Comunicação e informação devem ser consideradas como elementos estratégicos para que saberes ancestrais sejam valorizados. E esses pontos são preponderantes no eixo Ética e justiça racial nas tecnologias digitais de informação e comunicação do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros.
Dentro da lógica online da difusão e produção de conhecimentos sobre a população negra, alguns tópicos devem ser destacados. Primeiro, a recorrência de projetos que analisam os saberes produzidos por mulheres negras ganha destaque por meio de pesquisas sobre o uso feminista da internet e mídias sociais para articulação política.
Ainda, outro tópico de destaque abrange a lógica sobre o racismo algorítmico, o que é justificado a partir de dois objetos predominantes: danos à representações de pessoas negras em mídias sociais e buscadores, assim como o papel do reconhecimento facial na violência estatal.
Leia a seguir mais detalhes sobre os três trabalhos escolhidos dentro do eixo 3 do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros.
Maria Aparecida Moura, autora de Ativismo visual e a descolonização do ver: enfrentamentos em torno da vulnerabilidade escópica e da codificação sociotécnica da (in)visibilidade negra (MG) - em andamento
As tecnologias de visualidade têm contribuído historicamente para a estratificação e a classificação da diferença humana. Nesse contexto, a sensibilidade racial que orienta as tecnologias da visualidades nutre dilemas quanto à codificação da desigualdade. Observa-se, por um lado, que muitas tecnologias falham ao ler e admitir a negritude como código, enquanto a negritude, uma vez codificada, fica circunscrita a uma forma persistente de superexposição e hipervisibilidade que norteiam acessos, restrições e mortes.
O ativismo visual surge, neste contexto, como uma instância de atuação política e criativa que busca ampliar a agenda temática da cultura visual global na direção de sujeitos, temas e cenários pouco representados. Combater a invisibilidade, a semiose colonial do olhar, os estereótipos e o desprezo subsumidos na cultura visual contemporânea tornou-se a agenda de diversos artistas que produzem e põem em circulação um repertório imagético ampliado em que, não raro, eles próprios ocupam a cena.
Esse estudo tem por objetivo estudar o ativismo visual exercido por fotógrafos/as e realizadores/as negros/as no contexto do enfrentamento da colonialidade do ver e da intensificação do uso de tecnologias voltadas à conformação de imagens de controle, à vulnerabilidade escópica e à codificação sociotécnica da (in)visibilidade negra.
Paulo Victor Purificação Melo, autor de Territórios Livres, Tecnologias Livres (BA) - pesquisa concluída
Para enfrentar o desafio da luta pelo território, por justiça socioambiental e a promoção de internet livre, o projeto propôs-se a produzir um mapeamento coletivo do acesso, usos e concepções sobre a internet e as tecnologias da informação e comunicação por comunidades quilombolas e rurais do Nordeste brasileiro.
O mapeamento foi baseado em um processo de formação e troca entre as agendas de luta em defesa dos territórios e por uma internet livre. Trata-se da primeira etapa de um processo de articulação e formação que aponta para a construção de contra narrativas e disputas epistemológicas sobre internet e TICS a partir de uma visão feminista, antirracista e comprometida com a justiça socioambiental.
A pesquisa, que abrangeu 33 territórios quilombolas e rurais nos nove estados do Nordeste, apontou para a produção de insumos para a incidência junto a centros de poder por políticas públicas de acesso e usos da Internet e TICs, além do fortalecimento e construção de apropriações autônomas de tais tecnologias em diálogo com tecnologias ancestrais e modos de vida tradicionais.
Emilly Fátima Ferreira Lima, autora de Racismo Algorítmico: representação racial e dimensões socioeconômicas em bancos de imagens digitais (DF) - pesquisa em andamento
O racismo algorítmico pode ser entendido como a reprodução de estereótipos e práticas racistas em mecanismos computacionais, como resultados de buscas e anúncios, devido ao treinamento enviesado de algoritmos e bancos de dados que replicam e intensificam o racismo estrutural. Estudos recentes mostram como os bancos de imagens digitais reproduzem diversos desses estereótipos, contribuindo para a perpetuação de opressões e microagressões contra grupos subalternizados.
Para entender esta retroalimentação, o objetivo deste estudo foi investigar a representação racial e socioeconômica em bancos de imagens digitais. Foram escolhidos bancos de imagens gratuitos e palavras-chave em português para aproximar o método de pesquisa da realidade do comportamento da maior parte dos brasileiros. As buscas foram realizadas nos bancos Freepik, Pexels e Pixabay, com as palavras pobreza, miséria, riqueza e dinheiro, que são indicadores de baixo e alto status socioeconômico.
Três juízes avaliaram independentemente 3.295 imagens e atribuíram uma valência (positiva, negativa ou neutra) para cada uma delas. Nas análises preliminares, 40% das imagens de pobreza e miséria foram avaliadas como representação de médio e alto status. Nos resultados de riqueza e dinheiro, 60% das imagens são ilustrações ou fotos de bens materiais.
Estudos como este são importantes para levantar questionamentos a respeito do conteúdo produzido e consumido, bem como o modo como é feita a navegação na internet.