Não estamos no meio ambiente: nós somos o meio ambiente - Entrevista com Báyò Akómoláfé

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Entre os diversos pontos que se destacaram no diálogo com o filósofo, escritor e professor Báyò Akómoláfé, um deles é a reflexão de que o ritmo acelerado do nosso cotidiano - seja de produção, atividade econômica, impacto ambiental e em âmbito trabalhi...

Não estamos no meio ambiente: nós somos o meio ambiente - Entrevista com Báyò Akómoláfé
Tamara dos Santos

Entre os diversos pontos que se destacaram no diálogo com o filósofo, escritor e professor Báyò Akómoláfé, um deles é a reflexão de que o ritmo acelerado do nosso cotidiano - seja de produção, atividade econômica, impacto ambiental e em âmbito trabalhista - nos levará ao colapso.

Não por acaso, uma fala recorrente de Báyò, que é autor de obras como ‘These Wilds Beyond Our Fences: Letters to My Daughter on Humanity's Search for Home’  (‘Esses Selvagens para Além das Nossas Cercas’: Cartas para Minha Filha na Busca da Humanidade pelo Lar, em tradução livre do inglês), passa pela expressão ‘ir devagar’ - ou ‘slowing down’ em inglês. E ele não se refere a “fazermos mais aulas de ioga, descansarmos ou viajarmos”, como destacou durante a entrevista para a Plataforma Ancestralidades. Trata-se de algo estrutural, enfim.

Nesse contexto, a abordagem de Báyò Akómoláfé para a busca por novos paradigmas e estruturas sociais que tenham o meio ambiente como um de seus elementos centrais passa pela lógica da regeneração. E isso passa pela sua compreensão de que a busca por soluções, pura e simplesmente, equivale a retroalimentar problemas. Além disso, a metáfora do círculo da morte composto por formigas, feita por ele durante a entrevista, é didático nesse contexto.

Confira a seguir o diálogo, que passa também pela ancestralidade, a falsa sensação de segurança proporcionada por muros e cercas, um ensinamento de Exu para resistirmos a perspectivas neocolonizadoras e um reflexão que vai para além da relação da humanidade com o meio ambiente (spoiler: trata-se da relação com nós mesmas e mesmos).

 

Por quais motivos você considera que precisamos recorrer a cosmovisões e construções epistemológicas para além do eurocentrismo - e de conceitos coloniais - para podermos, por meio da integração entre povos, repensarmos o modo como nos relacionamos e impactamos o meio ambiente?

Báyò Akómoláfé: Há algo que me acostumei a dizer - é bem comum me ouvir dizer isto. Precisamos ir devagar em períodos de urgência. Quando me ouvem dizer isso, imagina que se trate de fazermos mais aulas de ioga, descansarmos ou viajarmos, por exemplo. Mas esse não é o ponto: eu me refiro a percebermos todos os modos pelos quais nos conectamos com forças invisíveis e coisas que não vemos.

A modernidade é o paradigma que nos motiva a esconder coisas. É o que planificou mundos, a escravidão e o [sistema de] plantation. E isso diz que tudo o que temos de fazer é consumir até a exaustão - saia, divirta-se e coma. Mas algo sobre o Antropoceno está lançando todas essas tensões escondidas de modo que precisamos enfrentar isso tudo de cabeça erguida. Logo, ir devagar não é sobre reduzir a velocidade pura e simplesmente: é sobre encontrarmos o monstro. E isso não é sobre encontrar soluções ou solucionar a crise, mas sobre esperar e ficar com a turbulência - esse é um paradigma totalmente diferente. 

A modernidade quer apenas consertar. Mas ir devagar, o que é uma [abordagem] ancestral, indígena e relativo ao feminismo materialista, o que é um convite para ficarmos com o problema de momentos como esse de modo que possamos ser mudados por isso. E é um paradigma muito diferente em comparação com a tentativa de planificar as coisas de uma vez por todas.


Outro aspecto nas reflexões que você apresentou no documentário ‘Regenerar: Caminhos possíveis em um planeta machucado’ passou pela necessidade de desacelerarmos para regenerarmos o meio ambiente. É correto pensar que a medida mais urgente - e rápida - para revertermos os impactos ambientais passa por diminuirmos o nosso ritmo de vida? Por quais motivos?

Báyò Akómoláfé: Considero que ir devagar em momentos como esse é algo incrivelmente necessário. Eu não me refiro a reduzir a velocidade, mas virar para o lado e receber os monstros que estão emergindo das rachaduras da modernidade. Isso é algo totalmente diferente do que reduzir a velocidade. Mas o que notamos de modo crucial nestes dias é o que chamamos de Antropoceno, correto?

Desconfiamos das instituições democráticas e das pessoas em geral. A nossa política tornou-se tão brutal e frágil que não sabemos pensar exceto em termos de lados - agora é o nós contra eles. E estamos em apuros porque não sabemos como lidar com esses desafios críticos. O que percebemos em momentos como esses é que o modo como respondemos à crise é parte da crise. A maneira como tentamos resolver as coisas é o que as deixam mais fortes, correto?

Um breve exemplo pode ser o modo como descartamos o lixo. Vivi parte da minha vida nos EUA e as pessoas são gentis lá - elas importam-se com o planeta. Elas demonstram constantemente essa preocupação ao reciclar o lixo e esse foi o modo como elas foram ensinadas nesse contexto. Exceto o fato de que 90% do lixo é destinado para África, Ásia e outras partes do mundo no Sul Global - também para o Brasil. Até mesmo a retidão e ser bom não é suficiente por ora. Você pode ser uma pessoa boa e, ainda assim, continuar a ser parte de uma máquina colonial que regurgita, repete e recicla a mesma lógica continuamente. 

Quando a escravidão acabou no Brasil? Sei que [a abolição] foi, oficialmente, em 1888, mas a escravidão não desapareceu: ela tornou-se a nossa cultura trabalhista, a hierarquia que ainda persiste e as demarcações da vida. O ter e o não-ter. Tornou-se a sociedade. A escravidão ainda existe e ainda continuamos nela. E isso reformula as maneiras como pensamos sobre responder à crise. Se apenas queremos lançar uma solução ou uma iniciativa filantrópica sobre isso, repetiremos o problema. Logo, precisamos viajar, pensar e nos reunir de maneiras diferentes. Por isso, insisto que ir devagar é um convite para os tempos atuais.


Por que é importante termos em mente que vivemos em uma rede e ambiente muito maior do que consideramos? E por que não podemos nos afastar desta perspectiva para podermos ter agência no modo como nos relacionamos, em âmbito estrutural, com o meio ambiente?

Báyò Akómoláfé: Não estamos no meio ambiente. Essa concepção é uma tese muito modernista e epistemologicamente branca. Na verdade, nós somos o meio ambiente. Nossos corpos estão em constante relação com micróbios, fungos e bactérias, assim como com a fauna, flora, ancestralidade, gastronomia e a atmosfera. Somos agentes ecológicos e parte do meio ambiente - e somos o que ele faz. E isso é escandaloso para a política e imaginários modernos, pois ambos insistem na lógica segundo a qual somos corpos soberanos. 

Somos os nossos testamentos, histórias e cognição autocompostos, assim como memórias divorciadas, separadas e separáveis em relação ao meio ambiente. Mas o que significa reconhecer isso? No caso, que o clima não é externo a nós, uma vez que somos corpos climáticos e parte dos eventos climáticos. Na verdade, a espécie [humana] é climática - e vice-versa. Não se trata de setores apartados, logo, considerar todos esses aspectos, que são cada vez mais difíceis de dissociar, significa que precisamos fazer novas perguntas.

Precisamos compreender como fatores atmosféricos são lógicos. Apesar de que todos queremos fazer coisas positivas, costumamos repetir os mesmos desafios e problemas. Costumo fazer a mesma coisa, como formigas em um círculo da morte. As formigas andam em círculos e o fazem porque secretam um semioquímico e feromônios. Isso as ajuda a seguir em frente, mas acidentes acontecem às vezes. Logo, elas entram em uma espiral e andam em círculos, que podem durar dias - as formigas marcham por dias e consideram que chegarão logo ao seu destino. Mas, na verdade, elas andam em círculos até morrer por exaustão nesse fluxo. Isso me lembra de outra espécie que talvez você conheça. Já organizamos diversas edições da COP, correto? COP 2, COP 3 e assim por diante. Continuamos a fazer a mesma coisa sem parar, mas não estamos nada perto de alcançar a lógica e o espírito da nossa desconexão com o planeta.

Logo, este não é um momento para gestos civilizacionais grandes e espetaculares - é para ações menores. Não me refiro a ações localizadas em uma direção ou menor em escala, mas para se inclinar de modo diferentemente. Precisamos dançar de outro modo. Por exemplo, a arte e a estética da capoeira são muito bonitas e místicas. É uma dança, mas também uma arte marcial. O Brasil tem essas tecnologias, com a vinda dos orixás e com Exu, o malandro¹. Essas são as tecnologias das quais precisamos agora, não de solucionismos que que fundações corporativas e Estados-Nações prometem.

"Não estamos no meio ambiente. Essa concepção é uma tese muito modernista e epistemologicamente branca. Na verdade, nós somos o meio ambiente."

Na obra ‘These Wilds Beyond Our Fences’, você fala nas cartas escritas para Alethea, sua filha, sobre precisarmos repensar o modo estilo de vida e de nos livrarmos de vieses discriminatórios É correto trazermos essa dimensão para o debate ambiental, ao derrubarmos muros e cercas para estabelecermos planos em conjunto para combatermos os efeitos das mudanças climáticas e a degradação do meio ambiente?

Báyò Akómoláfé: Sabe, estamos em um período marcado por muros e cercas - voltamos a essa era. Protofascistas e ditadores ao redor do mundo prometem novos muros dourados e o país vizinho ainda deverá pagar por ele. Todas as pessoas querem erguer muros agora, pois alegam que eles nos deixarão em segurança e são puros. Mas os muros nunca foram verdadeiramente fiéis aos ideais de pureza, pois muros também emigram e viajam. Eles não são tão estáveis ou estáticos como consideramos e aprendi isso a partir da minha própria cultura. 

Não costumamos aprender isso na escola. Por exemplo, precisei treinar a mim próprio para [alcançar] esse saber. Tenho doutorado², mas gostaria de ter aprendido isso quando cresci na Nigéria, onde 11 milhões de corpos africanos foram roubados do continente e levados até os EUA, Brasil e Caribe. Mais da metade tiveram o Brasil como destino e esse foi o país que recebeu mais pessoas africanas do qualquer outra parte do mundo - sendo que a maioria entrou no Cais do Valongo. Isso é muito doloroso, mas aprendi outra história sobre meus ancestrais.

Trata-se da história de Exu. Exu estava com todos os seus irmãos e irmãs orixás - Ogum e Oiá [N.R.: orixá também conhecido como Iansã], por exemplo. Quando os navios negreiros chegaram, de acordo com essa história, todos os orixás chegaram e eles queriam afastar os traficantes de pessoas³. Só um orixá não lutou: Exu. Ele decidiu que, em vez de lutar, ele faria algo diferente - no caso, viajar com o muro e passar pela rachadura. Então, ele decidiu tomar vinho de palma e o deu aos seus irmãos orixás. Todas e todos eles dormiram, Exu os colocou no navio negreiro e viajaram com as pessoas escravizadas rumo ao Brasil - e agora vivem aqui. Como Exu vive aqui agora, ele inventou o samba, o candomblé⁴, a capoeira e todas essas belas tradições e tecnologias que celebramos. Ele criou tantas coisas bonitas que estão aqui. Acredito que os muros não irão durar por muito tempo, pois se tornarão, em algum momento, parte da paisagem - eles sempre foram parte da paisagem. 

Ir devagar não é sobre derrotar o próximo, tampouco se tornar campeão, pois até a vitória está em risco. Se vencermos e os derrotarmos no próprio jogo deles, já teremos perdido. Não é sobre chegar com novas armas, mas sim sobre viajar como Exu fez. Precisamos viajar através das rachaduras em vez de vencer a guerra. Se vencermos a guerra, o muro continuará em pé. Logo, precisamos viajar de maneira diferente e esse é o meu convite para este país amado. O sistema se hackeará a si próprio: não se trata de hackear o sistema, pois ele finge estar completo. É isso o que os transforma em sistemas.

No capitalismo,  na Faixa de Gaza, em isso tudo o sistema tenta fingir estar completo. E, então, eles fazem algo. Considero que o mais ingênuo e brilhante dos sistemas nutre a própria oposição. Como a grande genialidade do capitalismo, que é nutrir anticapitalistas. Você diria, então, que sou anticapitalista e que derrubarei o capitalismo. Quando? Na terça-feira, por exemplo, após o expediente. Ou, então, comprar a sua camiseta anticapitalista por R$ 5. Essas são maneiras por meio das quais até as oposições repetem a lógica à qual tentam combater. Os sistemas fingem, desse modo, estar completos. O nosso trabalho é perceber onde os sistemas estão incompletos, trêmulos e comportando-se mal para, então, purificarmos⁵ esses lugares.

Sou um psicólogo formado. A psicologia e a psicoterapia não dão espaços para as pessoas lamentarem, por exemplo. Fui treinado para ajudar pessoas a serem produtivas. Você vem ao meu consultório e te ajudo a voltar ao trabalho. Essa é a ideia da psicologia. A psicologia é a policial do capitalismo, mas tenho considerado que precisamos de espaço para o lamento. Lamentar e descansar são atos de resistência, assim como o são ficar com os seus filhos, divertir-se, cozinhar e compartilhar histórias. Esses gestos pequenos podem não ser políticos, mas são exatamente como poderemos desfazer o sistema. 
 

Observações
 

¹ Durante a entrevista, Báyò usou a expressão ‘trickster’. Ao levar-se em conta o contexto - em que Exu, segundo a lenda contada pelo filósofo, pregou uma peça para seus irmãos orixás virem ao Brasil para criar novas tecnologias e estratégias -, optou-se pela tradução ‘malandro’.

² O termo usado por Báyò foi Ph.D. Para manter o sentido, optou-se por traduzir para ‘doutorado’.

³ O termo originalmente usado foi ‘slavers’. Optou-se, para reforçar que a escravidão consistiu em tráfico de pessoas, em usar o termo ‘traficantes de pessoas’.

⁴ O termo usado por Báyò foi ‘santeria’. Ao considerar-se o contexto das religiões de matriz africana no Brasil, optou-se por falar do Candomblé.

⁵ O termo mencionado na entrevista foi ‘libate’. Ao considerar-se o contexto, optou-se por traduzi-lo para ‘purificarmos’.

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