Como a mobilização virtual de mulheres negras amazônidas se reflete no mundo real? Esta pergunta vem à tona ao levar-se em consideração a análise que a jornalista Flávia Andrea Sepeda Ribeiro fez sobre a Marcha Virtual das Mulheres Negras Amazônidas, que foi realizada em julho de 2020, em meio à pandemia de Covid-19.
O estudo sobre a mobilização, que culminou na sua pesquisa de mestrado, ‘Marcha virtual das mulheres negras amazônidas: dimensões interseccionais na comunicação ativista em tempos de pandemia’, foi um dos projetos selecionados na segunda edição do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa, na categoria na categoria de Pesquisas e estudos concluídos.
A pesquisa objetivou, a partir da mobilização de mulheres negras amazônidas em âmbito online, em virtude do isolamento social à época vigente, investigar como as interseccionalidades atravessaram e foram mobilizadas no ativismo digital desse grupo por meio da Marcha Virtual.
A análise passou também pelas repercussões desse processo e considerou, por meio de arcabouço biográfico composto majoritariamente por pesquisadoras e pesquisadores negras e negros - assim como de fora de segmentos socioculturais e intelectuais hegemônicos -, os ensinamentos resultantes desse processo político. Um sinal inequívoco sobre a força política desse grupo reflete uma das afirmações de Flávia durante a entrevista: “estamos juntas crescemos como água, formando chuva, rios, pororoca... Disso, nós entendemos bem.”
Confira a seguir a entrevista concedida por Flávia Andrea Sepeda Ribeiro à Plataforma Ancestralidades sobre a pesquisa.
Um ponto da sua pesquisa é o destaque ao protagonismo de mulheres negras e amazônidas como contraponto à história escrita por mãos brancas. Com base na experiência da Marcha, como essa abordagem e o desafio ao status quo eurocêntrico e patriarcal são estratégicos na disputa pela construção de imaginários e para tornar plurais os perfis demográficos e sociais que ocupam espaços de poder e de decisão na sociedade?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: A centralidade do protagonismo de mulheres negras amazônidas, em diálogo com O perigo de Uma História Única [livro da escritora Chimamanda Ngozi Adichie] e com o conceito de escrevivência, é estratégica porque desloca o eixo de produção de sentido historicamente centralizado nas narrativas eurocêntricas, brancas e patriarcais.
A Marcha funciona como um gesto político-comunicacional de ruptura com a história “escrita por mãos brancas” que reposiciona mulheres negras não como objetos de análise ou vítimas silenciosas, mas como sujeitas produtoras de conhecimento, memória e projeto político.
As marchas são daqueles momentos em que as mulheres negras saem das margens/periferias onde foram historicamente colocadas/empurradas e ocupam o centro das ruas e dos debates com seus corpos, pensamentos e intelectualidade. Ao romper com a história única, a Marcha Virtual contribui para pluralizar os perfis demográficos e sociais reconhecidos como legítimos na esfera pública, tensionando a naturalização da branquitude e da masculinidade como norma do poder.
Concomitantemente aos marcadores de raça e de gênero, aspectos geográficos - por meio da subalternização à qual populações da região Norte foram submetidas em detrimento ao Centro-Sul - têm papel de destaque. Quão simbólica foi a organização da Marcha para potencializar o alcance das vozes e das narrativas de mulheres negras amazônidas?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: A organização da Marcha Virtual foi profundamente simbólica ao evidenciar que raça e gênero, na Amazônia, estão intrinsecamente atravessados pela geografia. A subalternização histórica da região Norte - vista como periferia do país, vazia ou atrasada - também se expressa na tentativa de silenciamento e invisibilização de suas populações negras. Ao reunir mulheres negras de diferentes estados da Amazônia Legal, o evento produziu uma cartografia política alternativa, na qual a Amazônia deixa de ser margem e passa a ser centro de enunciação.
Essa articulação potencializou o alcance das vozes amazônidas ao afirmar que há um modo próprio de viver, resistir e comunicar a luta a partir do território. Todo o processo - desde o planejamento, organização, culminando com a realização do evento - fortaleceu uma identidade afroamazônida¹ vivenciada, partilhada e celebrada entre as mulheres negras. Assim, a Marcha Virtual não apenas ampliou vozes, mas também confrontou a lógica centro-sulista que estrutura tanto a política quanto os fluxos de visibilidade no Brasil.
¹ Flávia opta pelo uso das grafias ‘afroamazônida’ e ‘amazônida’ como escolhas político-conceituais. Embora a norma ortográfica recomende o uso do hífen na junção do prefixo afro- com topônimos, e o sufixo -ico como forma adjetival, as formas que a entrevistada adotou buscam afirmar a inseparabilidade entre negritude, território amazônico e experiência vivida, nomeando sujeitos e identidades a partir de perspectivas decoloniais e da escrevivência como método e produção de conhecimento situado.
"A Marcha Virtual escancarou como corpos e narrativas negras amazônidas enfrentam mais barreiras para circular e se manter visíveis, confirmando que a luta por justiça racial também passa pela disputa das infraestruturas comunicacionais e pela crítica às lógicas algorítmicas que definem quem tem, ou não, permissão para ser visto, ouvido e legitimado."
Ainda sobre a preparação para a Marcha, como a organização no ambiente online possibilitou que as vozes de lideranças afroamazônidas pudessem ser projetadas por meio da oralidade? E como esse formato permitiu que as trocas de experiências e vivências ocorressem de modo até mesmo mais profundo?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: A Marcha Virtual foi planejada e realizada em 2020, o primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando não havia a oferta de vacinas. Logo, o ambiente online era o mais seguro para que as mulheres negras mantivessem seus ativismos no período pandêmico. Esse formato permitiu projetar, no sentido de amplificar, as vozes de lideranças afroamazônidas, pois o evento que poderia ter sido local se tornou regional, alcançando vários estados. O formato ainda funcionou como uma plataforma de registro dos debates suscitados em função da Marcha Virtual, que pode ser revisitada, destacando a oralidade - elemento central nas epistemologias negras e nos processos de transmissão de memória na diáspora africana. É uma das formas que povos, como africanos e indígenas, se inscreveram (e se inscrevem) no mundo ao longo da história.
Além disso, o ambiente digital favoreceu trocas mais profundas porque rompeu com a lógica rígida e hierarquizada de encontros presenciais formais. As lives, reuniões virtuais e áudios trocados em aplicativos criaram espaços de fala que respeitavam ritmos, afetos e modos de narrar próprios das participantes. A escuta coletiva, a partilha de vivências e o reconhecimento mútuo produziram vínculos políticos e afetivos que fortaleceram a mobilização, demonstrando que a comunicação digital pode ser também um espaço de ancestralidade, cuidado e construção coletiva.
Um ponto emblemático sobre a realização da Marcha Virtual foi a mudança do YouTube para o Instagram por causa de problemas durante a transmissão. Como esse episódio demonstrou a articulação para superar adversidades em âmbito tecnológico, em particular pela desigualdade estrutural no acesso à internet na região Norte, para que a dinâmica pudesse ser concluída?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: Na verdade, a Marcha Virtual começou com mais de uma hora de atraso em função de adversidades. Tivemos vários problemas naquele 25 de julho de 2020. Ao longo da transmissão, a dificuldade no acesso à internet foi citada várias vezes pelas ativistas.
O episódio da migração do YouTube para o Instagram revelou de forma concreta a capacidade de articulação das organizadoras frente às desigualdades estruturais enfrentadas por mulheres negras da Amazônia e não só no que diz respeito ao acesso à internet na região Norte, mas também por formamos um grupo vulnerabilizado socialmente e mais pesadamente no período pandêmico. Longe de ser um simples problema técnico, o ocorrido escancarou como as infraestruturas digitais são desiguais e afetam diretamente quem pode ou não se manter visível quem pode ou não pode falar e estar presente no ambiente digital.
A rápida reorganização demonstrou uma prática de resistência tecnológica: o domínio prático das plataformas, a comunicação ágil entre as organizadoras e o engajamento do público permitiram que a Marcha Virtual fosse concluída, reafirmando que mulheres negras amazônidas não apenas consomem tecnologia, mas a reconfiguram estrategicamente para seus fins políticos. Intimamente, tenho duas analogias para lembrar desse episódio. A primeira é de uma caminhada na rua em que tivemos que mudar o percurso para alcançar o lugar que nos propusemos chegar. A outra, é que quando estamos juntas crescemos como água, formando chuva, rios, pororoca... Disso, nós entendemos bem.
Durante a dissertação, você passou por pontos que abrangiam temas como interseccionalidade racial e de gênero, respostas contra perspectivas hegemônicas e combate ao racismo algorítmico. De que modo experiências como a Marcha mostram que essas pautas estão correlacionadas e, por consequência, que a estrutura de aplicativos e plataformas não é neutra em âmbito racial e de gênero?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: A interseccionalidade é a lente que adoto para estudar como diversas categorias se articulam e se relacionam provocando desigualdades sociais relegando certos grupos ao apagamento e à subalternização ao mesmo tempo que outros grupos têm suas vivências plenamente validadas. Por isso, a interseccionalidade exige examinar além de raça e gênero.
As experiências da Marcha Virtual, e de outras marchas que cito na dissertação, evidenciam a importância da interseccionalidade como ferramenta que dá conta de criticar perspectivas hegemônicas e combater o racismo algorítmico. As dificuldades de alcance, as instabilidades técnicas e os limites impostos pelas plataformas mostram que não há neutralidade no ambiente digital: eles reproduzem hierarquias raciais, territoriais e de gênero já existentes na sociedade.
A Marcha Virtual escancarou como corpos e narrativas negras amazônidas enfrentam mais barreiras para circular e se manter visíveis, confirmando que a luta por justiça racial também passa pela disputa das infraestruturas comunicacionais e pela crítica às lógicas algorítmicas que definem quem tem, ou não, permissão para ser visto, ouvido e legitimado.
Como a sua perspectiva em primeira pessoa te ajudou na análise de aspectos comunicacionais, tecnológicos e relativos à mobilização para que a Marcha alcançasse o objetivo proposto?
Flávia Andrea Sepeda Ribeiro: A escrita em primeira pessoa não foi uma escolha aleatória. É algo que dialoga com vários pontos da minha pesquisa. Primeiro, a escrita ancorada na escrevivência foi fundamental para analisar os aspectos comunicacionais, tecnológicos e mobilizatórios da Marcha Virtual. Ao assumir minha posição como mulher negra amazônida, ativista e pesquisadora, pude acessar nuances que uma análise distanciada dificilmente alcançaria: os afetos envolvidos, as tensões internas, as estratégias traçadas e improvisadas e os sentidos atribuídos pelas próprias participantes.
Essa perspectiva não compromete a análise. Ao contrário: a fortalece epistemologicamente, pois reconhece que conhecimento também é produzido a partir da experiência situada. Ao articular teoria e prática, a escrevivência permitiu compreender a Marcha Virtual, o evento, não apenas como objeto de estudo, mas como processo vivo de comunicação política, resistência e produção de futuros possíveis.
Além disso, os procedimentos metodológicos acionados, escrevivência e roleta interseccional, convidam os pesquisadores a se inscreverem no estudo analisando o objeto a partir do seu lugar de fala. O que dialoga com os pensamentos de bell hooks, [da antropóloga dominicana] Ochy Curiel e Grada Kilomba, quando ressaltam que nossas experiências coletivas e nossas memórias são conhecimentos que precisam ser valorizados e são legítimos.
Todas as escolhas que fiz nessa trajetória são políticas: a perspectiva de análise e de escrita em primeira pessoa; os procedimentos metodológicos que partem de duas mulheres negras e as referências, em boa parte intelectuais negras e/ou do Sul Global. É uma dissertação escrita por uma mulher negra amazônida, analisando um evento planejado, realizado e protagonizado por mulheres negras amazônidas. O manto colonial que tentou cobrir grupos subalternizados está puído e furado.