintes de sua trajetória acadêmica e ativista, assim como quais análises ela faria sobre o contexto sociopolítico e racial vigente. No entanto, a sua militância e o escopo de estudo apontam caminhos para a atuação do movimento negro no presente e no futuro.
Um ponto emblemático nesse contexto é a sua preocupação quanto ao envolvimento da população negra no ambiente acadêmico, o que se torna ainda mais evidente ao considerar-se que ela foi uma das fundadoras do Grupo de Estudo André Rebouças (GTAR), na UFF, com foco em estimular a entrada de pessoas pretas e pardas na academia e que elas se apropriassem dos saberes lá produzidos.
“O epicentro dos estudos de Beatriz Nascimento foi o quilombo, mas, por outro lado, a sua preocupação era combater as ‘fantasias’ criadas em torno da história do negro na ‘terra brasilis’, evidenciando fatos que iam de encontro aos mitos criados ao longo de nossa história”, explica Wagner Vinhas, professor de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Além de sua tese de doutorado ter sido sobre a trajetória de Beatriz Nascimento, Vinhas é também autor das obras Inventário Analítico da Coleção Maria Beatriz Nascimento e Ôri: por uma compreensão superior entre os povos e as culturas.
Pode-se considerar também, desse modo, que o caráter atemporal de seus estudos sobre quilombo ressoa por meio da ideia voltada ao protagonismo negro. Isso se dá por meio de práticas que reverberam hoje por meio de símbolos, práticas e saberes que representam a resistência negra ao longo da história.
Essa mesma lógica dialoga com o trabalho para mostrar a importância de se combater a visão mitificada de personagens da historiografia negra e dar ênfase às histórias de tais personagens, ao mostrar suas coerências e contradições. Nesse sentido, um exemplo emblemático foi o ensaio A senzala vista da casa-grande, que a historiadora escreveu em 1976, na qual fez críticas veementes ao filme Xica da Silva e ao diretor Cacá Diegues. O caráter enfático e histórica e midiaticamente consistente de seus argumentos foi um dos vetores para ela ter participado, em 1984, como consultora da obra Quilombo, também de Diegues.
“Beatriz Nascimento contribuiu para a construção de uma cosmovisão que extrapolava a experiência africana no Brasil e a relacionava com as práticas existentes no continente africano e reproduzidas nas Américas, como ocorreu com a formação de comunidades negras ao longo de todo o nosso território e da nossa história. Ela resistia à ideia de submeter a população negra à visão comumente difundida sobre a participação da população afro-brasileira na formação social brasileira, dando voz e lugar a novos enunciados sobre a história do negro no Brasil”, pondera.
“É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e cada um, o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.” (Beatriz Nascimento)
Aquilombamento e pertencimento
A perspectiva do aquilombamento é recorrente na produção intelectual de diversos nomes emblemáticos da produção acadêmica afro-brasileira. Clóvis Moura, por exemplo, considerava esse conceito como a única alternativa para organizar a população escravizada fora do sistema colonial. Abdias do Nascimento, por sua vez, considerava que o conceito de quilombismo reverbera contemporaneamente por meio de associações, grêmios e terreiros, por exemplo. Já nos dias atuais, esse modelo representa uma forma de organização da população negra por intermédio das comunidades negras: quilombos, escolas de samba, associações negras, bailes negros, entre outros formatos.
Já Beatriz Nascimento considerava o aquilombamento para além dessa abordagem, ao enxergar esse modelo de estruturação social, “em terras brasileiras, a primeira tentativa de organização da nação, tendo o quilombo como local de interação entre as diferentes matrizes da formação social brasileira: ameríndia, europeia e africana. Diferente do que muitos acreditam, os quilombos não eram organizações exclusivamente de negros, mas de todos aqueles que estavam à margem da sociedade colonial”, destaca Vinhas.
Ao considerar-se a lógica do aquilombamento na obra de Beatriz Nascimento, é possível ver reflexos em demais pautas socialmente estruturantes. Um exemplo é a interseccionalidade no debate racial e de gêneros. “Podemos dizer que ela, junto com outros representantes da intelectualidade negra, é uma das precursoras da abordagem interseccional, à medida em que já relacionava o tema da raça com a questão de classe e gênero. Mais efetivamente, Lélia Gonzalez, citada por Angela Davis como uma das percussoras da interseccionalidade, foi a intelectual brasileira com mais tempo e esforço para elucidar tais questões”, reforça o professor de Sociologia do IFBA.
Ôrí e protagonismo
Uma passagem emblemática da trajetória de Beatriz Nascimento é o documentário Ôrí. Com direção e roteiro da cineasta e socióloga Raquel Gerber, a obra mostra a articulação dos movimentos negros no Brasil entre os anos 1970 e 1980 e tem como fio condutor a trajetória da intelectual em âmbitos pessoal e profissional. Aqui vale uma observação: a historiadora não aparece tão somente como personagem, mas sim como protagonista intelectual.
“O encontro entre Beatriz Nascimento e Raquel Gerber deve ser visto como um importante momento na vida das duas intelectuais: o documentário projeta Nascimento para outras esferas e consagra Gerber como importante documentarista”, comenta Wagner Vinhas, ao considerar que está em evidência na obra a memória da pessoa negra e a procura de sua autoimagem na modernidade. “No documentário Ôrí, ela deixa transparecer sua sensibilidade poética e o seu vigor intelectual. Ali aparecem ideias e concepções sobre as culturas negras e o corpo negro.”
Nesse sentido, um ponto emblemático presente na narrativa de Orí e que permeou a trajetória da historiadora é a busca da intelectualidade negra por protagonismo social e acadêmico. Logo, ao considerar-se que a intelectualidade negra é responsável por elaborar enunciados que desafiam o que se entende sobre a formação social do Brasil, dois pontos vêm à tona e resumem o significado da história da população negra para Nascimento: o protagonismo negro e a continuidade histórica.
Diante desse quadro, Beatriz Nascimento foi, junto a demais referências da intelectualidade negra durante sua época, pioneira em estudos que reverberam hoje, inclusive quando se fala em estudos das relações étnico-raciais. Ou seja: a militância no movimento negro acadêmico é um legado incontestável deixado por Nascimento, por ajudar a levar jovens negras e negros à vida acadêmica e por transformar tais ambientes em lugares para disputa de narrativas sobre a população negra e a sua história no Brasil. E, com isso, desafia-se também o modus operandi da política do esquecimento, ao manter a sua obra e ideais, assim como o de demais cânones da intelectualidade negra, vivos para as gerações atuais e futuras.
“Comemoramos o resgate da sua obra para refletir temáticas sensíveis à população nacional, como, por exemplo, o que eu chamaria de processo civilizacional brasileiro e que aponta para a capacidade da nossa sociedade de incluir ou excluir as minorias da modernidade brasileira. Isso me parece crucial para o país e precisa ser visto com atenção pelos intelectuais que buscam elaborar propostas que abarquem questões como justiça e equidade social”, completa Wagner Vinhas.
Por fim, a própria Beatriz Nascimento destacou no texto A Palavra e Eu, também disponível na obra O Negro Visto por Ele Mesmo, um trecho que mostra a essência de sua cosmovisão para a população negra e para o Brasil - e que é um chamado para a luta por uma sociedade pautada por equidade, diversidade e inclusão:
“Não há mais espaço no planeta para os reacionarismos, embora ainda estejam aí estertores fascistas - puro gorgulho. (...) O quê e o porquê, as soluções, enfim, são da ordem das resistências e das constatações (plano secundário), e não dos avanços, do ‘novo’. Os quereres, o desejo, estão no como e onde agir. Nos agenciamentos de conduta. (Aí está o espaço/tempo contido na palavra)."